Escutar, caminho para a transformação

Neste segundo domingo da Quaresma, o Evangelho de Mateus apresenta o texto da transfiguração do Senhor, mostrando Jesus como o novo Moisés e o Profeta que inaugura o Reino de justiça.   

Mateus afirma que Jesus subiu à montanha levando consigo três apóstolos: Pedro, Tiago e João. Este era o número exigido para testemunhar um fato importante (cf. Dt 19,15; Mt 18,16). Lá no alto, Jesus se transfigurou diante deles: “o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (v. 2). Essa mudança em sua aparência é uma antecipação da glorificação que Ele experimentará após a morte na cruz. É como se Deus desse aos apóstolos uma amostra da vitória final, para que não desanimassem diante das provações e perseguições que sobreviriam.

A transfiguração é uma nova maneira de entender o passado e atualizar o seu sentido. Alguns elementos do Primeiro Testamento estão presentes com seu simbolismo: a montanha, que recorda o monte onde Moisés subiu para fazer a Aliança com Deus; Moisés e Elias, que representam a Lei de Deus e o profetismo. Agora, Jesus é o novo Moisés, o novo Libertador, que traz a nova lei do amor.  Ele é, por excelência, o autêntico Profeta que denuncia as injustiças e anuncia a misericórdia de Deus; a nuvem, que se destaca nas manifestações de Deus no Primeiro Testamento: sinal da sua proteção ao povo que saía da escravidão no Egito, fazendo-lhe sombra no deserto durante o dia e iluminando-lhe o caminho durante a noite rumo à terra prometida; as tendas, que evocam a presença de Deus junto do seu povo peregrino (cf. Ex 33,7-10), animando sua caminhada.

A transfiguração é, ainda, uma abertura para o futuro, com o convite para escutar a Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o! ” (v. 5). Jesus é a Palavra viva, encarnada, o Filho amado de Deus, que deve ser ouvido.

Pedro, em êxtase contemplativo, é tentado a eternizar o momento de glória, a não descer à terra. Sua atitude simboliza o risco de uma fé desencarnada, alheia aos problemas humanos. Ele almeja permanecer na religião do brilho e da glória. Contudo, Jesus o convida a não ter medo (v. 7), a descer e a se comprometer doando a própria vida pelo Reino. A fé verdadeira, portanto, é uma injeção profética de ânimo e esperança, que nos impulsiona a ir ao encontro do outro e a transformar a realidade sofrida em que se encontram muitos irmãos.  

O convite a escutar Jesus ressoa forte neste tempo de conversão. Na mensagem para a Quaresma deste ano, o papa Leão fala sobre a importância do “escutar” e do “jejuar”. Em primeiro lugar, convida-nos a escutar com atenção a Palavra, o que desperta também o desejo de entrar em contato com o outro. A escuta é um distintivo do próprio Deus, que não fica indiferente ao sofrimento do seu povo escravo no Egito (cf. Ex 3,7). A escuta da Palavra na liturgia educa nossos ouvidos para escutar também o grito das pessoas que sofrem com as injustiças, “para que não fique sem resposta”.

Com a Campanha da Fraternidade desta Quaresma, a Igreja convida-nos a abrir os olhos e ouvidos para perceber o sofrimento de quem não dispõe de um teto para morar. No Brasil, seis milhões de famílias necessitam de moradia; outras vinte e seis milhões de famílias moram em situação inadequada, e mais de trezentas mil pessoas vivem na rua (cf. Texto-base CF 2026, n. 30). Esse direito humano fundamental, base para a efetivação dos demais direitos humanos, é negado a esses milhões de irmãos. A muitos pobres sobraram os morros para construir suas moradias. No alto em que estão, gritam por dignidade. Em cada um deles ressoa a voz vinda da nuvem: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o! ” (v. 5).

Portanto, escutemos o Senhor! Subamos à montanha para o encontro bonito e profundo com o nosso Deus. Mas desçamos a montanha para o encontro solidário, fraterno e amoroso com os nossos irmãos e irmãs, em quem podemos ter a experiência concreta da presença de Jesus Cristo.

II domingo da Quaresma | Mt 17,1-9
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás