“Vem Senhor não tardes mais”

I Domingo do Advento (Mt 24,37-44)

Por Dom Jeová Elias, Bispo de Goiás

Iniciamos, neste domingo (30/11/2025), o tempo sagrado do Advento, um novo ano na nossa liturgia. A palavra “Advento” significa vinda, chegada. É um tempo de alegre expectativa pela vinda do Senhor, que se estenderá ao longo destas quatro semanas. Durante esse período, preparamos nossos corações para acolher o Filho de Deus feito homem, Aquele que vem para resgatar a humanidade de sua fraqueza e devolver-lhe a dignidade perdida com o pecado.  Ao longo deste novo ano litúrgico, seremos conduzidos e iluminados pelos textos do evangelista Mateus.

A liturgia do Advento desdobra-se em dois períodos: até o dia 16 de dezembro, com foco na preparação para o encontro definitivo com Jesus; de 17 a 24 de dezembro, convidando-nos à preparação imediata para a celebração do Natal. No primeiro período, destaca-se a figura do profeta Isaías e a pessoa do profeta João Batista, que representam a expectativa humana pela vinda do Messias. Já no segundo, destaca-se a figura de Maria, em quem o Verbo de Deus se fez carne. É, portanto, tempo de piedosa e alegre expectativa pela vinda do Senhor.

Contudo, essa expectativa pelo Messias prometido não pode ser uma atitude passiva. Ela é, antes de tudo, um esperançar. Não se trata de ficarmos parados, de braços cruzados, mas de fazer acontecer a hora de Deus. É ter a coragem de transformar os sinais do antirreino; é correr atrás dos sonhos de um mundo melhor e nunca desistir deles; é juntar nossas mãos a outras mãos e somar forças na busca da concretização dos ideais semeados por Jesus.

A esperança, marca distintiva da espiritualidade deste tempo litúrgico, não é sinônimo de omissão ou indiferença. É algo profundamente positivo, que nos anima, nos impulsiona para o futuro e nos sustenta na caminhada, mesmo quando o presente é marcado por adversidades. As dificuldades e provações que enfrentamos diariamente não devem matar nossos ideais e sonhos, nem semear o desespero no nosso coração. Pois, como canta Ivan Lins, “desesperar, jamais. Aprendemos muito nestes anos. Afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo. Nada de correr da raia, nada de morrer na praia”.

A esperança, mais do que uma virtude humana, é dom de Deus infundido em nossos corações. Ela é o fio condutor da nossa vida e nos ajuda a peregrinar com os pés no chão da nossa história e o coração voltado ao Senhor que vem. Nunca percamos o esperançar! 

A vinda definitiva de Jesus ao encontro de cada pessoa é uma certeza inabalável que temos, ainda que desconheçamos o momento em que se dará. Enquanto esse dia não chega, devemos permanecer em estado de vigilância ativa, conformando nossa vida aos seus ensinamentos.

Para manifestar a certeza da vinda do Filho do Homem, embora em tempo indeterminado, Mateus recorre a três comparações, convidando as pessoas a se prepararem: A primeira é com a humanidade no tempo de Noé, imersa numa vida despreocupada e superficial, surpreendida pelo dilúvio. A segunda, com os trabalhadores tão absorvidos em suas tarefas que negligenciam aspectos importantes da vida. A terceira, com o dono da casa que, confiante, adormece sem temer a possibilidade de ser roubado. Quem crê em Jesus não pode adormecer e desperdiçar a oportunidade de acolhê-lo, nada deve distrair a atenção de quem acredita nele. 

Vigilância é ter a prontidão serena de um discípulo para fazer sempre o bem, sem desperdiçar seu tempo em coisas inúteis, priorizando os gestos de amor. É ter a sensibilidade para perceber e acolher em cada pessoa que cruza o nosso caminho, especialmente as do nosso cotidiano e as mais fragilizadas, o próprio Jesus Cristo. Quem crê nele deve reconhecer a relatividade das coisas e o absoluto de Deus, que “Tudo passa, só Deus basta” (Santa Teresa). Não pode deixar-se distrair com os bens temporais, nem viver obcecado com eles, colocando-os no lugar de Deus.

Neste tempo gracioso do Advento, sejamos, portanto, “Peregrinos de Esperança”, em plena sintonia com o Ano Jubilar. Estejamos atentos para recuperar o olhar contemplativo e a sensibilidade para escutar na Palavra proclamada, no silêncio do nosso coração e nos fatos da vida, a voz do Senhor, que nos fala de diversas maneiras. Reconheçamos sua presença na nossa caminhada, que tantas vezes passa despercebida.