XXIII Domingo do Tempo Comum | Mt 18,15-20
Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás
Neste Mês da Bíblia, a Igreja nos propõe como tema de reflexão o livro de Daniel e, como lema: “Seu Reino jamais será destruído” (Dn 7,14). Esse Reino indestrutível, instaurado por Jesus, é um Reino de verdade, de justiça e de fraternidade. Mateus apresenta Jesus como o mestre da justiça (cf. 3,15) e nos convida a buscar o Reino de Deus e a sua justiça (cf. 6,33). É justamente sobre a justiça e a fraternidade vividas em comunidade que nos fala o Evangelho deste domingo.
O capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, do qual faz parte o texto deste domingo e do próximo, mostra aos discípulos de Jesus como viver a justiça do Reino dentro da comunidade, especialmente nos casos de faltas graves. Apesar da bonita proposta de Jesus para que seus seguidores fossem unidos, vivessem a fraternidade e fossem atentos às necessidades dos mais frágeis, eles não eram perfeitos e cometiam erros nas relações comunitárias. Diante disso, como agir? Como tratar quem cometeu uma falta grave contra o irmão?
O texto deste domingo, exclusivo de Mateus, é precedido pela parábola da ovelha perdida (vv. 12-14), que apresenta o zelo do pastor em buscar a ovelha desgarrada. Como o pastor zeloso, o Pai do céu não admite a perda de um dos pequeninos (v. 14). Mateus apresenta, então, o desejo de Jesus para que seja feito o máximo possível para recuperar o irmão que pecou. Para isso, propõe algumas etapas: a primeira envolve o diálogo particular entre a vítima e o ofensor (v. 15), na busca da reconciliação; caso não haja sucesso; numa segunda etapa sejam acrescentadas uma ou duas testemunhas para o diálogo privado com o irmão que errou (v. 16). Numa terceira etapa, resistindo ele à correção, o caso seja levado à Igreja (v. 17), que recebeu o poder de ligar ou desligar na terra, isto é, de acolher quem aceita a proposta do Reino de Deus e sua justiça, e advertir quem a rejeita. Finalmente, se quem errou não ouvir a Igreja, seja tratado como um pagão ou pecador público que fere a comunhão (v. 17).
O convite a tratar quem errou como um pagão ou pecador público não implica excomunhão, pois quem se obstina no mal coloca-se fora da comunhão. A prática de Jesus diante dos pecadores públicos e dos pagãos foi marcada pela misericórdia e pelo acolhimento. A proposta de Jesus insiste na correção e no perdão, mas isso depende do reconhecimento pessoal do erro cometido.
Além do convite à correção fraterna e do auxílio da comunidade para ajudar quem errou, Mateus apresenta alguns ditos de Jesus: a afirmação de que se dois concordarem em seus pedidos ao Pai, Ele os concederá, sugerindo que as decisões importantes para a vida da comunidade devem ser tomadas em oração (v. 19). Excluir alguém da comunidade é decisão difícil, que exige discernimento na oração; e a promessa de que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, Ele estará presente (v. 20). Enquanto os rabinos judeus exigiam a presença mínima de 10 pessoas para o culto, Jesus reduz a duas ou três, enfatizando o valor da comunidade (cf. Bíblia do Peregrino – Novo Testamento, nota em Mt 18,19-20).
A correção fraterna nem sempre é fácil. Exige, de quem se sente injustiçado, sinceridade e coragem para ir ao encontro do ofensor manifestando seu sentimento. De quem errou, exige humildade para reconhecer o erro, pedir perdão e, sendo possível, reparar o dano. Infelizmente, em muitas comunidades, prevalecem fofocas e agressões, sobretudo nas redes sociais, que destroem reputações. Muitos desses ataques são feitos em suposta defesa da fé, por pessoas que se julgam perfeitas, dirigidos contra quem sequer conhecem, movidas por paixões partidárias, ideologias ou fanatismo. Enquanto Jesus orienta à correção fraterna e discreta, há quem prefira agredir sem piedade nem motivos pessoais.
Comentando o Evangelho deste domingo, o papa Francisco advertiu quanto à fofoca diante do erro do irmão. Disse que a tagarelice tranca o coração à comunidade e prejudica a unidade da Igreja. Afirmou ainda que “o grande bisbilhoteiro é o diabo, que está sempre a dizer coisas negativas dos outros, porque é o mentiroso que procura desunir a Igreja, para afastar os irmãos e não fazer comunidade” (cf. oração do Angelus de 6 de setembro de 2020). Disse ainda que a fofoca é como uma peste pior do que a Covid, e pediu o esforço para não bisbilhotar a vida dos outros e não perder tempo com conversa fiada. Caso a correção fraterna falhe, o papa aconselha o silêncio e a oração pelo irmão que errou, mas nunca a fofoca. Finalmente, o papa Francisco pede que nossa mãe Maria nos ajude a fazer da correção amigável um hábito saudável, para que nossas comunidades vivam relações fraternas, animadas pelo perdão mútuo e pela misericórdia divina.
Valorizemos este mês lendo a Bíblia e participando dos encontros de reflexão sobre o livro de Daniel. Deixemos que a Palavra ilumine nossas relações, para que, corrigindo-nos com amor, edifiquemos o Reino que jamais será destruído.




