Jesus, o Pastor Belo, que transfigura a nossa vida

IV Domingo de Páscoa | Jo 10,1-10

Por Dom Jeová Elias, bispo de Goiás

Neste IV Domingo da Páscoa, celebramos o dia do Bom Pastor e a 63ª Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Na Bíblia, Deus é apresentado como o pastor que cuida das ovelhas mais fracas, carrega-as nos ombros, alimenta, sacia a sede e as defende nos perigos (Sl 23). Esse cuidado divino manifestou-se nas lideranças do povo, mas muitas não foram fiéis: em vez de cuidar, exploraram. Por isso, Deus mesmo veio cuidar do seu rebanho na pessoa de Jesus Cristo.

No tempo de Jesus, a figura do pastor não era positiva. Eles eram malvistos, considerados desonestos. Muitas lideranças políticas e religiosas mereciam esse rótulo, e ainda merecem.

No Evangelho de hoje, Jesus não se denomina pastor, mas apresenta-se como a porta do curral. A palavra “ovelha” aparece sete vezes; “pastor”, apenas uma. Ele é a porta e também o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas (Jo 10,11).

Existiam currais comunitários onde os pastores deixavam os rebanhos pernoitarem, protegendo-os dos animais predadores. Ao amanhecer, cada pastor chamava suas ovelhas pelo nome; elas escutavam sua voz, conheciam-no e o seguiam. O redil tem sentido positivo: protege as ovelhas. O pastor entra pela porta; o ladrão, não.

Mas o curral também pode ter leitura negativa. O texto fala de levar as ovelhas para fora e guiá-las adiante. Isso evoca a libertação do Egito e a caminhada pelo deserto, prefigurando a libertação definitiva em Cristo, que não reconduz ao velho redil. Nesse sentido, o curral significa libertação do que não favorece a vida.

O Evangelho nos apresenta três verbos fundamentais para a vida cristã: escutar, conhecer e seguir.

Em primeiro lugar, as ovelhas escutam a voz do seu pastor, mas não escutam a voz dos ladrões. O teólogo José Tolentino nos ajuda a compreender que escutar é obedecer. A palavra obediência vem do latim ab audire, que significa dar ouvidos, ouvir bem, permanecer em escuta. Quem escuta a palavra de Jesus, o Bom Pastor, sinaliza amor. Ele ama quem verdadeiramente o escuta, que deve responder com amor e segui-lo.

Depois, somos chamados a conhecer. Jesus afirma que as ovelhas conhecem a voz do pastor, mas ignoram a voz dos estranhos. Na Bíblia, conhecer é ter intimidade, é amar. O pastor, Jesus Cristo, ama as suas ovelhas a ponto de dar a vida por elas, ao contrário do mercenário, que somente as explora. Nós somos conhecidos, isto é, amados profundamente por Jesus. Porque nos ama, Ele cuida de nós e não nos abandona. A pastoral é a arte de cuidar. Como nos lembrava o papa Francisco, pastoral é o exercício da maternidade da Igreja, que não apenas gera, mas alimenta, acompanha o crescimento, corrige e conduz pela mão. A Igreja deve ser como um hospital de campanha que cuida dos feridos, com entranhas maternas de misericórdia.

Finalmente, as ovelhas seguem o pastor. Aquelas que escutam e conhecem a sua voz o seguem; mas não seguem a voz de um estranho, fogem dele. Seguir o pastor significa acompanhar os seus passos, abraçar o seu projeto, vivê-lo e anunciá-lo.

Jesus afirma duas vezes ser a porta das ovelhas; os que vieram antes são ladrões e assaltantes. Quem passa pela porta, Jesus Cristo, tem acesso às ovelhas. Elas lhe pertencem. Quem for ao encontro delas deve ter os mesmos sentimentos de Jesus: cuidar e dar a vida. Para as ovelhas, a porta significa acesso a pastagens. Só em Jesus temos acesso ao Pai e à vida plena.

Inspirados pelo Evangelho, devemos discernir a voz dos verdadeiros pastores, que se preocupam com a vida das ovelhas, diante de tantas vozes agressivas que ignoram a dor das pessoas e defendem uma  religião de regras pesadas; que veem a vida terrena como mero trampolim para a eternidade; que falam mais de pecado e castigo do que de esperança e perdão; que atacam até o papa quando contrariados. As ovelhas não devem ouvir essas vozes, mas fugir dessa “gente de bem” que destila ódio contra os divergentes.

Na mensagem para este Dia de Oração pelas Vocações, o papa Leão XIV nos convida a contemplar Jesus, o “Pastor Belo”, cujo olhar revela que a vida é bela quando nos deixamos transfigurar por sua beleza. Cada vocação é “uma aventura de amor e felicidade”. Rezemos pelas vocações. Constato com alegria que a semente do chamado existe, mas os operários são poucos. Peçamos ao Senhor da messe que desperte corações generosos para as vocações: sacerdotal, religiosa, leiga, e que todas sejam missionárias.