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Palestras

I – Mensagens do Congresso

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I . O Evangelho da Família, alegria para o mundo
“Completai minha alegria permanecendo unidos.”
(Filipenses 2,2)
Dom João Wilk

I . O tema e o lema resumem o conteúdo das catequeses do papa para o IX Encontro Mundial das Famílias.

É preciso a gente tentar se reunir. Antes de adentrar na nossa reflexão sobre o “Evangelho da Família”, eu gostaria de citar uma bela página de um dos escritores franceses mais conhecidos, Saint-Exupéry, de sua obra Terra dos Homens. São suas palavras: “Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de voo, na Argentina — uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície. Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa, alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo alento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos… É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura”.

Hoje, muitas pessoas são como essas “pequenas luzes perdidas na planície”, pedindo alento. “… entre essas estrelas vivas — diz o poeta — tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos… É preciso a gente tentar se reunir”. Nós somos luzes! Precisamos nos comunicar e unir nossas luzes! É nossa incancelável vocação e missão hoje como “Igreja em saída” (Papa Francisco). “Vós sois a luz do mundo!”, exorta-nos o Senhor (Mt 5,14s). Essa luz precisa brilhar “para todos que estão na casa” e “diante dos homens, para que, vendo as vossas obras, eles glorifiquem o vosso Pai que está nos céus”. O Evangelho da Família é luz e alegria para o mundo! Certa vez, madre Teresa de Calcutá foi visitar um pobrezinho que vivia em uma cabana escura e suja. Perguntou-lhe: — Posso limpar? — Eu estou bem assim — respondeu o pobrezinho. — Mas ficaria melhor — insiste madre Teresa. Ela vê em um canto uma lâmpada abandonada, cheia de pó. — Você nunca acende esta lâmpada? — Pra quê? Há anos ninguém vem me ver. — Se nós viéssemos, você acenderia a lâmpada? Ele não disse não e as irmãs vieram. Três anos depois, madre Teresa encontrou as irmãs. Elas disseram: — Aquele homem quer que a senhora saiba que desde aquele dia a lâmpada está acesa! Nós somos luzes! Que bela e exigente vocação! Por isso, agradeçamos a Deus a graça deste Congresso. Reunimo-nos para, juntos, sempre à luz do Evangelho, redirecionar a nossa mente e o nosso coração para a Família divina: Pai, Filho e Espírito Santo, Deus-Amor que alegra a nossa juventude (cf. Sl 43,4), e para a Família de Nazaré, Jesus, Maria e José e, de novo, nos unir no mesmo ideal: a vocação à santidade na família, “igreja doméstica” e “santuário da vida”.
Para que a nossa luz resplandeça, para que nossa alegria seja contagiante, precisamos nos reunir e permanecer unidos no Senhor. “Completai minha alegria permanecendo unidos”, escreve o Apóstolo Paulo à comunidade de Filipos (Fl 2,2). Esta bela exortação do Apóstolo encontra-se emoldurada por outros maravilhosos conselhos. São suas palavras: “… pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no amor, pela comunhão no Espírito, por toda a ternura e compaixão, completai minha alegria [implete gaudium meum] permanecendo unidos, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus! (2,1-5). Havia divisões intestinas que ameaçavam a paz da comunidade. Por isso, fundamentalmente, Paulo afirma que a unidade, fruto da vivência da fé e do amor, é fonte de plena alegria e, portanto, testemunho para o mundo. Permanecer unidos no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento realiza aquela unidade que é muito mais do que simplesmente estar juntos. O lema que escolhemos exorta-nos a nos colocarmos acordes no mesmo sentimento. Essa unidade significa “um estar no outro”, no mesmo sentimento… de Cristo Jesus. O Evangelho da família é eminentemente comunitário, é vivido em comunhão.

Portanto, deixemos ecoar no nosso coração as palavras do Papa Francisco, na Exortação Sinodal Amoris Laetitia sobre o amor na família: “A ALEGRIA DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio (…) o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja. Como resposta a este anseio, o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia” (AL 1). A vivência do mandamento do amor na família é um evangelho, um alegre anúncio para o mundo.

II. O Evangelho é fonte de alegria para as famílias e a alegria da família é fonte de alegria para o mundo.

O escritor russo Dmitri Merejkowski (†1941), pai de família, em sua obra Jesus Desconhecido, testemunhava maravilhado o impacto que o Evangelho causou na sua vida: “O Evangelho — dizia ele — (…) é como o céu noturno: quanto mais é contemplado, mais estrelas se descobrem. Nada existe que se lhe pode comparar. Gastei-o de tanto lê-lo. E digo: Que levarei ao túmulo? Ele, o Evangelho. Com que me levantarei do túmulo? Com o Evangelho. Que fiz na terra? Li-o. Entre os livros humanos, lumes terrestres, se distingue esse clarão celestial: o Evangelho. Devemos lê-lo dez, cem mil vezes. Ler a milésima vez como se fosse a primeira, limpar dos olhos a névoa do hábito, ver de repente e ficar mudo de assombro — isto é que é necessário para ler o Evangelho como deve ser lido. É difícil lê-lo com os olhos impuros, falar dele com lábios impuros, e amá-lo com o coração impuro”. Introduzo aqui o incentivo do nosso amado Papa Francisco: “A oração brota da escuta de Jesus, da leitura do Evangelho. Não vos esqueçais, todos os dias de ler um trecho do Evangelho. A oração brota da intimidade com a Palavra de Deus. Existe esta confidência na nossa família? Abrimo-lo às vezes para o ler juntos? Meditamo-lo, recitando o terço? O Evangelho lido e meditado em família é como um pão saboroso que nutre o coração de todos” (Audiência Geral, 26 de agosto de 2015).

O mundo precisa receber esse “alegre anúncio” através do testemunho da família cristã! Para que o coração da família seja impregnado pelo Evangelho, para que a família seja um evangelho vivo, é preciso aquilo que dizia Gertrud von Le Fort (†1971): “Quando o coração da mãe é o altar de Deus, toda a casa se torna seu templo”. E isso vale para todos nós. Antes, é preciso acolher o Evangelho, o dom que Deus fez de Si à família. Impregnada da alegria do Evangelho, a família se torna evangelho, alegre anúncio. Nesse sentido, gostaria de dirigir uma palavra muito concreta aos pais. Diz-se com razão que o coração da mãe é a primeira sala de aula do filho. Mas o pai é o primeiro professor. Dificilmente se terá um homem completo se a família, que é educadora por si mesma, não for construída e sustentada pelo cérebro e pelo coração. O pai será sempre a sombra da Providência e da Paternidade divina em sua casa, dizia Dom Pestana. Não é sem razão que, se a lembrança da mãe nos comove (refletia meu predecessor), a figura do pai nos acompanha como luz, guia, mestre, amigo. São ainda suas palavras: “À medida que a vida passa, cada vez mais se torna presente e confortante a recordação de quem nos deu a vida, sacrificou-se por nós e mesmo frustrado por nossos desacertos, orgulha-se das pequeninas e grandes vitórias dos filhos, carne de sua carne e sangue de seu sangue. Esse laço entre pai e filho, por vezes mais profundo que a ligação umbilical com a mãe, parece justificar o comprometedor provérbio: Tal pai, tal filho! A maior homenagem ao nosso pai é o esforço humilde por superá-lo nos valores que ele, apesar das fraquezas, se empenhou por semear em nós. Pois, não há maior condenação que descobrir que não se conseguiu ensinar os filhos a superar nossas limitações” (Decolores, VII, agosto, 2005, 77).

É imprescindível acolher o Evangelho para ser evangelho. “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja” e fonte de alegria para o mundo. Os nossos contemporâneos necessitam dessa maravilhosa e urgente interpelação: “Vede como eles se amam!”, anotou Tertuliano (†220) sobre a reação dos pagãos vendo as primeiras comunidades cristãs. Num passado recente, o Beato Papa Paulo VI alertava-nos dizendo que “os homens contemporâneos escutam com mais boa vontade as testemunhas do que os mestres e se escutam os mestres é porque eles são, antes, testemunhas” (Evangeli nuntiandi, 41). Sim, “a Igreja não faz proselitismo, ela deve crescer por atração”, pontua o Papa Bento XVI. A alegria do amor que se vive nas famílias (“igrejas domésticas”) é um dos mais belos modos de anunciar o amor de Deus ao mundo de hoje. O Evangelho da Família testemunha aquela comunhão de amor trinitária, à maneira do lar de Nazaré.
Seguindo uma inspiração do Papa Bento XVI, é importante dizer que por natureza “a alegria exige ser comunicada, o amor exige ser comunicado, a verdade exige ser comunicada” (cf. Discurso enviado à Urbaniana, 23/10/2014). Quem recebeu uma grande alegria, não pode tê-la simplesmente para si, deve transmiti-la. O mesmo vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta. Quando André encontrou Cristo, não pode fazer outra coisa que dizer a seu irmão: encontramos o Messias (Jo 1,41). E Filipe, ao qual foi doado o mesmo encontro, não pode fazer outra coisa que dizer a Natanael que tinha encontrado Aquele do qual tinham escrito Moisés e os profetas (Jo 1,45). Anunciamos Jesus Cristo não para proporcionar em nossa comunidade o maior número de membros possível, e tanto menos pelo poder. Falamos de Jesus porque sentimos o dever de transmitir aquela alegria que nos foi doada, a alegria do Evangelho. Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando, verdadeiramente, O encontramos no profundo da nossa existência, quando, através do encontro com Ele, nos é doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.

III. A alegria deverá ser vivida na individualidade, mas não só, pois a comunidade é fonte de realização e alegria. Na comunidade, se vivem os momentos difíceis, mas também, se celebram as vitórias.

O Papa Francisco, em uma de suas belas catequeses de quarta-feira em Roma (09/09/2015), ofereceu-nos uma reflexão sobre a importância da comunidade para a família cristã. Há um “vínculo entre a família e a comunidade cristã. É um vínculo, por assim dizer, natural porque a Igreja é uma família espiritual e a família é uma pequena Igreja”. Continua a Santo Padre: “A comunidade cristã é a casa daqueles que acreditam em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes acontecimentos dos poderes mundanos escrevem-se nos livros de história, e ali permanecem. Mas a história dos afetos humanos inscreve-se diretamente no coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. Este é o lugar da vida e da fé. A família é o lugar da nossa iniciação — insubstituível, indelével — nesta história. Nesta história de vida plena, que acabará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, mas começa na família! Por isso a família é tão importante”.

O Papa lembra nessa catequese que o Filho de Deus aprendeu a história humana nesta via, e percorreu-a até ao fim (cf. Hb 2,18; 5,8). Jesus nasceu numa família e ali aprendeu o mundo: uma oficina, quatro casas, uma aldeia insignificante. No entanto, vivendo por trinta anos esta experiência, Jesus assimilou a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou ao seu redor uma comunidade, uma assembleia, uma com-vocação de pessoas. Eis o significado da palavra igreja.

Na comunidade se vivem momentos difíceis, é verdade. Por isso, o Papa Francisco faz-nos o convite “a pôr os vínculos familiares no âmbito da obediência da fé e da aliança com o Senhor”. Essa experiência não mortifica os vínculos familiares, pelo contrário, protege-os, liberta-os do egoísmo, preserva-os da degradação, nos salva para a vida que não morre. “A circulação de um estilo familiar nas relações é uma bênção para os povos: traz de novo a esperança sobre a terra. Quando os afetos familiares se deixam converter ao testemunho do Evangelho, tornam-se capazes de coisas impensáveis, que fazem tocar com as mãos as obras de Deus, aquelas obras que Ele realiza na história, como as que Jesus realizou em prol dos homens, das mulheres, das crianças que encontrou” (Audiência Geral, 2 de setembro de 2015).

O pensamento do Papa Francisco faz conexão com o de São João Paulo II, que também, de um modo muito concreto, para que não haja ilusões, deixou-nos um testamento chamado espiritualidade de comunhão: Onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades. Em que consiste, concretamente? “Ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor (…) significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como um que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade”. É ainda a “capacidade de ver antes de mais nada o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um dom para mim, como o é para o irmão que diretamente o recebeu”. Por fim, “é saber criar espaço para o irmão, levando os fardos uns dos outros (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”. Como Francisco, exorta-nos o Papa da Família: “Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento” (Novo Millennio Ineunte, 43). Uma espiritualidade de comunhão assim compreendida e assumida como ideal traz inúmeros frutos de alegria e de paz para a vida pessoal, familiar, eclesial e é testemunho para os nossos irmãos.

IV. A vida de comunidade é um instrumento eficaz para a sobrevivência em meio ao mundo avassalador que nos permeia.

Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família, e de uma família hospitaleira, não de uma seita exclusiva, fechada: nela encontramos Pedro e João, mas também o faminto e o sedento, o estrangeiro e o perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e falar com todos, até com quantos já não esperam encontrar Deus na sua vida. É uma lição forte para a Igreja! Os próprios discípulos são eleitos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.
Para que seja viva no hoje desta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Poderíamos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua derradeira fonte no próprio Deus. Uma Igreja, verdadeiramente, segundo o Evangelho, não pode deixar de ter a forma de uma casa hospitaleira, sempre de portas abertas.
De um modo muito concreto o Papa Francisco diz-nos que hoje é indispensável e urgente fortalecer o vínculo entre família e comunidade cristã, para enfrentar os desafios do nosso tempo. Sem dúvida, é necessária uma fé generosa para ter a inteligência e a coragem de renovar esta aliança. Às vezes — exemplifica o Papa Francisco —, as famílias hesitam, dizendo que não estão à altura: “Padre, somos uma família pobre e até um pouco arruinada”, “Não estamos à altura”, “Já temos tantos problemas em casa”, “Não temos força”. Isto é verdade. “Mas ninguém é digno, ninguém está à altura, ninguém tem força! Sem a graça de Deus, nada poderíamos fazer. Tudo nos é dado gratuitamente! E o Senhor nunca chega a uma nova família sem fazer algum milagre”. Recordemos, convida-nos o Papa, “aquilo que Ele fez nas bodas de Caná! Sim, quando nos pomos nas suas mãos, o Senhor leva-nos a fazer milagres — aqueles milagres de todos os dias! — quando o Senhor está ali naquela família”.

Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado diretivas e funcionais, favorecendo o diálogo interpessoal, o conhecimento e a estima recíproca. As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de oferecer os seus dons preciosos em prol da comunidade. Todos nós devemos estar conscientes de que a fé cristã se vive no campo aberto da vida partilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira. É preciso acreditar. Recorro novamente a Santa Teresa de Calcutá. Para ela, a misericórdia caía como chuva do céu da união com Deus na oração. Depois de ter retirado o prêmio Nobel em 1979, na sua viagem de regresso de Oslo, madre Teresa passou por Roma. Os jornalistas precipitaram-se para entrevistá-la e ela recebeu-os, pacientemente, pondo na mão de cada um uma medalha da Imaculada. A um jornalista que lhe manifestou, com certa maldade, a convicção de que depois da sua morte o mundo permaneceria igual a antes, ela respondeu com simplicidade: Veja, eu nunca pensei que podia mudar o mundo! Procurei apenas ser uma gota de água limpa, na qual pudesse brilhar o amor de Deus. Acha que é pouco? Depois, no silêncio comovido dos jornalistas, prosseguiu: Procure ser também o senhor uma gota limpa e assim seremos duas gotas. É casado? “Sim, madre!”. Diga isto também à sua esposa, assim seremos três. Tem filhos? “Três filhos, madre”. Diga-o também aos seus filhos, e seremos seis! Em síntese, convidava ao contágio benéfico da misericórdia, fonte de alegria na família e para o mundo.

Revisitando as palavras de meu antecessor na Diocese de Anápolis e na Pastoral Familiar no nosso Regional Centro-Oeste — Dom Manoel Pestana Filho —, encontrei uma mensagem que ele dirigiu às famílias há quase 17 anos. Assim escreveu: “Jesus falou a São Francisco: Vai e reconstrói a minha casa! E sua fé, coragem e operosidade incansável revelaram novos horizontes de esperança e beleza à Igreja. Todos os que Cristo chamou e que lhe disseram Sim! como Maria disse ao Anjo, ouvem, pelos lábios da Igreja, a ordem angustiada e irrecusável: Vão e reconstruam as minhas famílias! (…). Reconstruam-na na fé luminosa, na esperança segura, na caridade transbordante, no espírito de renúncia e sacrifício, na alegria do amor que vence a morte e abre, ”enerosa, as comportas da vida. A Igreja os chama como apóstolos da vida e da família, para que rezem e se consagrem, sem limites, à santificação dos lares, por onde passa o futuro do mundo. Vão, sem demora e sem reservas, reconstruam, como Francisco (e, acrescento, com o nosso Papa Francisco), a minha Igreja, reconstruindo a Família” (Mensagem ao IV Congresso Macro-Regional Centro-Oeste da Pastoral Familiar 12-14/10/2001). Faço minhas as palavras de uma mãe, elevada à honra dos altares, Santa Gianna Beretta Molla: “Devemos semear, lançar a nossa pequena semente, sem jamais nos cansarmos”. Só assim seremos os mais preciosos apóstolos de que a Igreja hoje precisa para ajudar o mundo a sobreviver.

2. A Opção Fundamental por Jesus Cristo, como Caminho de Santificação e Motivação

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Pe. Dilmo Franco de Campos

A partir do momento em que adquirimos o uso da razão, começamos inexoravelmente a fazer escolhas, dizer o que gostamos e o que não gostamos, o que queremos e o que não queremos. As opções colocadas diante de nós requerem uma tomada de decisão. E para que as nossas decisões se tornem trampolins para a nossa felicidade, e não obstáculos, precisamos ter critérios, ter um norte para saber por onde ir. Torna-se necessário encontrar um fundamento na nossa vida para que as nossas escolhas nos conduzam sempre em direção à felicidade.

O que é importante saber e o que é necessário saber para não perder o rumo da vida? Para nós cristãos, Jesus Cristo é o centro da nossa vida e das nossas escolhas. Ele deve ser a nossa meta.

Jaime Espinosa, no seu livro “Questões de Bioética”, cita parte de um artigo de G.K. Chesterton, de 1910, intitulado “As raízes do mundo”. Chesterton contava a história de um rapazinho que morava numa grande casa com jardim. Tinha autorização para colher as flores, mas não para arrancar as plantas pela raiz. Uma delas, porém, um pequeno espinheiro insignificante, com flores brancas em forma de estrela, atraía especialmente a sua curiosidade.

Os seus tutores, gente digna e formal, davam-lhe diversas razões pelas quais não devia arrancar essa flor, mas só conseguiam espicaçá-lo. Por fim, numa noite escura, com o coração a bater-lhe fortemente no peito, o menino esgueirou-se até o jardim. Repetia de si para si que “a verdade” exigia que arrancasse aquela planta, e que, afinal de contas, o assunto todo não tinha mais importância do que colher umas maçãs à beira do caminho. Pôs-se a puxá-la, mas ela se agarrava obstinadamente ao chão, como se tivesse grampos de ferro em vez de raízes. No terceiro puxão, o rapaz ouviu atrás de si um grande ruído, e ao voltar-se verificou que a cozinha e o telheiro tinham desabado. Fez ainda um derradeiro esforço, mas quando ouviu, ao longe, o estábulo ruir e os cavalos fugirem relinchando, correu de volta para a cama e enrolou-se nos cobertores.

No dia seguinte, depois de verificar que os desastres da noite tinham sido reais e não imaginários, obstinou-se em pensar que não tinham relação nenhuma com a planta ou os seus puxões. E, num dia em que o nevoeiro envolvia todas as coisas no seu manto, voltou a agarrar o pequeno espinheiro e a puxá-lo com todas as forças, até que lhe chegaram, afogados pela neblina, os gritos de pânico da população a anunciar que o castelo do rei caíra, as torres da costa tinham ruído e metade da cidade mergulhara no mar. Assustado, deixou em paz aquela planta por algum tempo, embora nunca chegasse a esquecê-la completamente.

Quando chegou à idade adulta e os desastres que causara já tinham sido consertados, passou a dizer abertamente: “É preciso resolver o mistério dessa erva irracional. Em nome da ‘verdade’, devemos arrancá-la”. Reuniu um grande bando de homens fortes, e todos puseram as mãos sobre a pequena planta, puxando-a sem cessar. A Muralha da China desabou ao longo de cem quilômetros, as Pirâmides desfizeram-se em pedras soltas, a Estátua da Liberdade caiu sobre dois terços da frota americana e afundou-os, a Torre Eiffel arrasou Paris na sua queda, o Japão submergiu no mar… Depois de vinte e quatro horas, aqueles homens fortes tinham arrasado metade do mundo civilizado, mas não tinham conseguido arrancar o pequeno espinheiro.

“Não desejo cansar o leitor relatando-lhe todos os detalhes dessa história realista” – diz Chesterton -, “como a ocasião em que usaram primeiro elefantes e depois locomotivas a vapor para arrancar a flor, e o único resultado foi que a planta resistiu bravamente, embora a lua começasse a apresentar rachaduras e até o sol tivesse passado a vacilar”. Por fim, a humanidade revoltou-se e pôs fim a essas tentativas.

Muito antes disso, porém, o rapaz tinha abandonado a tarefa, deixando-a para os outros, enquanto dizia aos seus tutores: “Vocês deram-me inúmeras respostas elaboradas e vãs sobre por que eu não devia arrancar esse espinheiro. Por que não me deram as duas únicas respostas verdadeiras: primeiro, que não sou capaz de fazê-lo; e, segundo, que eu destruiria tudo o mais se o tentasse? ”

Spinosa diz que essa parábola se vem revelando especialmente profética no campo das ciências biológicas e da medicina moderna. Cientistas do mundo inteiro vêm tentando arrancar as raízes da vida biológica para encontrar “a verdade” sobre a natureza humana, mas não conseguem fazê-lo pelos seus métodos, nem nunca o conseguirão. O que conseguem, em certa medida, é apenas “destruir tudo o mais”. Não é que o progresso científico em si seja mau, antes pelo contrário; mas o grande erro que se comete tantas vezes é pensar que a verdade científica pode substituir a Ética, ou pelo menos tomar-lhe o primado. Porque é somente a Ética, e mais ainda, a Ética revelada por Deus e proposta pela Igreja, que consegue compreender a verdade sobre “as raízes do mundo”.

O termo “escolha fundamental”, mais comumente chamado de “opção fundamental”, passou a ser usado de modo mais amplo no campo teológico moral somente a partir da segunda metade do século XX. Mesmo sendo de uso recente, seu conteúdo é fundado na própria Sagrada Escritura, sobretudo quando se refere à palavra “coração” e às implicações deste termo no agir do homem.

Segundo a Veritatis Splendor (VS 65), a Opção Fundamental é uma “decisão sobre si mesmo e determinação da própria vida a favor ou contra o Bem, a favor ou contra a Verdade, em última análise, a favor ou contra Deus”. Essa decisão dá, por sua vez, ‘forma’ a toda a vida moral de um homem, configurando-se como o sulco dentro do qual poderão encontrar espaço e incremento às demais escolhas quotidianas particulares”

A Escolha Fundamental (EF) pode ser considerada como o tônus do agir moral, isto é, como a disposição de base que leva o homem a estar decidido, intencionalmente, ao Bem, à Verdade, a Deus. Como fim preciso ou ainda como a autodeterminação fundamental do indivíduo que envolve sua vida em plenitude, que toca as estruturas que sustentam todo o seu dinamismo ético, dando forma à vida moral do sujeito.

Se de um lado, a opção fundamental atua e se concretiza nas escolhas concretas, são estas que, no dever humano histórico, colaboram para a formação e solidificação da interioridade ética do sujeito, particularmente de sua EF. Cada escolha traz consigo uma afirmação ou negação do Bem, de modo que, escolhendo promover ou rejeitar o Bem, o sujeito não só escolhe sobre alguma coisa, mas assume ou rejeita o Bem em sua vida. Assim, cada escolha tem seu significado ético e o seu peso na construção real da personalidade moral de um sujeito ético, da sua estrutura moral mais profunda e fundamental – escolho alguma coisa escolhendo sobre mim mesmo.

A escolha fundamental do cristão é acolher Deus como Pai. É acolher o outro como irmão. Reconhecer o Senhor na humanidade de Jesus é reconhecer o sentido do humano no modo pelo qual Ele o viveu sobre a terra, reconhecer como autenticamente humana a intencionalidade própria do seu fazer-se próximo e assumir aquela mesma intencionalidade como própria. Acolher a comunhão com Ele é assumir como própria a lógica do amor que é a Sua, de modo que seja ela a motivar, ordenar e conduzir todo o compreender e o julgar, o decidir e o agir. É a moralidade que vem compreendida e assumida em termos de caridade: moralmente bom é o que é conforme a caridade. (S. BASTIANEL, «Una opzione fondamentale di fede-carità», 73 )

E para percorrermos esse caminho, jamais esqueçamos da Mãe de Jesus e nossa mãe: Maria. No mistério de Cristo e da Igreja, Maria ocupa um lugar eminente. O próprio Concílio Vaticano II afirma que ela “ocupa na Igreja o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós” (LG 54).

E que nos momentos de dificuldade, “Maria, a Mãe que Jesus ofereceu a todos nós, possa sempre amparar os nossos passos e dizer ao nosso coração: ‘Levanta-te! Olha em frente, olha para o horizonte’, porque Ela é Mãe de esperança”.

3 – Características da santidade no mundo atual. (Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate)

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Dom José Silva Chaves

O matrimônio, escrevia Leão XIII, não é um contrato qualquer, mas um contrato sagrado por sua própria força, natureza e caráter. O Concílio Vaticano II, depois de fazer uma exposição do estado atual do matrimônio e da família, começa fazendo “uma exposição mais clara de alguns pontos capitais da doutrina da Igreja a respeito desse sacramento” (GS 47). O primeiro ponto que toca o Concílio é a exposição do “caráter sagrado do matrimônio e da família” (GS 48). Vamos tratar, portanto, de um tema atual, de grande interesse, e que tem relevância especial na teologia e na pastoral de hoje.

Tem-se falado muitas coisas sobre o matrimônio e a família numa ótica humana e cristã; mas muito pouco sobre as características da espiritualidade própria dos esposos cristãos. A espiritualidade é a fonte segura donde os esposos vão tirar soluções para todos os problemas, conjugais e familiares, e a força para viverem em profundidade e em toda sua amplitude seu sacramento.

O tema da espiritualidade matrimonial é vastíssimo, daria matéria para um curso completo sobre o assunto. Toda a vida cristã é um chamado que Deus faz ao homem, para que se una a Ele, chamado ao qual o homem há de corresponder com sua atitude pessoal.

O Concílio estabelece este princípio: “É muito claro que todos os fieis, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade, isto é, da santidade” (LG 40).

As razões que podem convencer-nos desta universal vocação de todos os cristãos não só para a salvação, mas também para a perfeição da vida cristã na caridade, isto é, na santidade, podem resumir-se no seguinte: Todos nós formamos o Povo Santo de Deus.

Deus que é o “único Santo”, se dignou chamar-nos à sua Igreja para formar o novo Povo de santificação. Todos nós, os batizados, formamos a grande Família de Deus, à qual amou Cristo como sua Esposa “entregando-se a Si mesmo por ela para santificá-la (Ef 5,25-26), uniu-a a Si como seu próprio corpo e a enriqueceu com o dom do Espírito Santo para a glória de Deus” (LG 39). Se todos nós formamos esta Igreja de Deus, é claro que todos na Igreja temos de viver esta vocação de santidade a que está chamado todo o Povo de Deus.
“Por isso, na Igreja, todos, sem exceção, os que apascentam (hierarquia) e os apascentados por ela, estão chamados à santidade” (LG 39). Toda a vida cristã consiste em configurarmos com Cristo nossa cabeça, e sermos fieis discípulos do mestre e modelo de toda perfeição.

Além disto, temos o mandato expresso do Mestre: “Sede santos como vosso Pai celestial é santo” (Mt 5, 48). Cristo “pregou a todos e a cada um dos seus discípulos, qualquer que fosse sua condição, a santidade de vida da qual Ele é a fonte e fim” (LG 40).

Um dos atributos essenciais de Deus é a santidade, origem e fonte de toda outra santidade. “Sede santos, porque Eu sou santo, Javé, vosso Deus” (Lv 19, 2-3). A santidade é exigência do batismo. “Os seguidores de Jesus Cristo são chamados por Deus não por suas obras, mas segundo seu desígnio e sua graça. Eles são justificados no Senhor Jesus porquanto pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente filhos de Deus e participantes da natureza divina, e, portanto, realmente santos” (LG 40).

Apoiados nesta realidade de haver sido constituídos em criaturas novas, São Paulo exorta aos cristãos a viver “como convém aos santos” (Ef 5,3), e que “como eleitos de Deus, santos e amados, se revistam de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia, paciência” (Col 3,12) e produzam frutos do Espírito para a santificação (Gal 5,22; Rom 6,22).

No caminho da santidade cristã há grande diversidade. “Uma mesma é a santidade que cultivam, nos múltiplos gêneros de vida e ocupações, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, e obedientes à voz do Pai, adorando-o em espírito e verdade, seguem a Cristo pobre, humilde e carregado com a cruz, a fim de merecer participar de sua glória”, contudo, “cada um deve caminhar sem vacilação segundo os dons e funções que lhe são próprias” (LG 41).

As bem-aventuranças são tão suaves e belas que Jesus Cristo preconiza e aponta como o segredo da santidade, que a legião de santos soube realizar tão admiravelmente. O cumprimento dos mandamentos da lei de Deus faz o bom cristão. A fidelidade aos conselhos evangélicos faz o homem perfeito. A prática das bem-aventuranças faz o santo. O Papa Francisco comenta muito bem na Exortação Gaudete et Exsultate.

A verdade é que Deus chama todos os homens à santidade. É uma lei universal “sede santos!” Ora, Deus, chamando para um ideal, dá as graças necessárias para realizá-lo, porém, a graça não realiza a obra, mas nos ajuda a realizá-la. Deus não pode salvar-nos sem nós; nem nos santificar sem a nossa cooperação. Uma verdade fundamental que sempre deveríamos ter diante dos olhos é que sem Deus nada podemos (Jo 15,5) e que com Ele tudo nos é possível (Fl 4,13). Eis o segredo dos Santos, a fonte de sua força. Deus é Pai de todos, e não tem amizade particular com ninguém, senão com os pequeninos e com os humildes. “Ele resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes” (Jo 6,6). A criatura mais santa que o mundo já viu é Aquela que sendo escolhida para ser a Mãe de Deus, proclamou-se a escrava do Senhor!

São múltiplos e concretos os caminhos para realizar este ideal de santidade a que todos nós somos chamados, porque múltiplos são os gêneros de vida, ocupações, circunstâncias e funções. Atendendo aos principais estados de vida em que podem encontra-se os cristãos, podemos reduzir os caminhos da santidade em três:

Vida consagrada pela função ministerial (bispos, presbíteros e demais ministros sagrados). Pela vocação a que foram chamados e os mistérios a que servem “devem conservar-se imunes de todo vício, agradar a Deus e fazer todo o bem diante dos homens” (Tim 3,8-10.12-13). LG 41

Vida consagrada pela prática dos conselhos evangélicos. “A santidade da Igreja se mantém de uma maneira especial com os múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho para que os observem seus discípulos” (LG 42).

Vida consagrada pelo sacramento do matrimônio. Deste caminho de santidade é que vamos falar mais detidamente, já que é o caminho que vocês escolheram e no qual devem realizar sua vocação concreta à santidade. “Os esposos e pais cristãos, seguindo seu próprio caminho, devem apoiar-se mutuamente na graça ao longo de toda a caminhada da vida; desta maneira oferecem a todos o exemplo de um incansável e generoso amor, contribuem para a estabilidade da fraternidade e da caridade e se constituem em testemunhas e colaboradores da fecundidade da mãe Igreja, como símbolo e participação daquele amor com que Cristo amou a sua Esposa e se entregou a Si mesmo por ela” (LG 41).

Hoje em dia se insiste muito nesta maneira específica de viver a santidade que hão de ter os esposos cristãos. Antigamente, se considerava talvez o matrimônio como uma espécie de impedimento ou de atraso no caminho da santidade. Com frequência vinha sempre à tona os outros dois caminhos, deixando o caminho do matrimônio como um caminho de segunda classe.

Felizmente essa concepção pejorativa do matrimônio como caminho de santidade foi superada; já se fala com frequência, de uma espiritualidade matrimonial, considerando o matrimônio como um dos caminhos queridos por Deus, como qualquer outro, para viver a vida cristã em toda a sua intensidade e perfeição.

Se é verdade que toda santidade consiste em viver o amor e em dar uma resposta amorosa ao Amor de Deus, que nos amou primeiro, a espiritualidade conjugal acentua ainda mais esta vivência de amor como realização da santidade, já que a santidade matrimonial consiste precisamente, e de maneira expressa, em viver uma vida de amor total.

Sendo a união entre o homem e a mulher um sacramento, instituído por Jesus Cristo, torna-se um lugar do encontro com Deus. Deus está presente nessa união e não cessa de vir ao encontro dos esposos. Ele os ajuda a se utilizarem de todos os aspectos difíceis do casamento. O matrimônio se transforma numa ocasião de viverem uma unidade mais profunda mediante a aceitação cotidiana do outro. É a ocasião de viverem não somente as alegrias profundas dessa união, mas também o perdão, como insiste tanto o Papa Francisco, em todos os seus escritos.

Perdão é o grande dom de Jesus à humanidade. Jesus veio para nos perdoar e nos possibilitar viver o perdão. Perdão é um amor efetivo pelo próximo que se encontra ferido, vulnerado, temeroso e que quebrou a união. Perdão é compreender que todos os bloqueios, todos os atos agressivos derivam em grande parte de sofrimentos anteriores, de angústias e temores. Perdão é acolher o outro tal qual ele é, com todas as suas feridas, todo o seu passado. Perdão é reconhecer e demonstrar a aliança com o outro.

Esse perdão, proveniente do coração de Deus, é o que cura o homem em profundidade. Quando alguém faz a experiência desse perdão, torna-se, por sua vez capaz de perdoar.

As famílias cristãs unidas são sinais a manifestar que o amor, a unidade e a paz são possíveis. Com suas características, cada uma constitui a célula inicial de toda a unidade, de todo o perdão, de toda a comunidade, de toda a fecundidade; por isso, são sinais de esperança.

Quando os esposos se perdoam facilmente, é sinal que se amam de verdade, estão, pois, realizando o amor de Cristo e nisso consiste especialmente a santidade, em viver o amor de Cristo em todos os gestos.

O Papa Pio XI concedeu uma indulgência, que chama a atenção, aos fieis da arquidiocese de Westmister. Todo consorte que beije o anel de boda de seu cônjuge pode alcançar 100 dias de indulgência se o faz recitando a seguinte oração: “Concede-nos, Senhor, que te amando nos amemos mutuamente e possamos viver segundo tua lei”.

Os esposos não precisam ir longe para buscar seu próprio caminho de santidade. Já o têm dentro do lar. O amor conjugal autêntico é um amor sacramentalizado, que faz aparecer Cristo em todas suas manifestações.

A espiritualidade de “dois em comum” é outra característica específica da espiritualidade matrimonial: a de ser uma espiritualidade vivida em comum.

Os esposos se santificam vivendo em comunidade de amor. Se se empenham em viver cada qual sua vida espiritual independente do outro, não realizarão sua comunidade de amor no que tem de mais santificador e, consequentemente, se condenariam a não conseguir a santidade.

Todos os dias os esposos cristãos devem ter um mínimo de oração comunitária, mas isto não quer dizer que cada um pretenda impor ao outro suas devoções particulares. A participação de ambos, diariamente se possível, à celebração eucarística, será o melhor sinal de mútua união plena com Cristo.

Revisão de vida em comum. Para a confissão deveriam fazer em comum a revisão de vida com plena sinceridade e abertura de um para com o outro. Seria aconselhável também a direção espiritual conjunta.

O casal deve participar de algum movimento paroquial qualquer, a fim de exercer o seu apostolado em comum, como testemunho e realização de sua plena comunidade de amor; trabalhando sem descanso, com fé e esperança, pela renovação e a vivência constante dos ideais do matrimônio cristão, sendo fermento na grande massa indiferente e fria da sociedade em que vivemos.

A espiritualidade matrimonial não fica reduzida à vida dos esposos; deve abrir-se a toda a comunidade familiar. Devem realizar a santidade também enquanto pais. “A educação dos filhos é um dos deveres mais sagrados dos pais, transmitindo-lhes sua fé e sua religiosidade cristã, realizam uma exigência de sua paternidade total (carnal e espiritual) e como a primeira de suas tarefas apostólicas” (AA 11). “A vida familiar em comum traduz a melhor expressão e realização da vida da Igreja, refletida na pequena Igreja que é a família” (LG 11; AA 11).

Outro aspecto da espiritualidade matrimonial é seu caráter de testemunho. Se todos os cristãos devem dar testemunho das virtudes do Reino de Deus em sua vida e em seu ambiente, os esposos têm essa mesma obrigação e, mais ainda, no seio de sua família, porque os pais são os educadores natos de seus filhos; se lhes deram a vida são os primeiros responsáveis por eles.

Senhor, defendei, protegei, robustecei e abençoai as nossas famílias. Que elas sejam exemplo para a nossa sociedade como o foi a vossa Família de Nazaré.

7 – O amor pelas famílias como fator norteador dos trabalhos da Pastoral Familiar

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Carlos Alberto Monteiro e Sintia Monteiro

“Tome cuidado com a tua vida, porque talvez ela possa ser o único evangelho que o teu irmão lê.” São Francisco de Assis

Não diminuindo, de forma nenhuma, a importância deste evento e de outros, tanto quanto importantes que acontecem na vida da comunidade, gostaria de ressaltar que o nosso testemunho de vida, convicto nos princípios evangélicos, pode ser o único evangelho que o próximo mais próximo de nós pode ler.

À luz da palavra de Deus, tão bem esclarecida pelo nosso querido e respeitoso São João Paulo VI, em sua carta encíclica Humanae Vitae, aparecem-nos as características do amor conjugal: um amor doação, que antes “é um amor plenamente humano, quer dizer, ao mesmo tempo espiritual e sensível.” HV 9 É depois um amor total, os cônjuges compartilham todas as coisas, sem reservas indevidas e sem cálculos egoístas. Não ama somente por aquilo que o outro pode doar, mas, por aquilo que ele é.

É, ainda, amor fiel e exclusivo, até a morte. Os esposos o assumem, livremente e com plena consciência. Fidelidade esta, treinada pelos pais nos filhos, educando-os na castidade desde a infância. É, finalmente, um amor fecundo, que está destinado a continuar suscitando novas vidas. “Os filhos, são o dom mais excelente do matrimônio e contribuem grandemente para o bem dos pais.”

Não podemos esquecer que “mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a vida conjugal perde o seu valor”. FC 14 Isto é colocar-se pelo dom da fé, diante de Deus com responsabilidade e total dependência Dele, para que seja feito segundo a Sua vontade. “Há muitos planos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que se realiza. (Prov.19-21)

Quem defende a vida em seu início, a defende em todas as suas fases. Não dá para ser agente da Pastoral Familiar somente com teorias, é preciso nos deixarmos envolver pelo amor de Deus; é o amor que nos envolve no Pai, no Filho e no Espírito Santo. “… Sem Mim, nada podeis fazer.” (Jo.15)

“O primeiro princípio da educação é educar-se a si mesmo, para ser exemplo na educação dos filhos.” Não basta anunciar e defender a família, é preciso acreditar que o matrimônio e a família constituem um dos valores mais preciosos da humanidade. (A missão da família cristã no mundo de hoje – João Paulo II)

O matrimônio não é um sonho no qual colocamos todas as nossas expectativas sobre o outro. “Quem se casa com um sonho, pode acordar com um pesadelo”. O matrimônio é o caminho de uma realização pessoal, obediência a um chamado interior, vocação…, mas, sobretudo, um lugar de doação de si, serviço, santificação, um caminho seguro para manutenção e renovação da humanidade. O futuro da humanidade, passa pela família.

A nossa alegria está em fazer a vontade de Deus. “Por mais ferida que uma família possa estar, ela pode sempre crescer a partir do amor”. (RF, in AL 53)

A família precisa descobrir uns nos outros o próprio Cristo, e assim seus membros podem se renovarem no amor a cada dia. Deve estar sempre aberta ao perdão e à reconciliação. Tudo aquilo que nos falta na convivência superficial, deveríamos poder encontrar no ambiente familiar: ternura, autoestima, estabilidade, compreensão, segurança, carinho, amor, paz, serenidade, aconchego, liberdade… “Ser amável, não é um estilo que o cristão possa escolher ou rejeitar, é uma obrigação ser afável com aqueles que o rodeiam.” (AL, 99)

Todos somos família, mesmo os que não são casados, ou que vivem situação especial, devem ser todos apaixonados pela família e pelo matrimônio.

Oração de Consagração à Sagrada Família (Papa Francisco)

Jesus, Maria e José
Em vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Famílias de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias
episódios de violência, de fechamento e divisão,
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.

Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do caráter sagrado e inviolável da família
da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.
Amém.

8 – Teologia do Corpo

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Ronaldo de Melo e Tatiana

Você já ouviu falar sobre a Teologia do Corpo? Tem ideia de quem a escreveu? Quando ela foi escrita? Sabe do que ela trata? Para quem ela foi escrita? Desconfia por que ela é tão atual? Essas são algumas das muitas perguntas que procuraremos responder para vocês, queridos irmãos e irmãs. Abordaremos o tema da Teologia do Corpo, convidando todos a mergulhar nesta maravilha que a Igreja nos oferece. Queremos proporcionar uma oportunidade única para uma verdadeira descoberta ou, quem sabe, até mesmo uma redescoberta do ser humano e da beleza do seu corpo, enquanto homem e mulher.

A Teologia do Corpo é um conjunto de escritos do papa São João Paulo II, o Papa das famílias e dos jovens. Quando ainda era o Cardeal Wojtyla, iniciou seus primeiros manuscritos sobre a Teologia do Corpo, em 8 de dezembro de 1974, quando consagrou sua obra à Imaculada Conceição. Também deixou importante contribuição com os livros “Pessoa e Ato” e “Amor e Responsabilidade”, entre outros, que já traziam alguns pontos fundamentais da mesma temática. A Teologia do Corpo é o conjunto de 133 catequeses, das quais 129 foram proclamadas nas audiências públicas de quartas-feiras, no início do seu pontificado, na Praça de São Pedro, no Vaticano, indo de 1979 até 1984.

Os escritos da Teologia do Corpo são um grande tesouro, um enorme presente deixado para nós. Eles nos indicam o caminho para vivermos verdadeiramente nossa afetividade e sexualidade segundo o plano original de Deus para a humanidade. Revelam o valor do nosso corpo – masculino e feminino – como espelho do amor do próprio Deus. “Pelo fato de o Verbo de Deus ter se feito carne, o corpo entrou, eu diria, pela porta principal na teologia…” (TC 23)
O Papa inicia as primeiras 23 catequeses retornando ao Princípio, meditando sobre a grande obra de Deus: a criação do homem e da mulher. Nelas são abordados temas como unidade originária do homem e da mulher, a consciência do significado esponsal do corpo, o significado bíblico da convivência matrimonial, entre tantos outros. A seguir, em 40 catequeses, temos o segundo ciclo de ensinamentos que tratará da Redenção do Coração.

A partir do apelo de Cristo ao coração do homem, encontramos muitas respostas aos males que atingem a humanidade e, também, é pela abertura de coração que fluirá a graça do Pai, que nos ensinará novamente a amar como Ele ama. O terceiro conjunto de nove catequeses tem como tema principal A Ressureição da Carne. Aqui, a partir das palavras de Jesus no diálogo com os saduceus sobre a ressurreição, São João Paulo II ensina como será a vida gloriosa do nosso corpo e como é importante cuidarmos dele. Ressalta o valor do matrimônio aqui na terra, que nos aponta para as núpcias divinas na eternidade. O quarto ciclo trata da Virgindade Cristã. São 14 catequeses que nos levam à bela e profunda meditação da ideia da virgindade e do celibato como antecipação e sinal escatológico dessa comunhão plena de amor que viveremos com Deus na Vida Eterna. O Papa mostra que nossa vocação à castidade é uma realidade terrena que prefigura a vida celeste. No quinto ciclo – com 31 catequeses – o Papa traz o tema do Matrimônio Cristão. São catequeses que fazem o paralelo da união homem-mulher e Cristo-Igreja, mostrando a essência do sacramento do matrimônio como aliança e sinal. E, por fim, o sexto ciclo, composto de 16 catequeses, faz uma abordagem do Amor e Fecundidade a partir da Carta Encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, de forma bem aprofundada.

Esses ensinamentos foram escritos para todos nós homens, mulheres, jovens, namorados, casados, celibatários, pois nos permitem viver não uma sexualidade reprimida, mas uma sexualidade remida, a partir da diferença sexual que abre caminho para buscarmos a comunhão segundo a própria imagem da Santíssima Trindade. O Papa nos propõe um caminhar, uma experiência efetivamente humana onde nos reconhecemos como pessoas que nasceram, não para serem usadas, mas para serem amadas. Temos, assim, a oportunidade de descobrirmos o sentido do nosso corpo – de todo o nosso ser – como dom para nós mesmos, para o outro e para Deus.

Os ensinamentos preciosos da Teologia do Corpo – que só há pouco tempo vêm sendo amplamente difundidos – não poderiam vir em momento mais oportuno. Esse “tesouro escondido” está sendo revelado exatamente na hora em que o ser humano vem sendo duramente atacado de todos os lados naquilo que tem de mais precioso: ser imagem e semelhança de Deus. Que tal ajudar a “injetar” esse ânimo novo na humanidade doente para que ela recupere sua dignidade inestimável de imagem e semelhança do Pai?!

I I- Reflexões sobre as Mensagens do Congresso

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1 – Pastoral Familiar nos dias atuais: desafios, perspectivas e adaptação à realidade

Pe. Cleber Alves de Matos

Em meio às urgências em favor da família e da vida que inquietam a Igreja e, consequentemente, os agentes da Pastoral Familiar, surgem inúmeras ações, eventos e projetos, que tentam remediar as situações difíceis que afetam a família. Para a eficácia dos trabalhos em favor da vida e da família apresentamos os requisitos abordados em nosso VI Congresso Regional da Pastoral Familiar, resumidos aqui, com intuito de nortear nossos trabalhos.

Diante dos inúmeros objetivos de ações em favor da vida e da família, destaco a necessidade de se promover o encontro com Cristo como o objetivo principal de qualquer ação. Através dele se terá base sólida para os demais. Nenhum trabalho pastoral, bem como a defesa da família e da vida terão sentido se não forem pautados pelo olhar fixo em Cristo. O amor e a paixão a Ele são o combustível para qualquer ação.

A Pastoral Familiar, antes de tudo, deverá ser uma Pastoral que promova o encontro com Cristo. Deverá conduzir seus agentes a uma experiência com Ele, experiência que gera inúmeros frutos, dentre esses a conversão. Agentes convertidos, entregues a Deus, encontram vigor e sentido em seus trabalhos. Um trabalho que não gera conversão não é fecundo. Não sendo fecundo, torna-se pesado e deixa de ser prazeroso.

Não raramente encontramos agentes da Pastoral Familiar que vivem situações irregulares, passivas de solução. Casais feridos pela infidelidade, pela crise dos relacionamentos, por conflitos, que perderam o brilho do matrimônio e a crença na família. Impossível obter êxito nos trabalhos ferido por essa realidade. Para isso, faz-se necessário, com certa urgência, que se promova um encontro desses casais com Cristo, que Ele se torne a poção fundamental de cada um.

Pastoral Familiar não se faz apenas com papéis, mas principalmente com o joelho no chão. Pastoral Familiar que não reza, torna-se vazia, sendo vazia, não se torna atrativa, não encanta, não convence.

O que fazer para promover esse encontro com Cristo? Para isso, destacamos duas vias, ordinária e extraordinária, que nos levam a Deus. As vias ordinárias são os sacramentos, merecendo destaque, porém, não mais importante que os demais, o sacramento da Penitência e o Sacramento da Eucaristia. As vias extraordinárias são os gestos plurais de piedade, que visam potencializar a graça sacramental, merecendo destaque, a Adoração ao Santíssimo, a Oração do Santo Terço, o Jejum e a Leitura Orante da Palavra de Deus.

Mediante o sacramento da Penitência se mantém em estado de graça. Estando em estado de graça, vive-se em comunhão com Deus, sendo facilmente conduzido por Ele. Não raramente, encontramos agentes da Pastoral Familiar que são adversos à confissão. Vivem em situação de pecado, alheios à vontade de Deus, bem como, insensíveis à Sua condução.
Não se escondam atrás do segundo mandamento da Igreja, que nos orienta a nos confessarmos apenas ao menos uma vez ao ano, pois seria bom e útil buscar a confissão sempre que necessário, ou seja, sempre que estiver em estado de pecado. Não espere a Páscoa, viva a experiência pascal sempre que precisar. Estando em estado de graça, se gozará dos benefícios da Comunhão Eucarística. Portanto, não se constrói santidade, mediante o matrimônio, bem como, pelas ações pastorais, sem a comunhão. Os que não têm impedimento para se aproximarem do Sacramento da Penitência, o façam sempre que necessário.

Não se esconda atrás do terceiro mandamento da Igreja, que nos convida a receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da Ressurreição. Não temos fome apenas na Páscoa. Busque fidelidade ao primeiro mandamento da Igreja, participar da Missa aos domingos e festas de guarda. Mesmo que não esteja em estado de graça, a participação da missa dominical é regra, uma obrigação que deverá se tornar uma opção. A Eucaristia não é apenas uma coroa de glória para os justos, é, também, remédio para os pecadores arrependidos, desejosos por mudanças em suas vidas. Um agente de pastoral que busca encontrar-se com Cristo na Eucaristia terá força suficiente para os trabalhos.

Nenhum trabalho pastoral poderá sobressair à missa. Nossos encontros deverão ser pautados pela Eucaristia. É no altar que nos refazemos, é no altar que descansamos. O altar, portanto, é lugar de encontro, onde nos unimos às espécies do pão e do vindo e nos ofertamos a Deus, tendo em vista também sermos transformados e santificados.

Bem sabemos que as situações difíceis da vida tendem a nos afastar do altar, promovendo até mesmo medo e vergonha de nos aproximarmos dele. Mas digo, o altar é lugar de misericórdia, o Cordeiro perfeito, Cristo, é imolado no altar, mas os cordeiros imperfeitos, que somos nós, também são ofertados no mesmo altar. Em uma Igreja, o altar sempre deverá ser o lugar de destaque, pois é nele que se constrói santidade, que o cristão se refaz, que se reconstrói. Uma família, um casal, um agente de pastoral que se encontra na Eucaristia, terá força, audácia e sabedoria, para enveredar-se no mundo, buscando transformá-lo.

Não raramente encontramos agentes de pastorais que, em meio aos afazeres pastorais, não participam da missa, sentindo-se legitimados para não cumprir esse preceito. Repito, nada, nenhum trabalho da Pastoral Familiar deverá sobressair à missa dominical.
Tendo em vista esse convite de centrar-se em Cristo, buscando a comunhão com Ele no sacramento da Penitência e da Eucaristia, aqueles que gozam da possibilidade de comunhão diária, usufruam desse benefício, pois é um alimento salutar para os trabalhos pastorais.

Além dessas vias ordinárias, encontramos muitas outras vias extraordinárias de encontro com Deus, merecendo destaque, como foi dito, a Adoração ao Santíssimo, a Oração do Santo Terço e o Jejum.

Sem me delongar sobre as vias extraordinárias, ressalto a importância de se recolher diante do Cristo Eucarístico, mediante a adoração, se possível silenciosa, tecendo com Ele um diálogo entre irmãos, entre parceiros, entre Mestre e aprendiz. Nesse diálogo, Ele nos conduz a rezar.

Da mesma forma, a Oração do Santo Terço, se possível diário, nos coloca diante de Maria, em cujo colo somos acolhidos, amparados, especialmente nos momentos difíceis. A devoção mariana é um alimento singular para o agente da Pastoral Familiar, mesmo tendo vias plurais de se cultivá-la, deve-se buscar o melhor caminho para se ter com Ela uma relação maternal, pois através dela chegamos a Jesus.

O jejum consiste na privação ou redução de comida por um período, encontrando na mortificação da natureza humana uma via de encontro com Deus. O jejum não poderá ser visto como um mecanismo de troca, em que ofertamos a falta de alimento a Deus em vista de recebermos Dele algo. Mas sim, como forma de reconhecermos que a humanidade deverá se curvar diante de Deus. Na fome, na abstinência, nos lembramos que somos pó.
Bem sabemos que algumas pessoas, por motivo de saúde ou trabalho, não conseguem abster-se de comida por um período do dia. Convidamos esses a se unirem a Deus através da abstinência de algo que seja bom e desejado. Abster-se de algo que não seja bom é obrigação.

A leitura da palavra de Deus nos coloca diante dos ensinamentos do Senhor, possibilitando-nos encontrar na Palavra um alimento sólido para a vida e os trabalhos pastorais.

Aconselha-se que cada agente cultive diariamente a leitura da palavra de Deus, não sob a ótica do estudo, mas sim de uma leitura espiritual, deixando que Deus dê a devida resposta às situações concretas do dia a dia, pela Palavra.

Aconselha-se também a investir na Lectio Divina, pois através dela se aprimora a leitura da Sagrada Escritura. Uma dica, de grande valia, é a leitura da Liturgia da Palavra de cada dia, pois sabiamente a Igreja nos propõe um roteiro de leituras que condizem com um caminho de santificação.

O encontro com Cristo pelas vias ordinárias e extraordinárias tem como fim nos manter em estado de graça, fortificando-nos para a missa. Promovem também nossa santificação. Um trabalho pastoral que não promove a santidade de seus agentes e atendidos não goza de credibilidade. A defesa da vida e da família por agentes crentes e santos goza de mais eficácia, pois não se defende uma ideia, mas sim, algo que se acredita e se vive.

A santidade é o ponto de chegada de todas as ações e experiências religiosas, mas infelizmente nem todas são providas dessa intenção. Tem como origem o próprio Deus, portanto, ser santo, é assemelhar-se a Ele. Dentre os caminhos de santificação, destacamos as Bem-aventuranças , as Obras de Misericórdia , os Conselhos Evangélicos , que se unem às vias ordinárias e extraordinárias acima destacadas. Buscar a santidade é cooperar com Deus no processo de salvação, pois não basta Deus querer, é preciso que mereçamos e busquemos os caminhos de santificação, requisito necessário para contemplarmos Sua face.

Portanto, todos os trabalhos da Pastoral Familiar devem ter, dentre outros efeitos, a santificação tanto de seus agentes como das famílias atendidas. Um trabalho pastoral que não promova a santificação de seus agentes torna-se vazio e desmotivador. É urgente a retomada desse objetivo. Muitos se encontram desmotivados com os trabalhos pastorais, mas se enxergarem na pastoral um caminho de santificação e de encontro com Cristo, mesmo que seja pautado por desafios, nunca será desmotivador. Cada agente é convidado a viver o martírio, não de sangue, mas sim, dos sentidos.

A Pastoral Familiar deverá promover ações que possibilitem a santificação de seus agentes e assistidos, propagar a importância da Missa Dominical, e porque não diária, da confissão, oração do santo terço, práticas das obras de misericórdia e outras vias de santificação. Para isso, será preciso mudar nosso jeito de fazer pastoral. Não podemos nos esquivar dos encontros e eventos, mas o grande desafio da Pastoral Familiar é dar testemunho de perseverança nas vias de santificação, promovendo, no cotidiano de cada pessoa, hábitos salutares para a perseverança daqueles que se aproximam ou se reaproximam da Igreja. De nada adiantará o sucesso de nossas ações se essas não forem acompanhados pelo crescimento pessoal de cada agente e assistido.

Os livros são de extrema importância, pois nos capacitam ao diálogo com o mundo. Um agente que não conhece a doutrina acerca da família e da vida, propagada pelo Magistério da Igreja, infelizmente será massacrado pelo mundo. Mas de nada adianta ter um bom contato com os livros e não ter a experiência daquele que é assunto central dos livros, o Cristo. Estude e reze.

Em meio a esta necessidade de se adaptar a Pastoral Familiar à realidade, surgem inúmeras inquietações e perguntas acerca dos modos de se promover a cultura da família e da vida em uma sociedade secularizada. Por isso, destacaremos alguns pontos que não esgotam o tema, mas ajudam na reflexão sobre esta reinvenção do jeito de ser e fazer Pastoral Familiar.

Uma leitura da realidade
O Documento de Aparecida (I Parte), o Diretório da Pastoral Familiar (Capítulo I), a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Capítulo II) e tantos outros documentos do Magistério tecem um olhar inteligente sobre a realidade em que vivemos. O documento Amoris Laetitia deixa-nos claro que não pretende dar uma receita única para as diversas realidades que compõe a Igreja e conclama-nos a fazer pastoral a partir de nossa realidade.

Todos os planejamentos Arqui/Diocesanos deverão considerar a singularidade de sua realidade, promovendo ações que correspondam às reais necessidades da comunidade. Outras ideias e projetos de realidades distintas poderão servir de exemplo para a realidade local, ser até aplicáveis na íntegra, se corresponderem à realidade. Porém, se não nascerem de uma necessidade local, não alcançarão o coração da assembleia, e serão apenas ações desvinculadas da caminhada da comunidade, fadadas ao esquecimento.
Esse olhar detalhado da realidade nos dará subsídios necessários para entendermos a realidade das famílias a nós confiadas, nos deparando com as verdades de nosso povo, seus desafios, suas enfermidades, suas dores e alegrias. Tendo essa realidade em mente, poderemos rezar sobre esses dados e pedir a Deus sabedoria para criarmos os remédios adequados para cada enfermidade social.

A Pastoral Familiar é um importante instrumento da Igreja. Mesmo não tendo pretensão de ser o único caminho de restauração da família e defesa da vida, possui uma estrutura singular que facilita os trabalhos em favor da família e da vida. Mas é importante destacar que a defesa da estrutura da Pastoral Familiar, em seus respectivos setores, deve ser cautelosa para não criarmos uma cruzada desenraizada da realidade, uma inquisição condenatória daqueles que não possuem a estrutura ideal de pastoral, pois bem sabemos que nem todas as realidades possuem capacidade humana para implantar a estrutura apresentada pelos documentos da Igreja. Não podemos nos esquecer que o mesmo Espírito, que inspirou a Igreja a criar esta estrutura, poderá também nos impulsionar a fazer Pastoral Familiar para nossa realidade.

Longe de mim negar a importância da estrutura apresentada solenemente pela Familiares Consortio (IV Parte) e pelo Diretório da Pastoral Familiar (Capítulo VIII), pois é o caminho e a metodologia ideal para os trabalhos da Pastoral Familiar. Mas, como foi dito, há realidades que não conseguem alcançar o ideal proposto, não por negligência ou comodismo, mas por falta de material humano. Tais realidades não podem ser excluídas do corpo pastoral da Pastoral Familiar, não deixam de ser pastoral. Lutemos firmemente para implantar o que é idealizado pelos documentos acima mencionados, mas não deixemos de nos sentir Pastoral Familiar quando esses ideais não forem atingidos.

O grande desafio desse processo de ressignificação da Pastoral Familiar é construir uma Pastoral Familiar para a paróquia, para os grandes centros e as periferias. Não podemos pensar em projetos belos, mas inaplicáveis à realidade paroquial. A Pastoral Familiar se faz na paróquia, é lá que ela acontece. Nesse processo, não nos descuidemos das ações Regionais e Diocesanas: caberá ao Regional Centro-Oeste e às Arqui/Dioceses dar o devido suporte às paróquias, buscando aproximar-se do ideal proposto pelo Magistério, porém mantendo o foco de atuação pastoral em nível paroquial a partir da realidade da Igreja local.

Organicidade da Pastoral Familiar e a Pastoral de Conjunto
Como foi dito, a Pastoral Familiar é subdividida em setores, Pré-Matrimonial, Pós-Matrimonial e Casos Especiais, sendo implementada pelo Núcleo de Formação e Espiritualidade e outras iniciativas que enriquecem seus trabalhos.

Nesse processo de repaginação da Pastoral Familiar, inevitavelmente deverá ter-se em mente a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, que veio reafirmar a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio e a Família, merecendo destaque a acolhida misericordiosa dos Casos Especiais. Porém, com a mesma envergadura, o Papa Francisco retrata com clareza a necessidade de se preparar, principalmente, os jovens, propagando a cultura da família àqueles que almejam contrair o matrimônio. É crescente o número de casos especiais, fruto de uniões falidas, pela ineficiência da ação pastoral do Pré-Matrimônio.

Lamentavelmente, estamos nos tornando uma Igreja de divorciados. No Brasil, em 2016, em média, 2.097 casamentos foram declarados nulos. A princípio, prova de um bom trabalho de nossos tribunais, mas também, retrato de uma triste realidade: um simples encontro para noivos não prepara um casal para o matrimônio. É preciso propagar a cultura da família e do matrimônio. Para isso, faz-se necessário que a Pastoral Familiar aproxime-se dos movimentos, pastorais e serviços que têm a juventude como foco, não necessariamente para assumir os trabalhos, mas sim, dar o devido suporte e formação acerca do matrimônio e da família. Da mesma forma, a aproximação com a catequese, movimentos, pastorais e serviços que atuam com a infância e a adolescência.
Tecer parcerias para a construção de uma Pastoral de Conjunto, um grande desafio da Igreja, constitui uma necessidade prioritária para a eficácia dos trabalhos do Pré-Matrimônio. É urgente entendermos que pastoral não se faz isoladamente, ou não atingiremos nossos objetivos.

A Pastoral Familiar deve compreender que não é sua missão assumir todos os trabalhos, mas sim, articular e oferecer suporte para outras ações existentes, preservando a identidade de cada movimento, pastoral ou serviço. A presença de adultos e idosos em meio aos jovens é o maior instrumento de propagação da cultura da família e da vida. O diálogo entre as gerações se constrói a partir de uma boa leitura histórica dos dias atuais, capaz de compreender que, em meio às diferenças, sempre há pontos comuns que possibilitam o encontro do mais jovem com o mais velho. Entre muitas crianças, adolescentes e jovens que não têm abertura com os pais, a presença da Pastoral Familiar pode suprir a necessidade de diálogo.

Como fora dito acima, não há uma proposta pedagógica universal para a preparação dos noivos, das crianças, adolescentes e jovens para a vida conjugal e familiar. Cada Arqui/Diocese deverá fazer uma leitura de sua realidade, tendo em vista a necessidade de se construir um processo formativo para a preparação para o matrimônio. Salientamos apenas que a cultura da abreviação dos “cursos” de noivos nunca preparará com qualidade nossos jovens para a vida matrimonial. Dever-se-á levar a sério os encontros de preparação para noivos.

Dentre os temas importantes para a propagação da cultura da família e da vida, bem como a preparação para a vida conjugal, destacam-se: 1) Sacramento do Matrimônio: o que é e quais suas implicações canônicas e civis; 2) Preparativos básicos para a celebração matrimonial – o Rito; 3) O amor de Deus como protótipo do amor conjugal; 4) O pecado como fator destrutivo da vida conjugal; 5) A experiência de Deus na vida conjugal; 6) Conhecimento de si mesmo e do outro; 7) Harmonia sexual do casal; 8) Não se faz sexo, mas sim, amor. Relação sexual como celebração do amor; 9) Paternidade Responsável e métodos naturais para o planejamento familiar; 10) Diálogo: importância e técnica para um diálogo aberto e sincero em um casamento; 11) Finanças em um mundo perturbado; 12) Como organizar um orçamento familiar: compras, planejamentos, comunhão de bens, investimentos… Não colocar o dinheiro em primeiro plano; 13) Filhos: educação, dedicação, dom de Deus e adoção. 14) Como relacionar-se com os familiares e amigos. 15) As principais mudanças pós-matrimônio; 16) Tecer laços de amizade no matrimônio como um importante investimento matrimonial.

Tendo em vista a análise de conjuntura de cada Arqui/Diocese, orientamos que construam um “encontro de preparação para o matrimônio” homogêneo em toda Arqui/Diocese. Podendo realizá-lo em módulos, em um único final de semana… contando que prime pela qualidade. É importante, também, aproximar a Pastoral Familiar dos noivos, para um acompanhamento personalizado, favorecendo a cultura da Direção Espiritual. Para isso, é importante que cada casal Diretor Espiritual promova encontros periódicos com os noivos, podendo retomar temas tratados na preparação para o matrimônio ou temas diversos, favorecendo o diálogo e a interação entre diretores espirituais e noivos. Este acompanhamento deverá prosseguir após a celebração do casamento, como atividade do setor Pós-Matrimônio.

A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia retrata a necessidade de se criar Centros de Apoio às Famílias, com diversas ações em favor da família. Em uma Pastoral de Conjunto, o setor Pós-Matrimônio deverá tecer laços fraternos e serviçais com movimentos e serviços em favor da família, principalmente, os que primam pelo cuidado com os casais. Dentre as ferramentas possíveis, destaca-se a Direção Espiritual, que intermediará a solução de conflitos, acompanhará os recém-casados… evitando que se multipliquem os casos especiais.

Importante articular reuniões com os movimentos, pastorais e serviços, para tecer parcerias nos trabalhos em favor da família e da vida. Orientamos, sem ferir a identidade de cada Arqui/Diocese, a criação do Setor Família, unindo forças para os trabalhos pastorais.

O setor Casos Especiais ainda é um dos maiores desafios da Pastoral Familiar, devido à sua amplitude e complexidade. Sem nos delongarmos nesse tema, lembramos apenas que já foram apresentadas as três palavras que resumem as necessidades do setor: Acompanhar, Discernir e Inserir. Cada Arqui/Diocese, em comunhão com seu Pastor, deverá pensar como efetivar essas vias apresentadas pela Amoris Laetitia, buscando meios de inserção dos Casos Especiais nos trabalhos pastorais e litúrgicos, considerando sempre o bem da comunidade, a defesa da verdade e a acolhida misericordiosa.

Outra urgência do setor é a criação ou implementação da Pastoral Judiciária, com vistas a ajudar a solucionar as irregularidades passíveis de solução. Caberá à Pastoral Familiar tecer parcerias com as Câmaras Eclesiásticas e Tribunais Eclesiásticos, facilitando o acesso à justiça daqueles que vivem situações irregulares.

O Regional Centro-Oeste possui dois Tribunais Eclesiásticos, presentes nas províncias de Brasília e Goiânia, que acolhem, através das Câmaras Eclesiásticas das Dioceses, os processos que pleiteiam a Declaração de Nulidade dos matrimônios. Temos ainda outros tribunais em via de criação. Por isso, é importante ficar atento à realidade de sua Arqui/Diocese para oferecer suporte para os trabalhos judiciais.

Outro desafio ainda por vencer, também necessário para a ressignificação da Pastoral Familiar, se encontra na constituição do Núcleo de Formação e Espiritualidade, responsável pela formação e espiritualidade dos agentes da Pastoral Familiar. Ressalte-se que a formação também deverá ser pensada a partir das paróquias, favorecendo sua aplicação nas diversas realidades concretas, pois infelizmente a formação Regional e Diocesana não tem chegado até elas. Por isso, uma avaliação sincera da situação é necessária para identificar as razões dessa ineficiência na multiplicação dos conteúdos.

Uma Igreja ferida
Por fim, ao olharmos para a nossa realidade, nos deparamos com uma Igreja ferida pelas inúmeras situações que dificultam seus trabalhos. Importante lembrar que a Igreja está inserida em um contexto social, sofrendo também as consequências do meio. Choramos os sacerdotes que abandonaram seus ministérios, choramos os casais que se separaram, choramos os escândalos sexuais, administrativos… Somos uma Igreja ferida.

Mas ser uma Igreja ferida não implica ser uma Igreja entristecida, pois ser ferida nos faz lembrar da fragilidade humana e também da providência divina. Em meio às dores deverá surgir a esperança e a confiança no cuidado de Deus.

Quem ama, ama na alegria e na dor. Não condicione seu trabalho, sua doação, sua entrega às dores. Não sejamos propagadores das dores. É importante lidar com as feridas, com verdade e maturidade. A solução não é fazer de conta que não temos problemas, tampouco escancará-los, mas sim, ter atitude de agentes transformadores de realidades difíceis. Não podemos nos prender ao choro, temos que nos levantar e reerguer essa Igreja caída.

Cabe-nos lembrar que Cristo é a Cabeça da Igreja e sempre estará erguida. Independente de os outros membros estarem fragilizados, a Cabeça se encontra plena. “Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus.18E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mt 16,17-18).
Torne-se agente transformador das realidades difíceis, ame esse Igreja na alegria e na tristeza, Deus proverá caminhos de solução.

9 – O Evangelho da Família, alegria para o mundo

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Dom Moacir Silva Arantes

O Concílio Vaticano II, ao falar sobre a família na GS 47-52, não começa dando princípios teóricos sobre a grandeza e a dignidade desta instituição cristã. Começa oferecendo-nos uma descrição realista da situação da família no mundo atual (GS 47). Inicialmente, também oferecemos uma visão panorâmica sobre a situação da família no momento atual.

No mundo moderno, a família também se apresenta com características novas. Isso é tão verdade que às vezes dá a impressão de que nos encontramos diante desta disjuntiva: ou que a família tende a desaparecer totalmente, ou que se trata de algo completamente diferente do tradicional. Quais explicações para essa revolução dentro da instituição familiar? Como podemos solucionar os problemas familiares?

Para se ter uma ideia mais exata do estado atual da família é conveniente que voltemos nosso olhar para sua situação anterior, buscando identificar os sintomas dessa profunda evolução. A partir desse olhar, podemos projetar o autêntico rosto da família do amanhã, destacando os princípios imutáveis que devem reger essa instituição, tendo em conta sua adaptação às novas situações.

Para compreender a situação da família de ontem vamos considerá-la sob dois aspectos complementares: o aspecto sociológico e o aspecto religioso.

Quanto ao aspecto sociológico, dentro de nossa cultura ocidental, tendo em conta as distintas bases sociológicas, encontramos a família patriarcal, que, em seu sentido pleno, desapareceu quase por completo da atual sociedade ocidental, mas ainda mantém suas marcas, sobretudo, em ambientes rurais que não sofreram o impacto da revolução urbana e industrial. Esse tipo de família, da qual grande parte de nós procedemos, possui peculiares características.

Nela, a primazia do princípio da autoridade de forma exagerada era comum, concentrada exclusivamente no chefe da família. Desse princípio, observa-se a sujeição absoluta da mulher à vontade do marido (nos gostos, na escolha do lugar onde morar, tipo de casa…). Embora considerada “rainha do lar”, a mulher não passava de uma rainha escrava do lar. O marido é que tinha a suprema autoridade, o que dirigia a economia, e o que intervinha na vida social.

Desse princípio também decorre a sujeição total dos filhos às ordens do pai, até em assuntos de relevante importância, como a escolha do estado de vida: solteiro(a), casado(a) etc. A autoridade do pai compunha-se das gravíssimas obrigações de vigiar, corrigir e castigar, e por parte dos filhos o estrito dever de respeitar e de obedecer.
Este sentido de autoridade familiar concentrado no marido como cabeça da família se reflete em todos os códigos civis e até no Evangelho, a exemplo de Ef 5, 22-23 (subordinação da mulher ao marido, “porque o marido é a cabeça da mulher”) e 1Cor 7, 36 (o pai é quem dispõe o casamento da filha).

A afetividade conjugal ficava em segundo lugar. As relações conjugais não tinham nenhuma manifestação fora da mais estreita intimidade do lar, a tal ponto que parecia indecoroso qualquer manifestação dos esposos diante dos olhares dos demais. O esquema essencial parecia ser o seguinte: “o amor para os noivos; os casados já vivem juntos”. Dava-se relevante importância à fecundidade dentro do matrimônio: o que contava eram os filhos, sem olhar demasiado para a promoção humana dos mesmos, e menos ainda a perfeição e o enriquecimento afetivo dos esposos.

Este tipo de família, que se prolongou durante séculos em nossa sociedade, é precisamente a que agora está em revisão e na qual ocorrem os problemas mais agudos ao buscar adaptar-se às novas circunstâncias.

Quanto ao aspecto religioso, a família de todos os tipos e de todas as idades têm tido, de uma maneira ou de outra, um senso religioso e sagrado. Na família de ontem, poderíamos assinalar em relação à teologia do matrimônio, que havia um “déficit” de teologia e uma “inflação” de direito, embora não se negue o caráter sacramental do matrimônio, considerado quase que exclusivamente na perspectiva de contrato humano sobre um fundo de instituição natural imutável.

Poderíamos resumir em três aspectos a moral matrimonial e familiar: fidelidade, indissolubilidade e fecundidade.

A fidelidade, baseada na unidade e indissolubilidade do matrimônio, descarta o adultério e o divórcio como dois vícios opostos e confirmam a família como célula da sociedade, não somente por título jurídico e econômico, mas também por sua grande força educativa. Nela se exercitam as virtudes que fazem possível a convivência social: a responsabilidade, a compreensão, o autodomínio.

É impossível imaginar a convivência humana sem essas forças morais. Mas para que elas possam brotar do solo da família, esta há de ser duradoura, constante, segura: há de ser indissolúvel. Por isso, não tenhamos medo de cair em exagero afirmando que o matrimônio indissolúvel é a argamassa imprescindível da convivência social. Suprimamos a indissolubilidade e veremos como cai em pedaços o edifício da sociedade humana.

A procriação dos filhos era considerada o fim primário do matrimônio, carregando o assento sobre o dever da fecundidade, que diminui cada vez mais na atualidade…

Quanto à espiritualidade, não podemos negar os grandes valores espirituais que se desenvolveram dentro das famílias cristãs. Contudo, podemos afirmar que a espiritualidade, especificamente, matrimonial é relativamente nova. Na família se vivia uma “espiritualidade de terciários”; isto é, calcada sobre os módulos de uma espiritualidade conventual.

Depois de uma rápida visão da situação da instituição familiar nas gerações passadas, definimos a situação da família na atualidade em três palavras: mudança, crise e revisão.
Quanto ao estado de mudança, é evidente para todos que a instituição familiar se encontra em um momento de mudança e evolução, naturalmente, devido ao processo de transformação a que está sujeito o mundo atual.

A crise que tem provocado esse estado de mudança e evolução na instituição familiar decorre de vários fatores. Dentre os quais, citamos problemas sociopsicológicos: “a atual situação econômica, sociopsicológica e civil são a origem de fortes perturbações para a família” (GS 47). Como a instituição se apóia em condicionamentos sociopsicológicos, ao mudar estas situações, é natural que se provoque idêntica mudança na família. A tranculturação, passagem de uma cultura para outra, de uma cultura rural para uma cultura urbana; de uma cultura agrícola para uma cultura industrial, leva a família a se acomodar à nova cultura. Rompe-se o círculo fechado da família com a emigração, a terra já não tem sentido de coesão, ocorre dispersão da família por causa do trabalho, há mudanças notáveis na relação autoridade-obediência, os filhos já não seguem necessariamente a profissão dos pais, ocorrem mudanças sociais com maior facilidade.

Mas querer “reformar” o matrimônio, propalando falsas máximas, destrói nesciamente os valores mais sagrados. O que o mundo necessita não é a reforma do matrimônio, mas o matrimônio cristão, reto, moral e indissolúvel. A tese de que o matrimônio não é invenção humana, mas instituído por Deus , “coisa sagrada”, cuja essência não depende da vontade humana, justificam a impossibilidade de se mudar sua lei básica, posto que o matrimônio cristão é sacramento.

O caos e desvario que reinam nesta questão são motivados pelas paixões humanas, que se intrometeram nas leis divinas e cortaram a sua raiz vivificadora, arrancando o matrimônio do solo divino, para “reformá-lo” segundo as exigências cegas da natureza humana, dada ao sensualismo.

Pergunto: – É necessário, é sequer lícito reformar o matrimônio?
Assim respondem: – “Se em volta de nós tudo mudou, se vivemos em circunstâncias econômicas e formas de vida completamente novas, também o matrimônio deve-se amoldar à nova situação”.

Ninguém nega o grande progresso que a humanidade realizou nestes últimos anos, no campo da ciência e da técnica. Mas o semeador da vida humana, apesar das grandes transformações operadas no mundo, continua a ser o mesmo: a família. Não é lícito tocar com mãos sujas e grosseiras esta fonte. A família há de ser sempre a fonte pela qual a humanidade se rejuvenesce constantemente. A família há de ser sempre a porta pela qual entra na vida a nova geração humana, para ocupar o posto que deixa vazio a geração que baixa ao túmulo, à sepultura.

Portanto, o que se necessita não é a “reforma” do matrimônio, tal como o propalam homens embriagados pelo afã do prazer: “matrimônio de camaradas”, “de experiência”, “de fim de semana”, “do mesmo sexo” e outras mil loucuras. Não, não é isto de que nós necessitamos. O que necessitamos é salvar, robustecer o “matrimônio antigo”, pelo qual chegamos ao atual desenvolvimento cultural e que a Igreja de Cristo não cessa de defender, fomentar e exigir.

A ninguém constrange mais do que à Igreja o grande abismo que se abriu no campo do matrimônio entre o ideal cristão e a triste realidade. É que há valores absolutos, há exigências que não se podem mudar nem reformar, ainda quando os abandone o mundo inteiro. Assim se compreende porque a Igreja Católica, ainda achando-se só, continua a sustentar uma luta sobre-humana pelo ideal perfeito que Cristo propôs, isto é, pelo matrimônio indissolúvel.

A luta contra o matrimônio é apenas uma forma de guerra desencadeada contra Deus pelas diversas escolas filosóficas, materialistas e ateias. Portanto, quem deseja ver Jesus Cristo reconhecido e adorado no mundo, não pode alistar-se nas fileiras dos que lutam e apregoam a destruição do matrimônio.

Há, é verdade, um obscurantismo da instituição familiar. Na imagem da família atual há sombras, e por certo bastante escuras. Não fazemos mais que repetir as palavras do Concílio: “A dignidade desta instituição não brilha em todas as partes com o mesmo esplendor, posto que está obscurecida pela poligamia, a epidemia do divórcio, o amor livre e outras deformações”. E “mais ainda, o amor matrimonial fica frequentemente profanado pelo egoísmo, o hedonismo e os usos ilícitos contra a geração” (GS 47).

10 – Pastoral Familiar na Familiaris Consortio e Amoris Laetitia

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Pe. Cleber Alves de Matos

Quando falamos de Familiaris Consortio e Amoris Laetitia estamos nos referindo a duas Exortações Apostólicas, fruto de dois importantes Sínodos dedicados à família, uma publicada em 1981 no pontificado de João Paulo II, hoje São João Paulo II, promovendo dentre outros aspectos, uma organização da Pastoral Familiar, principalmente na quarta parte , outra, em 2016 no pontificado do Papa Francisco, que além de reafirmar a doutrina da Igreja acerca do matrimônio e da família, tem um olhar mais aguçado à pastoralidade, principalmente, um cuidado mais inclusivo para com os casos difíceis.

1. O matrimônio e a família como imagem da fecundidade de Deus
Para um bom entendimento acerca do que fora revelado por Deus e entendido pela Igreja sobre a família e o matrimônio é de suma importância ter essas duas exortações em mãos, lê-las e entendê-las. Uma boa Pastoral Familiar é aquela que sabe fundamentar-se no que é ensinado pela Igreja e também sabe colocar esses ensinamentos em prática. Uma Pastoral só teórica ou só prática não alcançará seus objetivos.

O matrimônio, um bem revelado por Deus, conjuntamente com a virgindade, são formas de realizações da vocação da pessoa humana. Sendo um dom de Deus, imagem da aliança entre Deus e a humanidade, não pode ser vivido apenas como uma realidade biológica, deve ser vivido também como uma dimensão sobrenatural, a exemplo da união hipostática assumida por Jesus ao assumir a humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerando vida a exemplo da fecundidade divina .

Jesus é o grande exemplo de esposo, exemplo de comunhão e doação, devendo os cônjuges se espelharem Nele. O matrimônio em Cristo assume caráter de sacramento, fortificando ainda mais a indissolubilidade natural das relações conjugais, sendo também caminho de encontro com Cristo, bem como, caminho de salvação.

2. Pastoral Familiar e anúncio fecundo
Para que o anúncio da família seja eficaz e produza frutos, é preciso que não seja feito como uma imposição fria de uma doutrina, mas sim, feito à luz de uma experiência sobrenatural, de um encontro com Deus .

Uma Pastoral Familiar fecunda é uma pastoral que promova o encontro com Cristo. Não há como se encantar com a Pastoral se antes não houver um encantamento por Cristo. Sem uma experiência de Deus, nossos trabalhos serão vazios, não terão sentido. É o encontro com Cristo que nos fortifica nos momentos de sofrimento, de decepções e cansaço. É o encontro com a Palavra, com os sacramentos e as vias de piedade popular que nos manterá em prontidão. Não podemos abandonar nossos eventos, mas é chegada a hora de investirmos um pouco mais na promoção de um encontro amoroso com Jesus. Desse encontro nascerão agentes fervorosos, mártires da pós-modernidade.

3. Educação da prole
A exemplo da fecundidade de Deus, o matrimônio é o fator constitutivo de uma família. Por ele se gera vida e a acompanha mediante um processo educativo. A educação da prole é uma das prioridades da união conjugal, não estando o matrimônio apenas para a satisfação humana, tão pouco apenas para a procriação.

Não há, nos desígnios de Deus, possibilidade de renúncia do papel educativo dos cônjuges. É missão dos progenitores educar a prole à vida em sociedade, à vivência madura e cristã da sexualidade, à vivência da fé cristã, com seus valores, doutrinas e princípios, ensinando-a a vencer as tendências sociais destrutivas, tendo maturidade para fazer boas escolhas quando atingir idade adulta, primando por princípios éticos, estando cientes de que escolhas ruins geram consequências ruins. Pais que privam seus filhos de assumirem as consequências de suas escolhas, bem como repararem seus erros, são péssimos educadores .

4. Pastoral Familiar e promoção da vida
Ao conjugar o matrimônio à imagem fecunda de Deus, importante lembrar que a esterilidade não pode ferir a beleza da família, podendo gerar abertura para outras frentes de serviço à vida e à família , podendo também suscitar o desejo concreto de gerar com a alma, mediante a adoção. O amor é tão sublime e fecundo, que nos capacita a gerarmos não só com o corpo, mas também com a alma. Gerar com a alma implica cuidar de uma vida que foi gerada e parida por outra pessoa, porém situações da vida afastaram progenitores e prole.

Uma Pastoral Familiar fecunda, a exemplo da fecundidade de Deus, é uma Pastoral promotora da vida e, principalmente, do cuidado com a vida abandonada. Adotar é um desafio, porém, não podemos nos esquecer que somos filhos adotivos de Deus. Da mesma forma que Cristo mediou nossa filiação, ele também media nossa geração com a alma. A adoção vivida em um ângulo sobrenatural torna-se fecunda, concretização do desejo humano de imitar a Deus.

5. Família e vida em sociedade
Pela família se aprende a viver em comunidade, por ela se introduz a pessoa na sociedade, nela se aprendem os princípios básicos de uma convivência pacífica em sociedade . Portanto, uma Pastoral Familiar fecunda é uma pastoral que se lança pelo mundo tendo como fim transformá-lo, uma transformação que parte pela restauração das famílias. Uma Igreja fecunda é uma Igreja que se lança em sua missão profética, promovendo a justiça social. Mas, uma justiça apenas social, que não prima pela restauração da família, pelo resgate de seus valores e finalidades, não conseguirá resgatar a humanidade das garras do secularismo.

6. Avaliar para projetar
O que é comum entre as duas exortações e em outros documentos do Magistério, é o conhecimento da realidade , a partir da qual se propõe um projeto, uma exortação, um remédio para doenças específicas. Nossos remédios pastorais talvez não sejam eficazes, porque podem não ser remédios certos para as doenças que temos. Isso serve-nos de exemplo, pois somos bons para criar atividades, porém, péssimos para avaliarmos nossa realidade.

Abramos nossos olhos para um olhar detalhado do mundo em que vivemos, de nossas Comunidades. Será que nossos remédios pastorais são indicados para as doenças sociais que nos afetam? Importante lembrar que não há uma receita única, pois mesmo que algumas doenças sejam comuns, muitas outras são específicas a cada realidade .
Dentre outras doenças apresentadas pelas Exortações, destacam-se:

a. Degradação dos valores fundamentais, inversão de papéis no contexto familiar, falsa concepção de liberdade e individualidade, cultura do divórcio que desestabiliza famílias gerando uniões irregulares, ferindo o desenvolvimento positivo dos filhos ;

b. Desigualdade social, economias falidas, miséria como fruto de uma desigualdade social, que condicionam a família, pois a busca da estabilidade é condição para a constituição familiar ;

c. Cultura da morte e antinatalista, bem como a forçosa inserção de ideologias, merecendo destaque a ideologia do gênero, que fere a ideia de pessoa e suas propriedades.

d. Pessimismo frente ao envelhecimento, vendo os idosos como um peso, pois não são mais produtivos .

e. Individualismo exagerado, em que o indivíduo se torna absoluto, gerando famílias subdivididas em ilhas, ferindo o diálogo e convivência familiar, agressividade e falta de aceitação da individualidade alheia. Em nome do individualismo e da liberdade de escolha nega-se o matrimônio com o falso intuito de preservar a individualidade. A casa (lar) tem se tornado lugar de passagem e a convivência familiar se dá apenas quando é conveniente.

f. Metodologia pastoral inadequada para os dias atuais, gerando aversão à experiência religiosa e consequentemente ao conteúdo da fé e a defesa da vida, bem como, a apresentação de um matrimônio ideal quase poético e desumanizado, desconsiderando a situação de cada pessoa, suas limitações e intenções positivas, mesmo que frágeis.

g. Afetividade narcisista, erotização e vulgarização da sexualidade ;

h. Exploração sexual, principalmente de menores; filhos privados da presença de um ou dos dois pais, violência social e doméstica, principalmente contra a mulher .

i. Migração forçada, marcada por perseguições pautadas por falsas concepções religiosas .

j. Falta de apoio do Estado para o cuidado com as pessoas portadores de necessidades especiais e ineficiência de uma pastoral inclusiva, que não prima pela inclusão de pessoas com deficiências físicas ou psicológicas .

k. Decadência do papel educativo dos pais frente a exaustivas jornadas de trabalho, bem como, projetos pessoais dos pais que ferem a harmonia conjugal e familiar .

l. Toxidependência como fator destrutivo da família .
m. Mesmo reconhecendo várias situações de família, é um perigo uma simples equiparação ao matrimônio às uniões de fato e homoafetivas .

Para as doenças levantadas, alguns remédios também são apresentados:
a. Promover uma nova compreensão do valor da vida, dos princípios e valores que são indispensáveis para a formação da pessoa; promoção da pessoa frente ao utilitarismo, sendo urgente uma nova formação da consciência, para obter-se o resgate do que fora perdido, bem como, uma profunda e sólida conversão pessoal, capaz de influenciar de forma positiva a sociedade.

b. Assumir a família e seus valores como prioridade do anúncio do evangelho, fazendo, assim, um Marketing positivo da família e não impondo forçosamente uma realidade, mesmo que seja boa.

c. Constituir centros de apoio às famílias, principalmente que se encontram em situações difíceis;

d. Advertir sobre a decadência cultural que prima pela falência da família; sair da defensiva, sem deixar de defender, primando em apresentar o caminho da verdadeira felicidade.

e. Promover a defesa dos direitos das famílias tendo em vista dar às pessoas condições básicas para que possam constituí-las.
f. Possibilitar uma boa passagem daqueles que se encontram na reta final de sua jornada terrena.

g. Anunciar hoje o evangelho da Família; guiar os noivos no caminho de preparação para o matrimônio; promover o acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial; iluminar crises, angústias e dificuldades; acompanhar em momentos de luto.

7. Pastoral Familiar nos casos difíceis
Ao falar de situações difíceis, inevitavelmente vem-nos a imagem do Bom Pastor, aquele que vai ao encontro da ovelha perdida. O resgate das famílias, como já fora dito, requer clareza de sua realidade, tendo como fim prover ações eficazes e pontuais em prol do cuidado para com elas. As situações difíceis vividas pelas famílias nos dias atuais são diversas: de cunho econômico, político e social etc. É impossível falar de resgate sem saber o que e onde resgatar.

Dentre as situações já mencionadas, incluem-se os casamentos mistos, carentes de acompanhamento anterior e posterior à sua celebração, colocando em risco a parte católica ; os matrimônios ad experimentum, ou seja, uniões de fato, desprovidas de vínculos sacramentais e civis , sem perspectivas de durabilidade; matrimônios meramente civis ; separados e divorciados sem segunda união ; divorciados que contraíram segunda união ; os sem família ; homossexualidade e uniões homoafetivas e outras.

A Exortação Apostólica Amoris Laetitia, principalmente no capítulo VII, traz uma profunda explanação sobre o trabalho pastoral para com aqueles que participam da vida eclesiástica de forma incompleta e aqueles que foram excluídos dela. A Igreja, portanto, deve acompanhar com misericórdia esses casos irregulares , pois deve, mesmo diante das situações irregulares, valorizar as fagulhas, ainda que imperfeitas, dos elementos constitutivos do matrimônio.

Aos casamentos que possuem estabilidade, gozam de valores inerentes à natureza do matrimônio cristão, sendo passivos de se “sacramentarem”, devem ser acompanhados por um caminho que os leve ao sacramento . Mesmo os que não gozam de estabilidade, também devem ser acompanhados de perto. Da mesma forma, aqueles que são afetados por diversas culturas contrárias ao matrimônio, para que possam descobrir a beleza, o valor e o papel do matrimônio e da família perante a sociedade, levando-os à plenitude.

Tendo em vista a necessidade de sacramentar as uniões irregulares e passivas de regulamentação, deve-se ter cautela com a sacramentalização vazia, pois não basta sacramentar/legitimar; é preciso promover uma profunda catequese sobre o matrimônio, a família e a vida. Casais que amam e acreditam na família e no matrimônio vivem com plenitude o amor que os uniu, pois um amor à pessoa não se sustenta quando não encontra um amor à família.

Aos que vivem situações irregulares, que não são passivas de solução, caberá a Igreja reintegrá-los, pois a “caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita”, considerando sempre o sofrimento de cada um diante do modo que vivem . Mesmo que não vivam a plenitude da experiência cristã, é preciso ensiná-los a viver a fé diante de suas limitações . Mesmo fragilizados, são membros do Corpo de Cristo, podem ser integrados em diferentes serviços eclesiais, sempre tutelados pelo bom discernimento dos pastores .
Diante dessa necessidade de reintegrar os que se encontram às margens, é importante ter cautela com aqueles que assumem o pecado como modo autêntico e lícito de se viver, ou seja, negam o que fora apresentado pelo Evangelho e ensinado pela Igreja como ideal a ser perseguido. Uma coisa é sofrer pelas situações irregulares, outra coisa é querer legitimar o irregular. A esses, deve-se evitar dar-lhe funções catequéticas e pregações, podendo inseri-los, a juízo dos pastores, em serviços sociais e reuniões de oração.

Contudo, o texto não diz que tais funções possíveis são de coordenação ou não. Sendo assim, é de extrema importância, principalmente por parte dos pastores, fazerem um perfeito discernimento sobre cada caso, sempre considerando o bem da comunidade , pois em nome da reintegração não se pode colocá-la em risco.

O amor à Igreja e às verdades ensinadas devem tutelar todo processo de discernimento, pois pode-se correr o risco de usar de forma imoral o discernimento pastoral, colocando em cheque a integridade da Igreja e também do fiel . Para isso, é necessária uma preparação da comunidade, para que possa viver essa experiência com foco na misericórdia.

Ao se falar de discernimento pastoral, é importante salientar que cada caso deverá ser analisado individualmente, não significando um tratamento desigual, mas sim, uma equidade. A Exortação Apostólica Amoris Laetitia não visa trazer uma normativa comum, geral a todos os casos, ao contrário, prima pela particularidade de cada situação.

Mas além da preparação da comunidade, da necessidade de se ter um juízo singular sobre cada caso, é preciso que os pastores revisem o que é ensinado pelo Magistério, renovem sua convicção e fidelidade. Possibilitar um discernimento não dá o direito ao sacerdote de doutrinar e legislar por contra própria, não são autorizados as promoções de mudanças doutrinais e disciplinares. O processo de reintegração não significa aniquilar as limitações, mas sim, ensinar a caminhar, mesmo quando lhe falta algo.

Portanto, não basta reivindicar direitos, é preciso ter em mente que, mesmo em situações irregulares, as pessoas devem também sentir-se responsáveis pela defesa da família e do matrimônio, principalmente para com seus filhos. Devem ser acompanhadas, passando a ter consciência de sua situação, tendo juízo acerca das limitações consequentes, pois acompanhar e reintegrar não significa enganar.

 

Deve-se também considerar algumas situações irregulares que gozam de estabilidade, que geraram filhos e construíram uma dependência afetiva e econômica, dentre outros efeitos. A Igreja não pode cegamente orientar que tais situações sejam desfeitas, pois há muito que se considerar. Alguns tentaram salvar a primeira união e têm consciência de sua situação irregular . A defesa da moral e da doutrina não poderá ser cega, deverá considerar as particularidades de cada situação, pois é injustificável destruir um lar, privar filhos do convívio com os pais, colocá-los em situação de risco econômico em nome da defesa de um corpo doutrinal.

Um ponto digno de conflito foi claramente tratado no número 301, da Amoris Laetitia: “já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada « irregular » vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”. É importante salientar que o número 301 está inserido em um contexto que se refere a situações irregulares, não podendo ser lido isoladamente.

O próprio texto nos dá dicas para uma boa interpretação. De início, trata com clareza duas situações, desconhecimento da norma e dificuldade de entendê-la. Pois bem, esses dois casos são fáceis de discernir, pois a culpabilidade depende do conhecimento da norma e também do entendimento da mesma, logo, não dá para objetivamente afirmar que pessoas que se encontram nessa situação de ignorância ou de incapacidade de entendimento da norma, estão em estado de pecado mortal. Por isso, caberá a Igreja não só tornar a norma conhecida, mas também, entendida.

A dificuldade maior está na expressão “condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa”. Entendamos: quando se fala de condições concretas é importante mencionar, Familiaris Consortio, n 84, que traz situações que dificultam a separação dos cônjuges que vivem situações irregulares, da mesma forma o número 298 da Amoris Laetitia. É clara a intenção do texto em afirmar que o abandono das situações irregulares implicaria uma problemática com efeitos negativos ainda maiores. Mesmo tendo consciência da irregularidade, tais pessoas também são conscientes das consequências que o referido abandono traria, pois deixaria de cumprir graves deveres familiares.

Afirmar que pessoas que vivem algumas situações irregulares não se encontram em estado de pecado mortal não significa legitimar o pecado, mas sim, que há casos que, devido a situações singulares, algumas irreversíveis, são passivas de serem vistas com misericórdia, sem condenação direta ao inferno, pois nem todos que vivem em situações irregulares se encontram em pecado mortal, porém, todo pecado é grave, mas nem todo pecado grave é mortal, pois há situações que atenuam, não eliminam a gravidade, a culpa e a responsabilidade, mas atenuam.

Pode-se perguntar: – Não seria mais fácil desfazer as situações ilegítimas, possibilitando uma vivência plena da eclesialidade? A esse respeito já falamos acima, pois há situações que dificultam ou impossibilitam desfazer as situações irregulares. Uma solução, principalmente para os que se encontram em uniões conjugais ilegítimas, seria a abstenção dos atos próprios dos cônjuges , sem colocar em risco a integridade da família, da união conjugal e o bem da prole . Mas por que proteger uma união ilegítima? Dessas uniões ilegítimas surge a expressão de família, gera-se vida, cumplicidade, proteção, logo, são compostas por pessoas, cônjuges, filhos, que devem ser cuidados.

Diante do número 301, salientamos a necessidade de se ter a doutrina acerca da família e do matrimônio em mente, pois bem sabemos que o foco primário da Amoris Laetitia é a pastoralidade. Ao mesmo tempo em que reafirma a doutrina da família e do matrimônio, não se fecha os olhos para realidades denominadas difíceis.

Como Igreja, temos dificuldades de tratar algumas realidades de forma madura, inteligente, verdadeira e sem preconceito, como: homossexualismo, segundas núpcias, toxicodependência e outros. Pois bem, não há como negar que tais fatos são realidades nos dias atuais. É impossível fazer uma pastoral que não tenha em mente essas situações. Se não cuidamos dessas expressões de família, delas poderão ser geradas novas famílias irregulares.

A defesa da família, da vida e do matrimônio não inibe a acolhida de pessoas que se encontram em situações difíceis. Esse é o grande grito da Amoris Laetitia. Enquanto ficarmos na defensiva, não tratando dessas realidades como algo a ser cuidado por nós, seremos reféns das mídias sociais que tentam injetar na sociedade pensamentos contrários à vida, ao matrimônio e à família. Não basta condenar as mídias, fator necessário, mas é preciso também qualificar o discurso; seria negligência escolher a quem cuidar.

Se as pessoas que se encontram em realidades difíceis não encontram diálogo no meio eclesiástico, buscarão apoio no mundo secularizado, que fortemente demonstra-se contrário à vida, ao matrimônio e à família. Dialogar, reintegrar e cuidar não significa legitimar, tampouco negar a doutrina cristã , significa apenas ensinar a cada um viver a experiência religiosa, mesmo com limitações.

Os números 302 e 303 da Amoris Laetitia esclarecem ainda mais a problemática anterior, pois devido à particularidade de cada situação, encontramos também efeitos distintos. Deve-se considerar cada situação, ter consciência de que em alguns casos, a resposta que é dada por esses é a resposta que conseguem oferecer no momento, mesmo limitada, mas é o fruto que têm para entregar. Acolher os frutos limitados, não significa conformar-se com eles, pois caberá aos pastores conduzir aqueles que são passivos de solução à mudança e aos casos irreversíveis, como já fora dito, à reintegração, mesmo com limitações.

A problemática maior está quando se exigem frutos que as pessoas não conseguem oferecer. Não basta discernir se há ou não conformidade com a norma, pois a fidelidade a Deus não se reduz à fidelidade à norma. Não há aqui uma negativa de uma norma geral, tampouco canonização de uma experiência irregular, mas sim, a clareza de que mesmo que haja uma norma absoluta, não dá para afirmar que a infidelidade à norma por si só denota negação a Deus; a fidelidade a Deus não se reduz à fidelidade a norma.

Dentre os apelos da Amoris Laetitia já mencionados, destaca-se a insistência em deixar claro, que mesmo em situações difíceis, irremediáveis há possibilidade de se viver na graça. Isso não incentiva o relativismo, pois os que são passivos de mudanças devem ser conduzidos à regulamentação de suas vidas, mas os que não são passivos de mudanças, devem ser reintegrados e experimentarem como fruto da misericórdia de Deus, sua graça. Caberá ao pastor, com fidelidade, clareza e bom senso, indicar o caminho mais seguro. Deus não está apenas na plenitude, está também nas fagulhas.

Por fim, o grande desafio após Amoris Laetitia é não entender a reintegração mediante um bom discernimento pastoral como negativa da doutrina acerca da família e do matrimônio, pois a missão primária da Igreja é anunciar o ideal traçado por Deus, ideal esse que deve ser perseguido como caminho de santificação e realização humana. Um risco seria centrar apenas na reintegração e descuidar da propagação das verdades contidas na Revelação, firmemente anunciadas e defendidas pelo Magistério. A defesa da vida, da família e do matrimônio nunca poderá deixar feridos pelo caminho. A Igreja de Jesus Cristo é aquela que passa pelo caminho anunciando a verdade e ao mesmo tempo cuidando dos feridos que nele se encontram.

Problemática
Uma das problemáticas que envolve a Exortação Apostólica Amoris Laetitia é o acesso dos casais de segunda união ao Sacramento da Confissão e da Eucaristia. Pois bem, entendamos.

Umas das “frustrações” pós Amoris Laetitia é justamente a falta de respostas, de medidas concretas, de um manual do “pode” e “não pode”. Mas não podemos nos esquecer de que Amoris Laetitia ensina o contrário, ensina a equidade, ou seja, cada caso deve ser tratado singularmente. Acolher, acompanhar, discernir e reintegrar não significa responder e tampouco decidir por.

 

De um momento para outro se ouve falar de subjetividade. A Igreja, ao longo dos séculos, acostumou-se em “decidir por”, ou seja, em dizer ao fiel o que deve e o que não deve, substituindo sua consciência. Agora passa para o fiel o dever de escolher. Eis aí a questão, pois não é raro o momento em que os presbíteros são abordados pelos fiéis, que vivem em situações difíceis, perguntando: – Pode ou não pode?
Não caberá ao presbítero decidir, mas sim, acolher, acompanhar, discernir e reintegrar. Salientando que a reintegração, não necessariamente deve ser acompanhada pelo acesso ao sacramento. Porém, como já fora dito, estar em situação irregular não significa que não se está em estado de graça.

A esse respeito, é importante ter como orientação parte da Nota dos Bispos Argentinos sobre Critérios Básicos para a Aplicação do Capítulo VIII da Amoris Laetitia:
1) Em primeiro lugar, recordamos que não convém falar de “permissões” para aceder aos sacramentos, mas de um processo de discernimento acompanhado por um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).

2) Nesse caminho, o pastor deveria acentuar o anúncio fundamental, o kerigma que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).

3) O acompanhamento pastoral é um exercício da via caritatis. É um convite a seguir “o caminho de Jesus, o da misericórdia e da integração” (296). Esse itinerário reivindica a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, escuta-o atentamente e mostra o rosto materno da Igreja, ao mesmo tempo em que aceita sua reta intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a caridade (cf. 306).

4) Esse caminho não acaba necessariamente nos sacramentos, mas pode se orientar para outras formas de se integrar mais à vida da Igreja: uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração e reflexão, o compromisso em diversos serviços eclesiais etc. (cf. 299)

5) Quando as circunstâncias concretas de um casal a torne factível, especialmente quando ambos sejam cristãos com uma caminhada de fé, é possível propor o empenho de viverem na continência. A Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (cf. nota 329) e deixa aberta a possibilidade de aceder ao sacramento da Reconciliação quando se fracasse nesse propósito. (cf. nota 364, segundo o ensinamento de São João Paulo II ao Cardeal W. Baum, de 22/03/1996)

6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando não se pode obter uma declaração de nulidade, a opção mencionada pode, de fato, não ser factível. Não obstante, também é possível um caminho de discernimento. Caso se chegue a reconhecer que em um caso concreto há limitações que atenuam a responsabilidade e a culpabilidade (cf. 301-302), especialmente quando uma pessoa considere que cairia em uma posterior falta, prejudicando os filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Por sua vez, estes dispõem a pessoa a seguir amadurecendo e crescendo com a força da graça.

7) Contudo, é preciso evitar entender esta possibilidade como um acesso irrestrito aos sacramentos, ou como se qualquer situação o justificasse. O que se propõe é um discernimento que distinga adequadamente cada caso. Por exemplo, especial cuidado requer “uma nova união que vem de um recente divórcio” ou “a situação de alguém que reiteradamente fracassou em seus compromissos familiares” (298). Também quando há uma espécie de apologia ou de ostentação da própria situação “como se fosse parte do ideal cristão” (297). Nesses casos mais difíceis, nós, pastores, devemos acompanhar com paciência, procurando algum caminho de integração (cf. 297, 299).

8) Sempre é importante orientar as pessoas a se colocarem com sua consciência diante de Deus, e para isso é útil o “exame de consciência” proposto pela Amoris Laetitia 300, especialmente no que se refere a “como se comportaram com seus filhos” ou com o cônjuge abandonado. Quando houve injustiças não resolvidas, o acesso aos sacramentos é particularmente escandaloso.

9) Pode ser conveniente que um eventual acesso aos sacramentos seja realizado de maneira reservada, sobretudo quando se prevejam situações conflitivas. Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar de acompanhar a comunidade para que cresça em um espírito de compreensão e de acolhida, sem que isso implique criar confusões ao ensino da Igreja sobre o matrimônio indissolúvel. A comunidade é instrumento da misericórdia que é “imerecida, incondicional e gratuita” (297).

10) O discernimento não se encerra, porque “é dinâmico e deve permanecer sempre aberto a novas etapas de crescimento e a novas decisões que permitam realizar o ideal de maneira mais plena” (303), segundo a “lei da gradualidade” (295) e confiando na ajuda da graça. Somos antes de mais nada pastores. Por isso, queremos acolher estas palavras do Papa: “Convido os pastores a escutar com afeto e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender seu ponto de vista, para as ajudar viver melhor e reconhecer seu próprio lugar na Igreja” (312).

Por fim, a temática em questão ainda é passiva de entendimento. Mas bem sabemos que para que o casamento exista e seja válido, é preciso que esteja livre de impedimentos e vícios de consentimento, cumprindo todas as formalidades necessárias para sua validade. Assim, os casamentos afetados por impedimentos ou vícios que ferem sua validade são passivos de serem declarados nulos mediante o processo de Declaração de Nulidade.
A Igreja não anula casamento, mas sim, os declara nulos. Portanto, o processo de Declaração de Nulidade tem a função de declarar e não de anular. Mas para que se chegue ao veredito acerca da nulidade do casamento é preciso que esta seja comprovada mediante provas testemunhais e documentais. Não basta dizer, tem que provar.

Mas o que fazer com os casamentos que tem indícios de nulidades e não são passivos de provas? Nem todos os impedimentos e vícios são compartilhados em foro externo, muitos ficam em foro interno. Se a Igreja tem capacidade declarativa, quer dizer que a nulidade está na origem e não na declaração. Logo, há casamentos nulos e não declarados, pois não há provas que fundamentam o processo.

Diante disso, o que fazer?
Quando há uma certeza moral, porém não comprovada processualmente, há impossibilidade de contrair novas núpcias, pois o que viabiliza novas núpcias não é a certeza moral, mas sim, a declaração de nulidade mediante processo de Declaração de Nulidade. Mas seria viável privar tais pessoas do acesso ao sacramento quando se tem uma certeza moral e não processual? Uma pergunta de difícil resposta.

8. Resumidamente a Amoris Laetitia nos diz
A defesa do matrimônio, da família e da vida é missão singular e primária da Igreja, não há como esquivar-nos desse compromisso. Mas ao mesmo tempo que é urgente a defesa da doutrina acerca do matrimônio, da família e da vida, faz-se necessário também entender que existem pessoas que vivem em situações difíceis, que não conseguem dar uma resposta plena a Deus. Tais respostas não podem ser descartadas, pois pode ser o fruto possível que conseguem oferecer.

Papa Francisco, portanto, ao mesmo tempo que nos traz um compêndio da doutrina acerca do matrimônio e da família, não foge da realidade. Ao mesmo tempo que reafirma a doutrina da Igreja, convida-nos a uma conversão pastoral. Mas sabiamente nos diz o Documento de Aparecida, é mais fácil manter que mudar. Uma pastoral voltada para família não poderá esquecer-se daqueles que se encontram às margens das normas. Para isso, deverá encontrar caminhos seguros para a reintegração.

Àqueles que buscam solução para as situações difíceis, que geralmente exigem uma fórmula mágica, deverá ser indicado um caminho ao encontro com Cristo . A reintegração parte desse encontro com Cristo, precedido por uma acolhida que não exige mérito. Da acolhida surge a necessidade do acompanhamento; não basta abrir as portas, é preciso indicar o caminho, auxiliar para que possam chegar à integração. Para uma perfeita acolhida, será preciso qualificar nossas estruturas, criando a capacidade de acompanhar, ouvir e aconselhar.

Uma perfeita reintegração exige um discernimento não condicionado por pensamentos contrários à verdade que professamos. Deve considerar a singularidade de cada pessoa. Para isso requer tempo, dedicação e paciência.

Dar o sacramento não é sinônimo de reintegração. Mesmo os casos mais difíceis são passivos de reintegração, considerando sempre o bem dos fiéis e da comunidade, sempre pautada pelo bom senso dos pastores.

Portanto, tendo em vista um bom discernimento dos pastores, o comprometimento com a comunidade e o testemunho de vida cristã pode-se admitir pessoas que vivem situações difíceis, quer seja como padrinhos de batismo, catequistas, agentes da pastoral familiar, leitores, considerando sempre o bem da comunidade. Mas, considerar o bem da comunidade não implica deixá-la na ignorância; deve-se formá-la para essa realidade.
Os centros de assistência às famílias seriam uma importante ferramenta de acolhida e reintegração das famílias em situações difíceis, bem como de manutenção das famílias que vivem situações legítimas, podendo ser regionais, diocesanos ou paroquiais, lugares de livre acesso a todos.

Aos casos passivos de solução, caberá à Igreja, mediante a Pastoral Familiar, apresentar as ferramentas de solução. Aqueles casamentos ilegítimos, passivos de declaração de nulidade, deverão ser encaminhados às Câmaras Eclesiásticas ou Tribunais Eclesiásticos, para uma possível declaração de nulidade. Para esse fim, é importante que os agentes de pastoral estejam devidamente instruídos sobre os aspectos jurídicos do casamento, orientando com segurança os cônjuges interessados em regulamentar suas situações.

9. Implantação, reimplantação e manutenção da Pastoral Familiar
Ante de tudo, é importante relembrar o que já fora dito: a Pastoral Familiar, deve sempre beber em fontes seguras, principalmente no Magistério da Igreja. A Igreja, através de seus organismos, consegue fazer uma leitura da sociedade, bem como da história, oferecendo remédios para uma sociedade que se encontra doente.

Dito isso, ressalto o perigo do projetismo, ou seja, a multiplicação de projetos que até podem ter boas intenções, mas correm o risco de multiplicar ideias e não contemplar o que prescreve a Igreja. Um bom projeto é aquele que tende a perpetuar. Maus projetos promovem até uma boa movimentação e atratividade, mas com prazo de validade muito curto, passando da euforia ao desânimo e consequente frustração. Os remédios para os dias atuais não podem ser paliativos, devem ser remédios capazes de mudar as estruturas doentes e mantê-las vivas.

Não podemos calar a voz de Deus que quer nos mover rumo às mudanças necessárias para maior eficácia e efetividade do Evangelho no mundo. Mas as mudanças que Deus impulsiona não são mudanças aliadas ao modismo, tampouco à vontade coletiva. São mudanças alicerçadas na verdade que já foi anunciada por Cristo e propagada pela Igreja. Não há o que falar de uma nova mensagem, de um novo evangelho, mas sim, de um novo jeito de ser e viver o que já fora revelado e ensinado. A verdade já conhecemos, basta atualizar o jeito de vivê-la.

Portanto, quando falamos de Pastoral Familiar, nos dias atuais, deve-se considerar o que é anunciado pela Palavra e ensinado pelo Magistério, mas não se pode desconsiderar a realidade social. Nos deparamos com correntes pastorais que se fixam apenas no que fora revelado e anunciado, desconsiderando a realidade, outras que desconsideram o que fora revelado e ensinado se fixando apenas na realidade. Dois extremos perigosos.

Implantação
Caberá ao Arce/Bispo, Assessor Eclesiástico e ao Pároco escolher dentre seus diocesanos e paroquianos, de “preferência” casais, de boa índole, para compor o Núcleo da Pastoral Familiar arqui/diocesano e paroquial, que será composto pelos seguintes cargos: Coordenador Geral, Vice-Coordenador Geral, Casal Casos Especiais, Casal Setor Pós-Matrimônio, Casal Setor Pré-Matrimônio, Casal Secretário e Casal Tesoureiro. Suas funções já estão determinadas pelo Regimento Interno Arqui/Diocesano da Pastoral Familiar em comunhão com o Regimento Regional da Pastoral Familiar.

Será de responsabilidade do Núcleo da Pastoral Familiar Paroquial Arqui/Diocesano e Paroquial, pensar os trabalhos em defesa da família e da vida a níveis arqui/diocesanos e paroquiais, bem como fazer a ligação com todos os movimentos e serviços em favor da família e da vida. Não é objetivo da Pastoral Familiar excluir outros segmentos que trabalham a família, mas sim, fazer a ligação entre ambos, promovendo a tão sonhada Pastoral de Conjunto.

Sem perder a identidade e as características específicas de cada movimento e serviço, é importante promover ações conjuntas entre todos os segmentos já citados, dando força à voz em favor da família. Muitos gritam, mas gritam sozinhos.

O primeiro passo para a implantação da Pastoral Familiar é o conhecimento do que fora revelado por Deus e ensinado pela Igreja. A formação, é o primeiro passo, pois um agente de pastoral bem formado torna-se um multiplicador do Evangelho. Porém, falar de formação em uma cultura que não prima pela educação e pela leitura é um desafio. Para isso, caberá aos formadores, principalmente ao Núcleo de Formação e Espiritualidade, promover o primeiro contato dos agentes de pastoral com a doutrina sobre o matrimônio, de forma simplificada em alguns casos, sem minimizar a verdade.

Tendo iniciado o processo formativo, deve-se promover a dimensão espiritual do agente. É o segundo passo, pois o agente deverá encontrar sentido na doação, ou seja, a defesa da família deve possibilitar ao agente o encontro com Deus. Cuidando da família somos cuidado por Deus. Uma pastoral familiar bem formada, mas sem espiritualidade, será uma pastoral infecunda.

Tendo constituído o Núcleo da Pastoral Familiar, promovida a formação e a espiritualidade, é chegada a hora de conhecer a realidade: terceiro passo. Essa fase da implantação é de grande importância, pois quando se fala em implantação, de imediato se constitui ou se tenta constituir o Núcleo, se forma ou se tenta formá-lo, cria-se uma estrutura ou se tentar criar, porém, em alguns casos ela é infértil. A fertilidade da Pastoral Familiar se dá mediante o conhecimento da realidade. Em realidades mais difíceis, carentes de material humano, ouso dizer que o conhecimento da realidade talvez deva ser o primeiro passo, antecedendo ao passo de composição do Núcleo. Isso porque algumas realidades não favorecem à composição da estrutura ideal da Pastoral Familiar.

Mas Pastoral Familiar é Pastoral Familiar mesmo quando não se enquadra nos moldes estruturais, não por negligência, mas por insuficiência de material humano. Não se pode privar uma comunidade, mesmo as mais longínquas e periféricas, de se ter a Pastoral Familiar porque não tem estrutura favorável.

É muito fácil pensar uma Pastoral Familiar para os grandes centros. O desafio é pensar a Pastoral Familiar para as regiões periféricas, para as comunidades que vivem situações difíceis. A Familiaris Consortio e o Diretório da Pastoral Familiar trazem uma estrutura ideal para a composição da Pastoral Familiar. Deve-se insistir ao máximo em sua efetivação, mas não se pode desistir de ser Pastoral Familiar quando não se conseguir concretizar o ideal. Deve-se conhecer a realidade da comunidade, pensar no que fazer para melhorá-la, para melhor cuidar das famílias, dos jovens, preparando-os para a vida e para o matrimônio, dos recém-casados, dos casados de longa data, das viúvas, dos solteiros, dos casos especiais. A estrutura favorece o cuidado, mas é o amor pela família que promove seu cuidado e transformação.

Portanto, independente de o conhecimento da realidade ser o primeiro ou terceiro passo do processo de implantação, o que é certo é que não há como fazer Pastoral Familiar sem conhecer a realidade. Uma paróquia fecunda, bem como uma pastoral fecunda é aquela que participa da vida do povo, como sabiamente nos diz o Papa Francisco “A Paróquia tem que estar em contato com os lares, com a vida das pessoas, com a vida do povo. Devem ser casas onde a porta esteja sempre aberta para ir ao encontro dos demais. É importante que a saída ofereça uma clara proposta de fé. Trata-se de abrir portas e deixar que Jesus saia com toda a alegria da sua mensagem. Peçamos por nossas paróquias, para que não sejam escritórios, mas que, animadas pelo espírito missionário, sejam lugares de transmissão da fé e testemunho da caridade ”. Esta é a Pastoral Familiar que deverá ser implantada nas Arqui/Dioceses e Paróquias, deve participar da vida do povo, fazer-se presente em todos os momentos de uma família, nas alegrias e também nos momentos difíceis.

Não há uma receita única para a implantação, há sim, uma exigência única: sentir o cheiro do povo, para fazer uma Pastoral Familiar para o povo. Este é um dos grandes legados da Amoris Laetitia, que não descuida da estrutura, mas que conclama a Igreja, a Pastoral Familiar, a inserir-se na realidade de cada comunidade e a partir dessa realidade pensar nos remédios para curá-la. Porém, não basta pensar os remédios é preciso acompanhar o doente.

Tendo constituído o Conselho Geral, ou Núcleo, iniciado o processo formativo, alicerçado na espiritualidade, tendo conhecido a realidade, é chegada a hora de projetar a Pastoral Familiar para o quarto passo, em níveis, propondo ações pastorais sóbrias, possíveis e realizáveis, que correspondam à realidade, que primem pelo cuidado com o povo, a família e a vida.

Reimplantação
Seria mais fácil falar em implantação, pois começar do zero seria mais fácil. Mas não podemos esquecer das comunidades que, um dia, já tiveram a Pastoral Familiar e hoje se encontram inativas.

Para as comunidades paroquiais que já tiverem a Pastoral Familiar e hoje estão inativas não basta começar do zero, é preciso entender o porquê de não ter dado certo, identificando quais os erros, os vícios cometidos, para depois iniciar o processo de reimplantação.
Tendo identificado as dificuldades que levaram à inatividade da Pastoral Familiar, iniciam-se as mesmas etapas do processo de implantação, cuidando para não cometer os mesmos erros.

Manutenção e motivação
Implantar ou reimplantar é um desafio, mas desafio maior é manter viva e motivada a Pastoral Familiar.

Bem sabemos que o auxílio das ciências, principalmente as humanas, é importante à pastoral. Mas em tempos que se atribui à Psicologia o papel de salvadora da pátria é importante lembrar que técnicas de convívio social, de autoconhecimento e de solução de conflitos por si só não são suficientes para prevenir dificuldades ou motivar os agentes de pastoral. Os livros de autoajuda, de técnica de convivência e solução de conflitos são o grande carro chefe das livrarias, mas como explicar que mesmo com tantos escritos ainda continuamos em declínio? A resposta está no esvaziamento das capelas do Santíssimo, na diminuição de Eucaristias comungadas nas missas, no encolhimento das filas de confissão.

Não se faz Pastoral Familiar apenas com livros ou com técnicas. Pastoral Familiar se faz com Adoração, Comunhão e Confissão, bem como outros gestos de piedade popular. Um agente de Pastoral Familiar se manterá motivado se encontrar na fé cristã e nas vias de santificação sua principal motivação.

Fala-se muito de pastoral, mas esquece-se de que não se faz pastoral sem martírio. Tornar-se agente de pastoral, principalmente coordenador, implica assumir o ônus. Mas quando se vivem as dores pastorais em Deus, se suporta, se cresce, se ganha o céu.
Por fim,
É possível incluir sem relativizar.
É possível colher bons frutos de árvores quebradas.
É possível amar o matrimônio e a família, mesmo que minha experiência não tenha dado certo.
Não ter dado certo, não significa que o Bem deixou de ser um bem, mas sim que situações e escolhas impossibilitaram viver com plenitude o que foi assumido.