Continuamos acompanhando Jesus na sua caminhada rumo a Jerusalém. Ao longo do caminho Ele ensina, realiza gestos, apresenta as condições para o seu seguimento. Esse seguimento exige desapegar-se de certas amarras, o que pode parecer difícil. Por isso, é necessário ter muita fé e disposição para servir com generosidade e gratuidade. Conscientes das exigências postas por Jesus e de suas próprias fragilidades, os apóstolos suplicam ao Senhor: “Aumenta a nossa fé! ” (v. 5).
No Evangelho deste domingo destacam-se duas ideias centrais: o pedido dos apóstolos para que Jesus aumente a sua fé (v. 5); e a parábola comparando a dinâmica do Reino de Deus ao serviço prestado por um empregado após longo dia de trabalho (vv. 7-10).
Os apóstolos suplicam a Jesus: “Senhor, aumenta a nossa fé” (v. 5). Esse pedido brota em vista da consciência do quão difícil é o seu seguimento. Manifesta a inquietação dos discípulos ante à dificuldade de trilhar o caminho do Reino rumo a Jerusalém. O que eles almejam não é um mero crescimento no conhecimento dos ensinamentos ou a adesão a um conjunto de verdades abstratas, mas a capacidade de abraçar integralmente à proposta do Reino e a coragem de assumir as suas consequências. Desejam, essencialmente, acreditar de verdade em Jesus e comprometer-se com a sua missão. A fé cristã é uma energia que irrompe na vida humana a partir do encontro pessoal com Ele, transformando por completo a história de quem o encontra. A partir desse encontro, a pessoa deixa de viver centrada em seus próprios interesses e passa a viver para Cristo e, por causa dele, para os irmãos (cf. Buttiglione, Roco, Los movimientos populares a la luz de la Teología Pastoral, in la irrupción de los movimientos populares, p. 187).
A resposta dada por Jesus é breve. Ela parece não fazer juízo de valor sobre a fé dos apóstolos, mas antes afirmar a força poderosa que tem a fé, mesmo que mínima como um grão de mostarda, de transplantar uma amoreira para o mar (v. 6).
A fé é uma das três virtudes teologais, juntamente com a esperança e a caridade, semeada por Deus no nosso coração. Sendo um dom que recebemos, traz em si uma potencialidade. Assim como uma semente, ela contém a capacidade de se desenvolver, mas precisa ser cultivada e cuidada para crescer e produzir frutos.
A fé, portanto, não consiste simplesmente na adesão a um conjunto de verdades abstratas, normas ou preceitos frios, mas no encontro e adesão a uma pessoa: Jesus Cristo. Desse encontro brotam, como consequência natural, o acolhimento de seus ensinamentos e o desejo de imitar seus gestos. Quem acredita verdadeiramente em Jesus Cristo passa a pautar a vida pelo seu ensinamento. Essa fé leva-nos a crer no mistério do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo, por Ele revelado. Conduz-nos também à comunhão na Igreja e ao empenho em construir relações fraternas. Por fim, alarga os nossos horizontes para o transcendente, para o absoluto de Deus e para a vida eterna.
A segunda ideia central do Evangelho deste domingo é a dinâmica do serviço do Reino de Deus. Jesus compara a atitude dos seus discípulos à dos servos que cumprem suas obrigações para com o seu senhor. Esta comparação não visa legitimar relações servis entre as pessoas, mas sim destacar a gratuidade e o privilégio de poder servir a Deus. O serviço do Reino não é um fardo demasiadamente pesado posto nas nossas costas, mas uma oportunidade ímpar de colaborar na construção de um mundo melhor. Servir a Deus e aos irmãos é uma graça que não podemos desperdiçar. A afirmação de Jesus “somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (v. 10), convida ao reconhecimento da nossa pequenez perante a grandeza da missão que Deus nos confia. Essa grandeza, por vezes, nos assusta e nos faz pensar que somos incapazes de cumpri-la.
Estamos iniciando o mês de outubro, dedicado à missão, neste ano sob o tema “Missionários da esperança entre os povos”, e com o lema proposto pelo papa Francisco, em sintonia com o Ano Jubilar, “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Neste mundo tentado a desesperançar, todos somos convocados a ser portadores da esperança cristã, que não se esgota nesta terra, mas aponta para a eternidade. Neste sentido, as paróquias, as diversas pastorais, movimentos e comunidades devem envolver-se com as atividades que ocorrerão ao longo do mês: celebrações, formações, encontros e experiências missionárias. Pelo sacramento do batismo, todos somos missionários!
Além da participação nas diversas atividades e das nossas orações, somos convidados a exercer a solidariedade de forma concreta. Para isso, nas celebrações dos dias 18 e 19 deste mês, haverá a coleta especial para o trabalho missionário. As doações serão enviadas ao Fundo Mundial de Solidariedade, que as distribui nas regiões mais pobres do mundo, a fim de que sejam possíveis executar os diversos projetos de evangelização, valorizando as pessoas mais vulneráveis (cf. https://cm.pom.org.br/).
Como os apóstolos, também suplicamos: “Senhor, aumenta a nossa fé”. Reconhecemos ser necessário ter uma fé de mais qualidade e mais comprometida com os valores do Reino, com a vida comunitária e com os irmãos, sobretudo os mais frágeis. Conforme o cardeal Tolentino, “A fé é uma história de fidelidade que se constrói, não é o mero entusiasmo de um momento” (O Tesouro escondido, p. 22). Que a nossa fé não se reduza a palavras vazias e devoções emocionais, mas se traduza em gestos concretos de serviço e solidariedade.




