Assunção: Deus viu a pequenez de sua serva e a elevou ao céu

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria | Lc 1,39-56

Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste domingo, celebramos a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao céu, uma das últimas verdades de fé definidas pela Igreja, em 1950, pelo papa Pio XII. Também rezamos pelos religiosos e religiosas que consagram a vida na doação total a Deus e aos irmãos, vivendo os três conselhos evangélicos: castidade, pobreza e obediência, como manifestação dos valores do Reino de Deus.

A elevação de Maria ao Céu é graça divina e realização da vitória do ressuscitado na vida de sua querida mãe. Mas é também resposta humana: ela correspondeu à graça recebida. Em Maria, vence a humanidade fiel ao projeto que Deus tem para todos os seres humanos. Não podemos esquecer isso, pois em alguns períodos da história Maria foi apresentada quase como uma pessoa divina, subestimando-se a beleza e a riqueza de sua humanidade. O Documento de Aparecida, porém, restitui essa dimensão ao descrevê-la em sua beleza humana como discípula-missionária, que se preocupa com a vida dos nossos povos, e a qualifica como a discípula mais perfeita do Senhor e seguidora mais radical de Cristo (cf. DAp n. 266 e 270).

O Evangelho desta Solenidade narra que Maria partiu apressadamente para a região montanhosa, dirigindo-se ao povoado onde residiam Zacarias e Izabel. Descreve o encontro das duas mulheres agraciadas de modo extraordinário com o dom da maternidade, uma jovenzinha e outra idosa, e o diálogo ocorrido, cheio de alegria e gratidão. No ventre delas pulsam Jesus e João Batista. O texto termina afirmando a permanência de Maria durante três meses na casa de Isabel.

Lucas destaca, no centro do seu texto, o encontro das duas mulheres: Maria e Isabel. Os homens não participam da cena, aparecem apenas citados. O papa Francisco aprecia muito a cultura do encontro, entendida como caminho que integra, valoriza os dons de cada pessoa que tem algo a oferecer e também sempre tem algo a receber. Em Maria, Deus encontra o seu povo e vem morar definitivamente na nossa história, jamais nos abandona. No seio de Maria, Jesus se faz carne e arma sua tenda entre nós. A presença de Deus não está mais estaticamente restrita ao templo de pedras em Jerusalém, mas a um templo vivo: o corpo de Maria.

                                                                                                                                                            Antes de partir ao encontro de Isabel, Maria recebe a visita do Anjo Gabriel. Aquela que é encontrada, visitada e habitada por Deus também se dispõe a caminhar, a encontrar outras pessoas, a levar Jesus, a servir, movida pelo encanto da alegria que vibra em seu coração e a impele a levar essa alegria aos outros. Pois da alegria trazida pelo Senhor, como afirma o querido papa Francisco, que ninguém pode ser excluído (cf. Evangelii Gaudium n. 3). 

Que belo encontro dessas duas mulheres! Encontro entre o antigo e o novo; encontro entre a memória que se transmite e a esperança que se realiza no hoje da nossa história. Desse encontro brota a gratidão a Deus, expressa na oração que São Lucas põe nos lábios delas: de um lado, a saudação de Isabel, que se tornou parte da Ave-Maria, a oração mais querida do nosso povo católico: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! ” (v. 42); de outro, o Magnificat proclamado por Maria, que canta a ação de Deus, sensível à dor e ao sofrimento dos pequenos, que destrona os poderosos e levanta os decaídos.  Para o papa Francisco, a visita de Maria a Isabel, com a consciência de que a misericórdia de Deus atravessa as gerações, mostra que não podemos salvar-nos sozinhos e que a intervenção divina ocorre na história de um povo. No canto de gratidão proferido por Maria, manifesta-se essa certeza: as promessas feitas a Abraão se realizam (cf. Lc 1,51-55).

                                                                                                                                                                Na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebramos o encontro definitivo de Maria com Deus. Esse encontro acontece por graça, mas também porque ao longo da vida Maria buscou encontros humanizadores. Ela subiu ao céu, porque desceu, porque se fez serva, seguindo o exemplo de seu Filho, indo ao encontro dos preferidos do Pai.

Hoje rezamos especialmente pelos religiosos e religiosas, pessoas que, chamadas por Jesus e, como Maria, consagram a vida a Deus, servindo aos irmãos mais pobres e testemunhando o desapego aos bens materiais. Manifesto minha gratidão a todos e a todas que disseram ‘sim’ ao chamado de Deus e se colocaram a serviço d’Ele nos irmãos, especialmente aqui na Diocese de Goiás. 

Elevemos nossa oração a Deus pela intercessão de Maria, Mãe das Vocações:

Virgem Maria, tu que disseste “sim” ao chamado de Deus, intercede por todos os consagrados e consagradas. Ajuda-lhes a serem fiéis na resposta a Deus, a servirem com alegria e a anunciarem a Boa Nova com coragem profética.  Abre o coração dos jovens para que ouçam a voz do Senhor e respondam com generosidade ao seu chamado. Que a vida consagrada floresça em nossas comunidades e seja sempre sinal do amor de Deus e testemunha da alegria do Evangelho. Amém!