I – Mensagens do Congresso

0
175

I . O Evangelho da Família, alegria para o mundo
“Completai minha alegria permanecendo unidos.”
(Filipenses 2,2)
Dom João Wilk

I . O tema e o lema resumem o conteúdo das catequeses do papa para o IX Encontro Mundial das Famílias.

É preciso a gente tentar se reunir. Antes de adentrar na nossa reflexão sobre o “Evangelho da Família”, eu gostaria de citar uma bela página de um dos escritores franceses mais conhecidos, Saint-Exupéry, de sua obra Terra dos Homens. São suas palavras: “Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de voo, na Argentina — uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície. Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa, alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo alento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos… É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura”.

Hoje, muitas pessoas são como essas “pequenas luzes perdidas na planície”, pedindo alento. “… entre essas estrelas vivas — diz o poeta — tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos… É preciso a gente tentar se reunir”. Nós somos luzes! Precisamos nos comunicar e unir nossas luzes! É nossa incancelável vocação e missão hoje como “Igreja em saída” (Papa Francisco). “Vós sois a luz do mundo!”, exorta-nos o Senhor (Mt 5,14s). Essa luz precisa brilhar “para todos que estão na casa” e “diante dos homens, para que, vendo as vossas obras, eles glorifiquem o vosso Pai que está nos céus”. O Evangelho da Família é luz e alegria para o mundo! Certa vez, madre Teresa de Calcutá foi visitar um pobrezinho que vivia em uma cabana escura e suja. Perguntou-lhe: — Posso limpar? — Eu estou bem assim — respondeu o pobrezinho. — Mas ficaria melhor — insiste madre Teresa. Ela vê em um canto uma lâmpada abandonada, cheia de pó. — Você nunca acende esta lâmpada? — Pra quê? Há anos ninguém vem me ver. — Se nós viéssemos, você acenderia a lâmpada? Ele não disse não e as irmãs vieram. Três anos depois, madre Teresa encontrou as irmãs. Elas disseram: — Aquele homem quer que a senhora saiba que desde aquele dia a lâmpada está acesa! Nós somos luzes! Que bela e exigente vocação! Por isso, agradeçamos a Deus a graça deste Congresso. Reunimo-nos para, juntos, sempre à luz do Evangelho, redirecionar a nossa mente e o nosso coração para a Família divina: Pai, Filho e Espírito Santo, Deus-Amor que alegra a nossa juventude (cf. Sl 43,4), e para a Família de Nazaré, Jesus, Maria e José e, de novo, nos unir no mesmo ideal: a vocação à santidade na família, “igreja doméstica” e “santuário da vida”.
Para que a nossa luz resplandeça, para que nossa alegria seja contagiante, precisamos nos reunir e permanecer unidos no Senhor. “Completai minha alegria permanecendo unidos”, escreve o Apóstolo Paulo à comunidade de Filipos (Fl 2,2). Esta bela exortação do Apóstolo encontra-se emoldurada por outros maravilhosos conselhos. São suas palavras: “… pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no amor, pela comunhão no Espírito, por toda a ternura e compaixão, completai minha alegria [implete gaudium meum] permanecendo unidos, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus! (2,1-5). Havia divisões intestinas que ameaçavam a paz da comunidade. Por isso, fundamentalmente, Paulo afirma que a unidade, fruto da vivência da fé e do amor, é fonte de plena alegria e, portanto, testemunho para o mundo. Permanecer unidos no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento realiza aquela unidade que é muito mais do que simplesmente estar juntos. O lema que escolhemos exorta-nos a nos colocarmos acordes no mesmo sentimento. Essa unidade significa “um estar no outro”, no mesmo sentimento… de Cristo Jesus. O Evangelho da família é eminentemente comunitário, é vivido em comunhão.

Portanto, deixemos ecoar no nosso coração as palavras do Papa Francisco, na Exortação Sinodal Amoris Laetitia sobre o amor na família: “A ALEGRIA DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio (…) o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja. Como resposta a este anseio, o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia” (AL 1). A vivência do mandamento do amor na família é um evangelho, um alegre anúncio para o mundo.

II. O Evangelho é fonte de alegria para as famílias e a alegria da família é fonte de alegria para o mundo.

O escritor russo Dmitri Merejkowski (†1941), pai de família, em sua obra Jesus Desconhecido, testemunhava maravilhado o impacto que o Evangelho causou na sua vida: “O Evangelho — dizia ele — (…) é como o céu noturno: quanto mais é contemplado, mais estrelas se descobrem. Nada existe que se lhe pode comparar. Gastei-o de tanto lê-lo. E digo: Que levarei ao túmulo? Ele, o Evangelho. Com que me levantarei do túmulo? Com o Evangelho. Que fiz na terra? Li-o. Entre os livros humanos, lumes terrestres, se distingue esse clarão celestial: o Evangelho. Devemos lê-lo dez, cem mil vezes. Ler a milésima vez como se fosse a primeira, limpar dos olhos a névoa do hábito, ver de repente e ficar mudo de assombro — isto é que é necessário para ler o Evangelho como deve ser lido. É difícil lê-lo com os olhos impuros, falar dele com lábios impuros, e amá-lo com o coração impuro”. Introduzo aqui o incentivo do nosso amado Papa Francisco: “A oração brota da escuta de Jesus, da leitura do Evangelho. Não vos esqueçais, todos os dias de ler um trecho do Evangelho. A oração brota da intimidade com a Palavra de Deus. Existe esta confidência na nossa família? Abrimo-lo às vezes para o ler juntos? Meditamo-lo, recitando o terço? O Evangelho lido e meditado em família é como um pão saboroso que nutre o coração de todos” (Audiência Geral, 26 de agosto de 2015).

O mundo precisa receber esse “alegre anúncio” através do testemunho da família cristã! Para que o coração da família seja impregnado pelo Evangelho, para que a família seja um evangelho vivo, é preciso aquilo que dizia Gertrud von Le Fort (†1971): “Quando o coração da mãe é o altar de Deus, toda a casa se torna seu templo”. E isso vale para todos nós. Antes, é preciso acolher o Evangelho, o dom que Deus fez de Si à família. Impregnada da alegria do Evangelho, a família se torna evangelho, alegre anúncio. Nesse sentido, gostaria de dirigir uma palavra muito concreta aos pais. Diz-se com razão que o coração da mãe é a primeira sala de aula do filho. Mas o pai é o primeiro professor. Dificilmente se terá um homem completo se a família, que é educadora por si mesma, não for construída e sustentada pelo cérebro e pelo coração. O pai será sempre a sombra da Providência e da Paternidade divina em sua casa, dizia Dom Pestana. Não é sem razão que, se a lembrança da mãe nos comove (refletia meu predecessor), a figura do pai nos acompanha como luz, guia, mestre, amigo. São ainda suas palavras: “À medida que a vida passa, cada vez mais se torna presente e confortante a recordação de quem nos deu a vida, sacrificou-se por nós e mesmo frustrado por nossos desacertos, orgulha-se das pequeninas e grandes vitórias dos filhos, carne de sua carne e sangue de seu sangue. Esse laço entre pai e filho, por vezes mais profundo que a ligação umbilical com a mãe, parece justificar o comprometedor provérbio: Tal pai, tal filho! A maior homenagem ao nosso pai é o esforço humilde por superá-lo nos valores que ele, apesar das fraquezas, se empenhou por semear em nós. Pois, não há maior condenação que descobrir que não se conseguiu ensinar os filhos a superar nossas limitações” (Decolores, VII, agosto, 2005, 77).

É imprescindível acolher o Evangelho para ser evangelho. “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja” e fonte de alegria para o mundo. Os nossos contemporâneos necessitam dessa maravilhosa e urgente interpelação: “Vede como eles se amam!”, anotou Tertuliano (†220) sobre a reação dos pagãos vendo as primeiras comunidades cristãs. Num passado recente, o Beato Papa Paulo VI alertava-nos dizendo que “os homens contemporâneos escutam com mais boa vontade as testemunhas do que os mestres e se escutam os mestres é porque eles são, antes, testemunhas” (Evangeli nuntiandi, 41). Sim, “a Igreja não faz proselitismo, ela deve crescer por atração”, pontua o Papa Bento XVI. A alegria do amor que se vive nas famílias (“igrejas domésticas”) é um dos mais belos modos de anunciar o amor de Deus ao mundo de hoje. O Evangelho da Família testemunha aquela comunhão de amor trinitária, à maneira do lar de Nazaré.
Seguindo uma inspiração do Papa Bento XVI, é importante dizer que por natureza “a alegria exige ser comunicada, o amor exige ser comunicado, a verdade exige ser comunicada” (cf. Discurso enviado à Urbaniana, 23/10/2014). Quem recebeu uma grande alegria, não pode tê-la simplesmente para si, deve transmiti-la. O mesmo vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta. Quando André encontrou Cristo, não pode fazer outra coisa que dizer a seu irmão: encontramos o Messias (Jo 1,41). E Filipe, ao qual foi doado o mesmo encontro, não pode fazer outra coisa que dizer a Natanael que tinha encontrado Aquele do qual tinham escrito Moisés e os profetas (Jo 1,45). Anunciamos Jesus Cristo não para proporcionar em nossa comunidade o maior número de membros possível, e tanto menos pelo poder. Falamos de Jesus porque sentimos o dever de transmitir aquela alegria que nos foi doada, a alegria do Evangelho. Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando, verdadeiramente, O encontramos no profundo da nossa existência, quando, através do encontro com Ele, nos é doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.

III. A alegria deverá ser vivida na individualidade, mas não só, pois a comunidade é fonte de realização e alegria. Na comunidade, se vivem os momentos difíceis, mas também, se celebram as vitórias.

O Papa Francisco, em uma de suas belas catequeses de quarta-feira em Roma (09/09/2015), ofereceu-nos uma reflexão sobre a importância da comunidade para a família cristã. Há um “vínculo entre a família e a comunidade cristã. É um vínculo, por assim dizer, natural porque a Igreja é uma família espiritual e a família é uma pequena Igreja”. Continua a Santo Padre: “A comunidade cristã é a casa daqueles que acreditam em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes acontecimentos dos poderes mundanos escrevem-se nos livros de história, e ali permanecem. Mas a história dos afetos humanos inscreve-se diretamente no coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. Este é o lugar da vida e da fé. A família é o lugar da nossa iniciação — insubstituível, indelével — nesta história. Nesta história de vida plena, que acabará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, mas começa na família! Por isso a família é tão importante”.

O Papa lembra nessa catequese que o Filho de Deus aprendeu a história humana nesta via, e percorreu-a até ao fim (cf. Hb 2,18; 5,8). Jesus nasceu numa família e ali aprendeu o mundo: uma oficina, quatro casas, uma aldeia insignificante. No entanto, vivendo por trinta anos esta experiência, Jesus assimilou a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou ao seu redor uma comunidade, uma assembleia, uma com-vocação de pessoas. Eis o significado da palavra igreja.

Na comunidade se vivem momentos difíceis, é verdade. Por isso, o Papa Francisco faz-nos o convite “a pôr os vínculos familiares no âmbito da obediência da fé e da aliança com o Senhor”. Essa experiência não mortifica os vínculos familiares, pelo contrário, protege-os, liberta-os do egoísmo, preserva-os da degradação, nos salva para a vida que não morre. “A circulação de um estilo familiar nas relações é uma bênção para os povos: traz de novo a esperança sobre a terra. Quando os afetos familiares se deixam converter ao testemunho do Evangelho, tornam-se capazes de coisas impensáveis, que fazem tocar com as mãos as obras de Deus, aquelas obras que Ele realiza na história, como as que Jesus realizou em prol dos homens, das mulheres, das crianças que encontrou” (Audiência Geral, 2 de setembro de 2015).

O pensamento do Papa Francisco faz conexão com o de São João Paulo II, que também, de um modo muito concreto, para que não haja ilusões, deixou-nos um testamento chamado espiritualidade de comunhão: Onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades. Em que consiste, concretamente? “Ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor (…) significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como um que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade”. É ainda a “capacidade de ver antes de mais nada o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um dom para mim, como o é para o irmão que diretamente o recebeu”. Por fim, “é saber criar espaço para o irmão, levando os fardos uns dos outros (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”. Como Francisco, exorta-nos o Papa da Família: “Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento” (Novo Millennio Ineunte, 43). Uma espiritualidade de comunhão assim compreendida e assumida como ideal traz inúmeros frutos de alegria e de paz para a vida pessoal, familiar, eclesial e é testemunho para os nossos irmãos.

IV. A vida de comunidade é um instrumento eficaz para a sobrevivência em meio ao mundo avassalador que nos permeia.

Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família, e de uma família hospitaleira, não de uma seita exclusiva, fechada: nela encontramos Pedro e João, mas também o faminto e o sedento, o estrangeiro e o perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e falar com todos, até com quantos já não esperam encontrar Deus na sua vida. É uma lição forte para a Igreja! Os próprios discípulos são eleitos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.
Para que seja viva no hoje desta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Poderíamos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua derradeira fonte no próprio Deus. Uma Igreja, verdadeiramente, segundo o Evangelho, não pode deixar de ter a forma de uma casa hospitaleira, sempre de portas abertas.
De um modo muito concreto o Papa Francisco diz-nos que hoje é indispensável e urgente fortalecer o vínculo entre família e comunidade cristã, para enfrentar os desafios do nosso tempo. Sem dúvida, é necessária uma fé generosa para ter a inteligência e a coragem de renovar esta aliança. Às vezes — exemplifica o Papa Francisco —, as famílias hesitam, dizendo que não estão à altura: “Padre, somos uma família pobre e até um pouco arruinada”, “Não estamos à altura”, “Já temos tantos problemas em casa”, “Não temos força”. Isto é verdade. “Mas ninguém é digno, ninguém está à altura, ninguém tem força! Sem a graça de Deus, nada poderíamos fazer. Tudo nos é dado gratuitamente! E o Senhor nunca chega a uma nova família sem fazer algum milagre”. Recordemos, convida-nos o Papa, “aquilo que Ele fez nas bodas de Caná! Sim, quando nos pomos nas suas mãos, o Senhor leva-nos a fazer milagres — aqueles milagres de todos os dias! — quando o Senhor está ali naquela família”.

Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado diretivas e funcionais, favorecendo o diálogo interpessoal, o conhecimento e a estima recíproca. As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de oferecer os seus dons preciosos em prol da comunidade. Todos nós devemos estar conscientes de que a fé cristã se vive no campo aberto da vida partilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira. É preciso acreditar. Recorro novamente a Santa Teresa de Calcutá. Para ela, a misericórdia caía como chuva do céu da união com Deus na oração. Depois de ter retirado o prêmio Nobel em 1979, na sua viagem de regresso de Oslo, madre Teresa passou por Roma. Os jornalistas precipitaram-se para entrevistá-la e ela recebeu-os, pacientemente, pondo na mão de cada um uma medalha da Imaculada. A um jornalista que lhe manifestou, com certa maldade, a convicção de que depois da sua morte o mundo permaneceria igual a antes, ela respondeu com simplicidade: Veja, eu nunca pensei que podia mudar o mundo! Procurei apenas ser uma gota de água limpa, na qual pudesse brilhar o amor de Deus. Acha que é pouco? Depois, no silêncio comovido dos jornalistas, prosseguiu: Procure ser também o senhor uma gota limpa e assim seremos duas gotas. É casado? “Sim, madre!”. Diga isto também à sua esposa, assim seremos três. Tem filhos? “Três filhos, madre”. Diga-o também aos seus filhos, e seremos seis! Em síntese, convidava ao contágio benéfico da misericórdia, fonte de alegria na família e para o mundo.

Revisitando as palavras de meu antecessor na Diocese de Anápolis e na Pastoral Familiar no nosso Regional Centro-Oeste — Dom Manoel Pestana Filho —, encontrei uma mensagem que ele dirigiu às famílias há quase 17 anos. Assim escreveu: “Jesus falou a São Francisco: Vai e reconstrói a minha casa! E sua fé, coragem e operosidade incansável revelaram novos horizontes de esperança e beleza à Igreja. Todos os que Cristo chamou e que lhe disseram Sim! como Maria disse ao Anjo, ouvem, pelos lábios da Igreja, a ordem angustiada e irrecusável: Vão e reconstruam as minhas famílias! (…). Reconstruam-na na fé luminosa, na esperança segura, na caridade transbordante, no espírito de renúncia e sacrifício, na alegria do amor que vence a morte e abre, ”enerosa, as comportas da vida. A Igreja os chama como apóstolos da vida e da família, para que rezem e se consagrem, sem limites, à santificação dos lares, por onde passa o futuro do mundo. Vão, sem demora e sem reservas, reconstruam, como Francisco (e, acrescento, com o nosso Papa Francisco), a minha Igreja, reconstruindo a Família” (Mensagem ao IV Congresso Macro-Regional Centro-Oeste da Pastoral Familiar 12-14/10/2001). Faço minhas as palavras de uma mãe, elevada à honra dos altares, Santa Gianna Beretta Molla: “Devemos semear, lançar a nossa pequena semente, sem jamais nos cansarmos”. Só assim seremos os mais preciosos apóstolos de que a Igreja hoje precisa para ajudar o mundo a sobreviver.