Domingo de Ramos da paixão do Senhor | Mt 27, 11-54
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
A celebração deste domingo apresenta a profunda contradição humana: primeiro, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, com os discípulos gritando alegremente: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! ” (Mt 21,9). Depois, a paixão, a multidão manipulada pelas lideranças religiosas judaicas que grita: “crucifica-o, crucifica-o!” (Mt 27,22-23), optando pela libertação de um homicida em vez de Jesus (v. 21).
Mateus menciona que os sumos sacerdotes e os anciãos faziam muitas acusações contra Jesus, mas não as especifica. Essas pessoas representam o poder religioso e o poder econômico, que pressionam o poder político a condenar Jesus à morte. São pessoas “religiosas” que apresentam falsas acusações. A religião que defendem não está a serviço dos mais pobres, mas da manutenção da injustiça. Quem propõe um modelo diferente deve ser calado. Mateus destaca que Pilatos sabia que o denunciavam e desejavam sua morte por inveja (v. 18). Jesus permanece em silêncio diante das interrogações, deixando Pilatos impressionado (v. 14), pois era incomum um réu não se defender na iminência da morte.
Há alguns pormenores exclusivos de Mateus: o sonho da mulher de Pilatos, que lhe envia um recado para que não se envolva com aquele justo, pois sofrera muito à noite por causa dele (v. 19); Pilatos que lava as mãos como expressão da inocência de Jesus e da isenção de responsabilidade, fazendo supor que a culpa pela morte de Jesus não é dos romanos, mas dos judeus.
Embora os pagãos reconheçam a inocência de Jesus, seu povo o rejeita dizendo: “que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos” (v. 25). São exclusivos de Mateus os fenômenos que ocorrem no momento da morte de Jesus: o rasgar-se da cortina do templo, o terremoto e a ressurreição dos santos, prefigurando a libertação da morte, fruto do sacrifício redentor. Esses sinais mostram que a morte de Jesus não foi um fracasso, pois trouxe libertação para o seu povo.
Para Mateus, Pilatos tenta libertar Jesus ao apelar para o indulto da Páscoa. Ele imaginava que as pessoas prefeririam a liberdade de Jesus e não de Barrabás; contudo, enganou-se. Pilatos lava as mãos dizendo não ter responsabilidade por aquela condenação. Ele poderia não ter permitido tamanha injustiça.
Após a condenação, Jesus sofre várias humilhações: retiram suas roupas e o vestem com um manto vermelho, colocam uma coroa de espinhos na sua cabeça e uma vara na mão, como zombaria. Os soldados cospem nele e batem na sua cabeça. Além dos soldados, também as pessoas que passavam o insultavam (vv. 39-40). Os sumos sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos igualmente zombavam dele (vv. 41-43). Mateus afirma que até os dois ladrões o insultavam. Eram humilhações injustificáveis contra quem amou e desejou um mundo amoroso.
Mateus retrata com tristeza a agonia e a morte de Jesus. Diz que desde o meio-dia até as três horas da tarde houve escuridão sobre toda a terra (v. 45), quando Jesus grita: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? ” No grito de Jesus ecoa o grito dos injustiçados. Mateus narra um último grito de Jesus, entregando sua vida nas mãos de Deus. Uma vida doada por amor, que recebe desamor e morte. Os primeiros a reconhecer sua filiação divina não foram os religiosos judeus, mas um oficial e alguns soldados romanos: “Ele era mesmo Filho de Deus” (v. 54).
Meus amigos e minhas amigas, neste Domingo realizamos a Coleta da Campanha da Fraternidade, cujo tema é “Fraternidade e Moradia” e o lema: “Ele veio morar entre nós”. Aquele que veio morar no meio do seu povo, não teve casa (cf. Mt 8,20) nem sequer um túmulo próprio e foi crucificado fora dos muros de Jerusalém, convida-nos a ser solidários com quem não tem uma residência digna. Faça sua oferta com generosidade e alegria, sabendo que ela terá uma importante destinação.
Desejo que você e sua família vivenciem profundamente os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que celebraremos ao longo desta semana.
Desça sobre você e sua família a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!





