Deus não está preso em templos: Ele habita na vida do seu Povo

Celebramos, neste domingo (09/11/2025), a Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão, nossa primeira catedral. Este marco histórico, iluminado pelo Evangelho (cf. Jo 2,13-22), nos convida a refletir sobre o valor dos templos de pedras e sobre o verdadeiro Templo de Deus, que é o próprio Corpo de Jesus (cf. Jo 2,21). A revelação bíblica, desde o Primeiro Testamento, apresenta um Deus que anseia habitar no coração vivo de seu povo. Ele não quer ser preso em templos, como já questionava o profeta Isaías: “O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (Is 66,1-2). Ele prefere morar no coração do pobre e contrito, que o respeita (cf. Is 66,2).  

Esta verdade já ecoava na longa caminhada do povo de Israel. O Deus de Abraão, Isaac e Jacó é um Deus livre e peregrino. Ele não habitava um palácio, mas caminhava com seu povo pelo deserto, como atesta o livro do Êxodo: “O Senhor ia à frente deles, de dia numa coluna de nuvem para os proteger e guiar; de noite, numa coluna de fogo, para os iluminar, a fim de que caminhassem de dia e de noite (Ex 13,21). Sua presença não era fixa em um santuário de pedras, mas em uma Tenda do Encontro, um santuário móvel, onde Moisés dialogava com Ele, “como um homem fala com seu amigo” (cf. Ex 33,11). O Deus libertador, que faz aliança com seu povo, não se deixa aprisionar, caminha no meio do povo, abre caminho e o guia à terra prometida.

Foi o rei Davi quem concebeu a ideia de construir um templo fixo para Jahweh, afirmando ao profeta Natã: “Vê: eu resido num palácio de cedro, enquanto a “Arca de Deus” está alojada numa tenda” (2Sm 7,2). Davi desejava edificar uma casa de cedro, imponente e permanente, para “prender” simbolicamente a presença divina em um templo e centralizar o culto. Um projeto humano, compreensível, mas que Deus respondeu através do profeta Natã, questionando essa pretensão e afirmou que, ao contrário, o próprio Deus construiria uma casa para o seu povo (cf. 2sm 7,5-7). Deus não pediu uma morada fixa. Mesmo assim, Salomão, filho de Davi, empreendeu a tarefa de erguer o primeiro Templo de Jerusalém (cf. 1Rs 5-6). Em última análise, isso representava a tentativa de domesticar o Divino, de confiná-lo a um território seguro, controlável e de poder: religioso, econômico e político.

A cena do Evangelho de João (cf. Jo 2,13-22), é a resposta definitiva a essa tentativa. O próprio Jesus assume a liberdade divina: Ele não se restringe ao templo ou às Sinagogas, mas prega onde o povo sofrido está em busca de conforto e esperança. Como judeu peregrino, Jesus vai ao Templo e, diante de seu mau uso, irrompe em santa indignação contra a transformação daquele local sagrado “em casa de comércio” (Jo 2,16). Ao    expulsar vendedores e cambistas, sua ira não é contra a religião em si, mas contra sua utilização para explorar os pobres, que compravam pombas para o sacrifício. A religião havia se tornado negócio lucrativo para os poderosos.

Aquele Templo de pedra, esplêndido e imponente, foi destruído pelos romanos no ano 70. Jesus, porém, já o havia relativizado em sua suntuosidade. Para Ele, o verdadeiro templo é seu próprio corpo, e nós, seu corpo místico. São Paulo reafirma esta verdade de forma incisiva: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3, 16). A morada de Deus, portanto, não se restringe a um lugar sagrado, Ele habita, sobretudo, no coração humano, aberto à ação do Espírito Santo.

As belezas arquitetônicas, embora possam manifestar o Sagrado, são insuficientes para expressar a glória divina. Os ritos realizados nos templos, cujo valor reconhecemos, também não bastam para agradar a Deus. Pois, como ensinava Santo Irineu, “a glória de Deus é o ser humano pleno de vida”. Ele não se comove com sacrifícios de animais, nem se deixar comprar por ofertas, mas se alegra, sobretudo, com a vida digna de seus filhos e filhas.

Infelizmente, ainda hoje testemunhamos distorções. Há quem reduza a fé a ritos vazios, que se alienam do mundo e se mostram alheios ao sofrimento dos pobres. Há quem, em nome de Deus, justifique injustiças ou até mesmo a morte. Há quem transforme os templos e as religiões em mercado lucrativo. O papa Francisco nos adverte contra esta “Igreja da sacristia”, que prefere a segurança dos muros ao risco da missão.

Nossas igrejas de pedra são importantes como espaços de encontro, celebração e fortalecimento da fé. Mas elas nunca podem se tornar gaiolas para Deus. O culto agradável a Deus acontece quando acolhemos o irmão, defendemos a vida e lutamos contra as injustiças. Sejamos, pois, profundamente gratos a Deus por nossa dignidade e por aqueles que se empenham em defendê-la.

Dom Jeová Elias
Bispo de Goiás