Para Jesus, reinar é servir

Reflexão para a Solenidade de N. Sr. Jesus Cristo, Rei do Universo (23/11/2025)

Neste último Domingo do Tempo Comum, celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, que coroa e encerra este ano litúrgico. No entanto, Jesus nunca nutriu o desejo de ser rei, mas sim servo. Sua afirmação: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45) comprova isso. O título real lhe foi imposto pela autoridade romana, fixado no letreiro de sua cruz: “Este é o Rei dos Judeus” (Lc 23,38).

Com certeza, Ele veio instaurar um reinado, mas radicalmente distinto dos reinos temporais: exercido no amor, no serviço, no perdão e no total dom da própria vida. Seu Reino, como aclamamos no prefácio da Missa, é “eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”.

Jesus é um rei diferente, que entra em nossa história na simplicidade do barraco de um carpinteiro, não no esplendor de um palácio. Seu trono é a cruz; sua coroa, de espinhos. Os companheiros que ladeiam seu “trono” são dois condenados. Os dois discípulos que ambicionavam sentar-se à sua direita e à sua esquerda sumiram na hora da prova (cf.  Mc 10,35-40). O lugar ao seu lado na glória da cruz estava reservado por Deus a outros dois (cf. Mc 10, 40).

Os Evangelhos não permitem, em hipótese alguma, identificar Jesus com poder político, com a autoridade temporal ou realeza terrena. Tampouco os escritos e pinturas primitivos. Entre as pinturas mais antigas, descobertas no século III nas catacumbas de São Calisto, em Roma, encontra-se a imagem terna e acolhedora de Jesus como Bom Pastor, não como rei.

Embora sem ambicionar ser Rei, desde seu nascimento Jesus incomoda os sedentos de poder. Ainda recém-nascido, o prepotente Herodes decreta a sua morte (cf. Mt 2,16-18), que se concretizará sob a condenação de outro tirano: Pilatos, o único que O ouviu assumir que era Rei, mas de um reino diferente (cf. Jo 18,37)). Sua mensagem continua a incomodar os gananciosos que resistem ao seu projeto de amor e fraternidade, de um mundo mais igualitário. 

O poder fascinou a muitos ao longo da história. Tantos não conseguiram resistir ao seu encantamento. O próprio Jesus foi tentado, mas, diferente de muitos, resistiu (cf. Mt 4,8-10). Até seus apóstolos foram contaminados pelo fermento dos fariseus (cf. Mc 10,35-37). Essa tentação é atual no seio da nossa Igreja, numa chaga combatida pelo papa Francisco, chamada “Clericalismo” e no “Carreirismo”, presente no coração de alguns presbíteros e bispos, bem como de muitos leigos.

Aos discípulos que disputam o poder, Jesus adverte: “Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20,25-27). Jesus, embora Mestre e Senhor, ocupou o último lugar, indo até à morte de cruz. Ao despedir-se, na última Ceia, comprova com um gesto simbólico o que fez ao longo da vida: lavou os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,4-17). Contudo, ninguém lhe tirará esse lugar.  

Por causa da busca distorcida do poder político, para dominar e não para servir, muitos assassinatos injustos são cometidos. Os poderosos, que permanecem em seus palácios, enviam jovens soldados ao combate para morrer ou matar um “inimigo”, cujo nome desconhecem. Cidades são destruídas, vidas são arruinadas, e a devastação vergonhosa permanece como uma ferida que nunca cicatriza. A sede de dominar o mundo, presente no coração dos prepotentes, é insaciável.

Entre os discípulos de Jesus não deve ser assim (cf. Mc 10,43).

Na solenidade de N. Sr. Jesus Cristo, Rei do Universo, celebramos o Dia Nacional do Leigo e da Leiga, pessoas que, pelo sacramento do Batismo, mergulham no mistério pascal de Jesus e participam da sua realeza, dispondo generosamente a vida a serviço do seu Reino, especialmente sensíveis aos que mais necessitam. Agindo assim, como lembra o Evangelho, serão felizes (cf. Jo 13,17) e “sinais de esperança no mundo”.

A você, leigo e leiga, que nas pastorais e movimentos, nos hospitais, nas escolas, nos escritórios, nas periferias e nas árduas tarefas diárias, com fé e amor doa seu tempo para a construção do Reino de Deus, o nosso muito obrigado!

Dom Jeová Elias, bispo de Goiás