Dom Moacir Silva Arantes

Ao tratarmos, neste Congresso, da ação evangelizadora dos casais unidos pelo sacramento do matrimônio, que envolve tanto a Pastoral Familiar como outros Movimentos e Serviços que atuam apostolicamente em favor da família e da vida, devemos fazê-lo partindo de dois princípios: existe um objetivo comum, que pertence à Igreja, e que cabe, prioritariamente, à sua ação pastoral; e existem os diversos carismas e ministérios suscitados pelo Espírito Santo para que este objetivo seja alcançado, complementando a ação pastoral da Igreja.

A Palavra de Deus nos traz um apelo e um alerta de Jesus dirigidos a seus discípulos e, hoje, também a nós, discípulos-missionários Dele, neste tempo e na ação evangelizadora das famílias: o APELO em favor da UNIDADE, apresentando-a como condição para testemunhar sua pertença a Ele (Jo. 17,22-23), para alcançar de Deus o auxílio na missão (Mt. 18,19), para garantir sua presença no meio dos discípulos (Mt. 18,20).

Ao apontar a necessidade da unidade, Jesus manifesta que mais importante do que realizar obras, ou desempenhar um bom trabalho pastoral, é construir a unidade, a colaboração entre seus discípulos, porque essa é consequência tanto do amor a Cristo como aos irmãos. Neste amor, que gera unidade, os discípulos são reconhecidos em sua pertença a Cristo e suas obras são identificadas com as obras de Cristo. Buscar a unidade na ação evangelizadora da Igreja, e não a uniformidade, é a grande meta e o grande testemunho que podemos dar diante do mundo como Pastoral Familiar. Um atendimento a necessidades materiais, afetivas ou até mesmo espirituais por uma boa técnica ou estrutura, não supera o mandamento do amor. Mandamento esse que é base verdadeira de todo atendimento e leva à colaboração entre os que estão no mesmo caminho. Conforme lembra São Paulo: “Se eu não tiver amor, nada serei”.

O alerta de Jesus a seus discípulos sobre a busca de poder, de vanglória e de domínio, quando percebe que discutem sobre quem seria o maior no Reino de Deus, merece ser lembrado sempre em qualquer ação pastoral. “Chamando-os, Jesus lhes disse: ‘Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos’” (Mc. 10,42-45). Os agentes da Pastoral Familiar, como todo servidor do Evangelho, devem guiar-se por este apelo e cuidar-se diante deste alerta. É preciso construir a unidade e uma ação pastoral marcada pelo serviço ao outro e não a si mesmo.

Santo Agostinho dizia “Nas coisas essenciais, igualdade; nas coisas não essenciais, liberdade; e em todas as coisas, caridade”. Diante da diversidade que o Espírito suscita na Igreja para amar e servir aos casais e ajudá-los a conhecer e viver o plano de Deus para o matrimônio, bem como a diversidade no agir pastoral, entendemos a maior necessidade da Igreja hoje: que a Pastoral Familiar e os Movimentos e Serviços trabalhem de forma orgânica à luz daquela palavra do Bispo de Hipona.

O trabalho de uma pastoral orgânica lembra o modo de trabalhar de qualquer organismo vivo… Diversos membros, diversas funções, diversos modos de operar de cada membro, mas um mesmo e único objetivo: manter o corpo vivo, saudável e crescendo (progredindo e evoluindo), em vista de sua finalidade. São Paulo se refere a isto na Comunidade de Coríntio, tanto recorrendo ao exemplo do corpo humano para mostrar a importância de os carismas operarem em conjunto, como também ao exemplo de que tudo é de Cristo, independente de quem trabalha (semeando, cuidando, colhendo…), quando cita a divisão de grupos naquela comunidade (1Cor. 3,4-9), e termina lembrando que todos os agentes são cooperadores de Deus, todo o povo, todas as famílias são “a lavoura de Deus, a construção de Deus” (cf. 1Cor. 3,9).

Não podemos nos contentar hoje com uma pastoral de conjunto em que, dentro do seu conjunto, cada elemento cuida do que é seu e cuida para não esbarrar no que é do outro. Um grupo de cadeiras numa sala é um trabalho de conjunto, cada uma “no seu quadrado”, sem se envolver com a outra e cuidando do seu. A pastoral orgânica exige que a identidade de cada elemento seja conhecida, compreendida, respeitada e colocada a serviço dos demais, numa ação que complementa e não substitui, nem incorpora e nem suplanta as demais. Cada elemento reconhecendo o outro, envolvendo-se com ele para conhecê-lo, partilhará do que ele oferece e oferecerá o que lhe é próprio.

É preciso, numa Igreja em saída e a serviço, que exista vontade para evangelizar e tornar as pastorais também em saída e a serviço… Uns em direção aos outros e todos em direção ao objetivo. Isto exigirá de cada um atitudes próprias ao cristão:

1. A Humildade, para reconhecer que não somos os únicos e nem os melhores. Que não somos tudo e nem podemos tudo. Que necessitamos uns dos outros. O Espírito suscita dons e carismas e desperta, na Igreja, diversos movimentos e pastorais para complementação e colaboração na ação e não disputa a substituição uns dos outros. Existe lugar para todos e não precisamos ceder à tentação de Caim (competir com o irmão, e destruir o irmão). Deus nos fez necessitados uns dos outros (a narrativa javista da criação do casal já apresenta importante ensinamento). Uma pastoral ou movimento, como qualquer leigo ou sacerdote, deve ter a mesma clareza do Papa Bento XVI quando disse: “Não procuro aplausos, procuro obedecer a verdade”, assim também nós, sabendo que a Verdade não é uma ideia, mas o próprio Jesus Cristo. E nós procuramos, em nossa ação, obedecer a Jesus Cristo (Jo. 15, 10.14) e esta é a fonte da verdadeira alegria do discípulo (Jo. 15,11).

2. A Solidariedade, para reconhecer que os talentos a nós confiados, pessoalmente ou pastoralmente, têm como função ser colocados à disposição dos outros e não serem enterrados em uma pastoral, em um grupo ou em uma comunidade de vida. Deus colocou em nós a peça que o outro necessita para compor seu plano, como num grande quebra-cabeças montado em conjunto.

3. A Caridade, para reconhecer nossa necessidade dos outros, como convite à abertura, e os nossos talentos necessários a eles, como convite à doação. Somente terão sentido essa dependência e essa capacidade, a partir da decisão de amar e deixar-se amar. Amar, para acolher o que nos dão; amar, para doar o que necessitam de nós. Agora temos três coisas: Fé, Esperança e Caridade, mas a maior de todas é a caridade (cf. 1Cor. 13,13).

É preciso progredir na unidade a partir de três vias: conhecer, amar e servir.
Conhecer o outro a partir daquilo que ele é e manifesta e não daquilo que pensamos sobre ele. Assim, a coordenação da Pastoral Familiar deve se esforçar para conhecer, compreender e acolher a realidade dos Movimentos e Serviços presentes na diocese ou na própria paróquia. Não há nada que impeça um agente de participar e apoiar outros movimentos e pastorais sem deixar aquilo que é específico do seu trabalho na Pastoral ou em outro Movimento Eclesial. É importante lembrarmos que nós pertencemos, em primeiro lugar, não a uma pastoral ou movimento, mas a Cristo e à sua Igreja (e vivemos esta pertença dentro de uma comunidade concreta – a diocese que se concretiza em cada paróquia, e a paróquia que se concretiza em cada comunidade). Da mesma forma que uma árvore sem raiz não pode viver, crescer e frutificar, qualquer fiel sem a pertença à sua comunidade eclesial também não poderá viver concretamente sua experiência cristã, crescer como discípulo e nem frutificar em sua missionariedade.

Amar o outro valorizando sua existência e sua importância. Um irmão não é para ser vencido, mas ser amado.

Servir ao outro como caminho, para servir ao objetivo maior. O outro é o caminho para Cristo. “Onde está o teu irmão, eu estou presente nele”. “O que fizerem ao menor de meus irmãos é a mim que estais fazendo”.

A partir de nossa experiência pastoral, podemos aprofundar nossa identidade de cristão e nossa missão na Igreja e no mundo. Participando de diversos movimentos e pastorais como leigo ou consagrado (ordem e vida religiosa), aprendemos que o Espírito realmente suscita diversos carismas e atividades em favor da construção do Reino de Deus. Com esta certeza, precisamos esforçar-nos para conhecer cada movimento que envolva as famílias dentro de nossa realidade comunitária, paroquial, diocesana, regional e nacional. Sem preconceitos, podemos perceber os valores e os limites de cada um; entender o que eles têm a acrescentar e colaborar (a partir de seus valores) e a receber e melhorar no contato com outros movimentos e pastorais (devido a seus limites). Nenhum movimento ou pastoral atinge tudo… Cada Movimento tem sua especificidade, mas a Pastoral Familiar é mais ampla e deve ser “um dos eixos transversais de toda a ação evangelizadora”, ela não é “o” eixo, mas “um” dos eixos, e deve assumir esta missão fomentando a aproximação, o conhecimento e o diálogo com todas as outras instâncias.

“Cristão é o meu nome e católico é meu sobrenome. Um me designa, enquanto o outro me especifica. Um me distingue, o outro me evidencia. É por este sobrenome que nosso povo é diferenciado dos que são chamados heréticos” (São Paciano, de Barcelona). A quem pertenço? Em primeiro lugar: a Deus, a Cristo e ao Espírito Santo. Em segundo lugar, à minha família cristã: a Igreja (minha diocese, minha paróquia, minha comunidade, nesta ordem). Porque não existe comunidade sem paróquia e nem paróquia sem diocese, afinal tudo é a diocese que se faz presente , concretamente, num território paroquial. E dentro da Igreja (territorialmente ou extra-territorialmente) assumo missões que me envolvem em grupos (pastorais e movimentos). Ter clareza sobre nossa identidade é fundamental para entrarmos em contato com o outro, nos interessarmos por ele, procurarmos conhecê-los.

Diz o Diretório Nacional da Pastoral Familiar:

[376] É muito bom que a família e seus membros participem dos diferentes movimentos da Igreja, das atividades de algumas entidades ou centros de formação cristã. Estes meios poderão representar um veículo estável de formação, de desenvolvimento da sua vida espiritual, um incentivo para o apostolado e uma inserção estável da família no seio da Igreja.

[377] Existe na Igreja um fenômeno novo. Além de alguns movimentos especificamente de Pastoral Familiar, surgiram nos tempos atuais diversos movimentos de uma renovada vivência cristã, globalmente considerada, que trouxeram, cada um segundo seu próprio espírito, uma significativa contribuição para a vivência cristã da família. Em torno desse fenômeno, inspiradas pelo Espírito Santo, muitas são as famílias cristãs que se reúnem em comunidades ou grupos, para melhor aprofundar, viver e anunciar sua fé. Essas entidades, associações, movimentos e serviços, aprovados pela hierarquia, produzem frutos abundantes de fé, esperança e caridade. Eles possuem uma espiritualidade própria e exercem sua ação apostólica em ambientes específicos da sociedade, constituindo uma riqueza na vida da comunidade eclesial.

[378] Existe, contudo, um perigo que é preciso sempre evitar: uma certa tendência a fecharem-se sobre si mesmos, a perder o contato com a realidade social e com a caminhada pastoral da Igreja. A vida espiritual se alimenta, cresce e dá frutos quando está unida ao organismo vivo da Igreja. Por essa razão, os casais e as famílias que pertencem a Movimentos ou Associações, respeitando a autonomia estabelecida nos seus estatutos e a sua própria identidade, são convidados a unirem suas ações às da Pastoral Familiar e por ela serem motivados à integração na vida eclesial, como testemunho da sua unidade e espírito de serviço em prol dos casais e das famílias.

Como diretrizes de ação pastoral, indicam-se as seguintes:
– Deixar claro que essas entidades, movimentos, associações familiares e serviços, fazem parte, em sentido amplo, da Pastoral Familiar – sem perderem o seu carisma peculiar –, porém não se identificam com ela e tampouco a substituem. A Pastoral Familiar é mais abrangente. Ela acolhe os Movimentos, conta com o apoio e a ajuda deles, respeitando o pluralismo sem prejudicar a unidade.

Sem lesar a sua legítima autonomia, procurar dar a conhecer aos dirigentes ou membros dessas associações a forma adequada de participar de uma pastoral de conjunto.

– Incentivar as famílias a formarem associações, inclusive de caráter jurídico, para a defesa dos direitos de família. Assim poderão influenciar, de modo organizado e eficaz, as políticas sociais e os meios de comunicação, a fim de se criar uma cultura, uma legislação e uma ação governamental favorável à dignidade e aos direitos da instituição familiar.

O que nós, agentes da Pastoral Familiar, sabemos dos Movimentos, Associações, Institutos presentes em nossas paróquias e diocese? Quais são eles? Como se organizam? O que realizam? Seria interessante fazermos uma listagem e percebermos se, como Pastoral Familiar, estamos centrados demais em nós mesmos ou estamos estabelecendo as ligações necessárias.

Quando a Pastoral Familiar, os Movimentos, Associações, Organismos e Institutos assumem esta compreensão e esta missão de trabalhar como um corpo nas realidades eclesiais, conseguem descobrir caminhos de viabilizar esta atividade orgânica. Na Paróquia, a integração na estrutura da Pastoral Familiar e do Conselho Pastoral Paroquial; na Diocese, a integração na Comissão Diocesana ou no Setor Vida e Família; no Nacional, na estrutura da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família (CEPVF), por meio da Comissão Nacional da Pastoral Familiar (CNPF).