Saudade sim, desespero jamais

Como a saudade pode alimentar nossa esperança

No dia 2 de novembro, a Igreja nos convida a uma pausa sagrada na correria do cotidiano para celebrar a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Desde o século II, os cristãos já uniam suas preces pelos falecidos à celebração eucarística (cf. Adam, Adolf, O Ano Litúrgico, p. 232). Este não é um dia de luto estéril, mas de saudade que edifica e esperança que sustenta nossa caminhada terrestre.

As pesquisas de opinião pública sobre o medo da morte, desde a década de 1970, revelam que cerca de 70% das pessoas temem desesperadamente a morte, ante sua inevitabilidade. Esta angústia existencial, porém, encontra na fé cristã uma resposta transformadora. Entre os que possuem uma fé sólida, esse temor é cerca de 40% menor. Eis o paradoxo cristão: onde a cultura imanente vê o fim e evita qualquer menção à morte, nós a descobrimos como um novo nascimento, como vida plena; onde muitos veem escuridão, nós professamos a fé na vida eterna e na feliz ressurreição.

Os santos nos deixaram a lição de uma relação saudável com a morte. Para eles, a morte não é uma caveira horripilante, mas uma irmã. São Francisco de Assis, em seu Cântico das Criaturas, que está completando 800 anos, saúda a “Irmã Morte” como aquela que nos conduz ao encontro definitivo com Deus. Esta visão nos ajuda a compreender que a morte não é o fim, mas a porta para a vida plena.

O evangelho nos apresenta Jesus como aquele que enfrentou a morte e a venceu. Suas palavras ecoam através dos séculos como uma promessa definitiva: “Eu sou a ressurreição e a vida: aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?” (Jo 11,25-26). Esta pergunta, dirigida outrora a Marta, continua ressoando em nossos corações hoje.

A vigilância que Jesus nos propõe nas parábolas dos servos que esperam seu senhor e do ladrão noturno, no Evangelho de Lucas (cf. 12,35-40), convidam-nos a uma espera serena do nosso Senhor, preparando-nos amorosamente. “Os rins cingidos e as lâmpadas acesas” simbolizam essa atitude interior de quem sabe que cada momento é precioso, que cada encontro é único, que a vida tem um sentido que ultrapassa os limites do visível.

Como bem observa o Frei Mateus Rocha, “é na morte que o homem acaba de se gerar, torna presente todo o seu passado e atinge a plenitude de seu ser. É a morte que dá sentido definitivo à vida. Viver é caminhar para a morte” (Quem é este homem?, p. 94). Contudo, sem a ressurreição de Cristo, esta caminhada seria um absurdo. É Ele quem dá sentido pleno ao nosso existir.

O escritor Rubem Alves nos ajuda a resgatar a beleza da vida em sua transitoriedade. Numa metáfora iluminadora ele afirma: não somos “como serrotes, enxadas, alicates, fósforos, lâmpadas que, uma vez sem o que fazer, são jogados fora” (Se eu pudesse viver minha vida novamente…, p. 55). Cada vida humana tem valor intrínseco, da primeira respiração ao último suspiro. A vida, nas palavras dele, “é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria” (ibidem, p. 56). Entendemos que essa alegria é alcançada amando como Jesus nos pediu.

Assim, entendemos que a saudade pode alimentar a esperança. A comovedora pergunta da filhinha de Rubem Alves – “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?” revela a beleza do nosso sentimento: a dor da morte não é primordialmente medo, mas saudade. “A morte é uma saudade sem fim”, define o escritor (p. 62). E acrescenta: “Saudade é sentimento de quem ama e perdeu o objeto do amor. Quem não amou e não perdeu o objeto do amor não sente saudade” (p. 132).

A saudade é sentimento de quem ama. A morte não tem o poder de destruir o amor em nosso coração. Por isso, na Igreja, rezamos por nossos falecidos, não chamando por alguém que se perdeu, mas recomendando a Deus aqueles que amamos. A nossa oração é uma forma terna e viva de manifestar o nosso amor às pessoas que já partiram. Saudade sim, porque o amor não morre; Desespero jamais, porque o Amor venceu a morte.

Perguntado por um repórter sobre o temor da morte, o poeta Patativa do Assaré, já idoso, respondeu não temê-la, mas sim a dor. E, de improviso, fez um soneto:

“Ó morte você é valente,

O seu valor é profundo;

Quando eu cheguei neste mundo,

Você já matava gente.

Guardei tudo em minha mente,

O seu medonho pavor;

Porém lhe peço um favor:

Quando eu for ao campo santo,

Não me faça sofrer tanto:

Morte, me mate sem dor!”

Que neste dia possamos transformar nossa saudade em prece confiante, nossa dor em esperança ativa, nossas lágrimas em semente de ressurreição.

Dom Jeová Elias Ferreira 
Bispo de Goiás