1 – Pastoral Familiar nos dias atuais: desafios, perspectivas e adaptação à realidade

Pe. Cleber Alves de Matos

Em meio às urgências em favor da família e da vida que inquietam a Igreja e, consequentemente, os agentes da Pastoral Familiar, surgem inúmeras ações, eventos e projetos, que tentam remediar as situações difíceis que afetam a família. Para a eficácia dos trabalhos em favor da vida e da família apresentamos os requisitos abordados em nosso VI Congresso Regional da Pastoral Familiar, resumidos aqui, com intuito de nortear nossos trabalhos.

Diante dos inúmeros objetivos de ações em favor da vida e da família, destaco a necessidade de se promover o encontro com Cristo como o objetivo principal de qualquer ação. Através dele se terá base sólida para os demais. Nenhum trabalho pastoral, bem como a defesa da família e da vida terão sentido se não forem pautados pelo olhar fixo em Cristo. O amor e a paixão a Ele são o combustível para qualquer ação.

A Pastoral Familiar, antes de tudo, deverá ser uma Pastoral que promova o encontro com Cristo. Deverá conduzir seus agentes a uma experiência com Ele, experiência que gera inúmeros frutos, dentre esses a conversão. Agentes convertidos, entregues a Deus, encontram vigor e sentido em seus trabalhos. Um trabalho que não gera conversão não é fecundo. Não sendo fecundo, torna-se pesado e deixa de ser prazeroso.

Não raramente encontramos agentes da Pastoral Familiar que vivem situações irregulares, passivas de solução. Casais feridos pela infidelidade, pela crise dos relacionamentos, por conflitos, que perderam o brilho do matrimônio e a crença na família. Impossível obter êxito nos trabalhos ferido por essa realidade. Para isso, faz-se necessário, com certa urgência, que se promova um encontro desses casais com Cristo, que Ele se torne a poção fundamental de cada um.

Pastoral Familiar não se faz apenas com papéis, mas principalmente com o joelho no chão. Pastoral Familiar que não reza, torna-se vazia, sendo vazia, não se torna atrativa, não encanta, não convence.

O que fazer para promover esse encontro com Cristo? Para isso, destacamos duas vias, ordinária e extraordinária, que nos levam a Deus. As vias ordinárias são os sacramentos, merecendo destaque, porém, não mais importante que os demais, o sacramento da Penitência e o Sacramento da Eucaristia. As vias extraordinárias são os gestos plurais de piedade, que visam potencializar a graça sacramental, merecendo destaque, a Adoração ao Santíssimo, a Oração do Santo Terço, o Jejum e a Leitura Orante da Palavra de Deus.

Mediante o sacramento da Penitência se mantém em estado de graça. Estando em estado de graça, vive-se em comunhão com Deus, sendo facilmente conduzido por Ele. Não raramente, encontramos agentes da Pastoral Familiar que são adversos à confissão. Vivem em situação de pecado, alheios à vontade de Deus, bem como, insensíveis à Sua condução.
Não se escondam atrás do segundo mandamento da Igreja, que nos orienta a nos confessarmos apenas ao menos uma vez ao ano, pois seria bom e útil buscar a confissão sempre que necessário, ou seja, sempre que estiver em estado de pecado. Não espere a Páscoa, viva a experiência pascal sempre que precisar. Estando em estado de graça, se gozará dos benefícios da Comunhão Eucarística. Portanto, não se constrói santidade, mediante o matrimônio, bem como, pelas ações pastorais, sem a comunhão. Os que não têm impedimento para se aproximarem do Sacramento da Penitência, o façam sempre que necessário.

Não se esconda atrás do terceiro mandamento da Igreja, que nos convida a receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da Ressurreição. Não temos fome apenas na Páscoa. Busque fidelidade ao primeiro mandamento da Igreja, participar da Missa aos domingos e festas de guarda. Mesmo que não esteja em estado de graça, a participação da missa dominical é regra, uma obrigação que deverá se tornar uma opção. A Eucaristia não é apenas uma coroa de glória para os justos, é, também, remédio para os pecadores arrependidos, desejosos por mudanças em suas vidas. Um agente de pastoral que busca encontrar-se com Cristo na Eucaristia terá força suficiente para os trabalhos.

Nenhum trabalho pastoral poderá sobressair à missa. Nossos encontros deverão ser pautados pela Eucaristia. É no altar que nos refazemos, é no altar que descansamos. O altar, portanto, é lugar de encontro, onde nos unimos às espécies do pão e do vindo e nos ofertamos a Deus, tendo em vista também sermos transformados e santificados.

Bem sabemos que as situações difíceis da vida tendem a nos afastar do altar, promovendo até mesmo medo e vergonha de nos aproximarmos dele. Mas digo, o altar é lugar de misericórdia, o Cordeiro perfeito, Cristo, é imolado no altar, mas os cordeiros imperfeitos, que somos nós, também são ofertados no mesmo altar. Em uma Igreja, o altar sempre deverá ser o lugar de destaque, pois é nele que se constrói santidade, que o cristão se refaz, que se reconstrói. Uma família, um casal, um agente de pastoral que se encontra na Eucaristia, terá força, audácia e sabedoria, para enveredar-se no mundo, buscando transformá-lo.

Não raramente encontramos agentes de pastorais que, em meio aos afazeres pastorais, não participam da missa, sentindo-se legitimados para não cumprir esse preceito. Repito, nada, nenhum trabalho da Pastoral Familiar deverá sobressair à missa dominical.
Tendo em vista esse convite de centrar-se em Cristo, buscando a comunhão com Ele no sacramento da Penitência e da Eucaristia, aqueles que gozam da possibilidade de comunhão diária, usufruam desse benefício, pois é um alimento salutar para os trabalhos pastorais.

Além dessas vias ordinárias, encontramos muitas outras vias extraordinárias de encontro com Deus, merecendo destaque, como foi dito, a Adoração ao Santíssimo, a Oração do Santo Terço e o Jejum.

Sem me delongar sobre as vias extraordinárias, ressalto a importância de se recolher diante do Cristo Eucarístico, mediante a adoração, se possível silenciosa, tecendo com Ele um diálogo entre irmãos, entre parceiros, entre Mestre e aprendiz. Nesse diálogo, Ele nos conduz a rezar.

Da mesma forma, a Oração do Santo Terço, se possível diário, nos coloca diante de Maria, em cujo colo somos acolhidos, amparados, especialmente nos momentos difíceis. A devoção mariana é um alimento singular para o agente da Pastoral Familiar, mesmo tendo vias plurais de se cultivá-la, deve-se buscar o melhor caminho para se ter com Ela uma relação maternal, pois através dela chegamos a Jesus.

O jejum consiste na privação ou redução de comida por um período, encontrando na mortificação da natureza humana uma via de encontro com Deus. O jejum não poderá ser visto como um mecanismo de troca, em que ofertamos a falta de alimento a Deus em vista de recebermos Dele algo. Mas sim, como forma de reconhecermos que a humanidade deverá se curvar diante de Deus. Na fome, na abstinência, nos lembramos que somos pó.
Bem sabemos que algumas pessoas, por motivo de saúde ou trabalho, não conseguem abster-se de comida por um período do dia. Convidamos esses a se unirem a Deus através da abstinência de algo que seja bom e desejado. Abster-se de algo que não seja bom é obrigação.

A leitura da palavra de Deus nos coloca diante dos ensinamentos do Senhor, possibilitando-nos encontrar na Palavra um alimento sólido para a vida e os trabalhos pastorais.

Aconselha-se que cada agente cultive diariamente a leitura da palavra de Deus, não sob a ótica do estudo, mas sim de uma leitura espiritual, deixando que Deus dê a devida resposta às situações concretas do dia a dia, pela Palavra.

Aconselha-se também a investir na Lectio Divina, pois através dela se aprimora a leitura da Sagrada Escritura. Uma dica, de grande valia, é a leitura da Liturgia da Palavra de cada dia, pois sabiamente a Igreja nos propõe um roteiro de leituras que condizem com um caminho de santificação.

O encontro com Cristo pelas vias ordinárias e extraordinárias tem como fim nos manter em estado de graça, fortificando-nos para a missa. Promovem também nossa santificação. Um trabalho pastoral que não promove a santidade de seus agentes e atendidos não goza de credibilidade. A defesa da vida e da família por agentes crentes e santos goza de mais eficácia, pois não se defende uma ideia, mas sim, algo que se acredita e se vive.

A santidade é o ponto de chegada de todas as ações e experiências religiosas, mas infelizmente nem todas são providas dessa intenção. Tem como origem o próprio Deus, portanto, ser santo, é assemelhar-se a Ele. Dentre os caminhos de santificação, destacamos as Bem-aventuranças , as Obras de Misericórdia , os Conselhos Evangélicos , que se unem às vias ordinárias e extraordinárias acima destacadas. Buscar a santidade é cooperar com Deus no processo de salvação, pois não basta Deus querer, é preciso que mereçamos e busquemos os caminhos de santificação, requisito necessário para contemplarmos Sua face.

Portanto, todos os trabalhos da Pastoral Familiar devem ter, dentre outros efeitos, a santificação tanto de seus agentes como das famílias atendidas. Um trabalho pastoral que não promova a santificação de seus agentes torna-se vazio e desmotivador. É urgente a retomada desse objetivo. Muitos se encontram desmotivados com os trabalhos pastorais, mas se enxergarem na pastoral um caminho de santificação e de encontro com Cristo, mesmo que seja pautado por desafios, nunca será desmotivador. Cada agente é convidado a viver o martírio, não de sangue, mas sim, dos sentidos.

A Pastoral Familiar deverá promover ações que possibilitem a santificação de seus agentes e assistidos, propagar a importância da Missa Dominical, e porque não diária, da confissão, oração do santo terço, práticas das obras de misericórdia e outras vias de santificação. Para isso, será preciso mudar nosso jeito de fazer pastoral. Não podemos nos esquivar dos encontros e eventos, mas o grande desafio da Pastoral Familiar é dar testemunho de perseverança nas vias de santificação, promovendo, no cotidiano de cada pessoa, hábitos salutares para a perseverança daqueles que se aproximam ou se reaproximam da Igreja. De nada adiantará o sucesso de nossas ações se essas não forem acompanhados pelo crescimento pessoal de cada agente e assistido.

Os livros são de extrema importância, pois nos capacitam ao diálogo com o mundo. Um agente que não conhece a doutrina acerca da família e da vida, propagada pelo Magistério da Igreja, infelizmente será massacrado pelo mundo. Mas de nada adianta ter um bom contato com os livros e não ter a experiência daquele que é assunto central dos livros, o Cristo. Estude e reze.

Em meio a esta necessidade de se adaptar a Pastoral Familiar à realidade, surgem inúmeras inquietações e perguntas acerca dos modos de se promover a cultura da família e da vida em uma sociedade secularizada. Por isso, destacaremos alguns pontos que não esgotam o tema, mas ajudam na reflexão sobre esta reinvenção do jeito de ser e fazer Pastoral Familiar.

Uma leitura da realidade
O Documento de Aparecida (I Parte), o Diretório da Pastoral Familiar (Capítulo I), a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Capítulo II) e tantos outros documentos do Magistério tecem um olhar inteligente sobre a realidade em que vivemos. O documento Amoris Laetitia deixa-nos claro que não pretende dar uma receita única para as diversas realidades que compõe a Igreja e conclama-nos a fazer pastoral a partir de nossa realidade.

Todos os planejamentos Arqui/Diocesanos deverão considerar a singularidade de sua realidade, promovendo ações que correspondam às reais necessidades da comunidade. Outras ideias e projetos de realidades distintas poderão servir de exemplo para a realidade local, ser até aplicáveis na íntegra, se corresponderem à realidade. Porém, se não nascerem de uma necessidade local, não alcançarão o coração da assembleia, e serão apenas ações desvinculadas da caminhada da comunidade, fadadas ao esquecimento.
Esse olhar detalhado da realidade nos dará subsídios necessários para entendermos a realidade das famílias a nós confiadas, nos deparando com as verdades de nosso povo, seus desafios, suas enfermidades, suas dores e alegrias. Tendo essa realidade em mente, poderemos rezar sobre esses dados e pedir a Deus sabedoria para criarmos os remédios adequados para cada enfermidade social.

A Pastoral Familiar é um importante instrumento da Igreja. Mesmo não tendo pretensão de ser o único caminho de restauração da família e defesa da vida, possui uma estrutura singular que facilita os trabalhos em favor da família e da vida. Mas é importante destacar que a defesa da estrutura da Pastoral Familiar, em seus respectivos setores, deve ser cautelosa para não criarmos uma cruzada desenraizada da realidade, uma inquisição condenatória daqueles que não possuem a estrutura ideal de pastoral, pois bem sabemos que nem todas as realidades possuem capacidade humana para implantar a estrutura apresentada pelos documentos da Igreja. Não podemos nos esquecer que o mesmo Espírito, que inspirou a Igreja a criar esta estrutura, poderá também nos impulsionar a fazer Pastoral Familiar para nossa realidade.

Longe de mim negar a importância da estrutura apresentada solenemente pela Familiares Consortio (IV Parte) e pelo Diretório da Pastoral Familiar (Capítulo VIII), pois é o caminho e a metodologia ideal para os trabalhos da Pastoral Familiar. Mas, como foi dito, há realidades que não conseguem alcançar o ideal proposto, não por negligência ou comodismo, mas por falta de material humano. Tais realidades não podem ser excluídas do corpo pastoral da Pastoral Familiar, não deixam de ser pastoral. Lutemos firmemente para implantar o que é idealizado pelos documentos acima mencionados, mas não deixemos de nos sentir Pastoral Familiar quando esses ideais não forem atingidos.

O grande desafio desse processo de ressignificação da Pastoral Familiar é construir uma Pastoral Familiar para a paróquia, para os grandes centros e as periferias. Não podemos pensar em projetos belos, mas inaplicáveis à realidade paroquial. A Pastoral Familiar se faz na paróquia, é lá que ela acontece. Nesse processo, não nos descuidemos das ações Regionais e Diocesanas: caberá ao Regional Centro-Oeste e às Arqui/Dioceses dar o devido suporte às paróquias, buscando aproximar-se do ideal proposto pelo Magistério, porém mantendo o foco de atuação pastoral em nível paroquial a partir da realidade da Igreja local.

Organicidade da Pastoral Familiar e a Pastoral de Conjunto
Como foi dito, a Pastoral Familiar é subdividida em setores, Pré-Matrimonial, Pós-Matrimonial e Casos Especiais, sendo implementada pelo Núcleo de Formação e Espiritualidade e outras iniciativas que enriquecem seus trabalhos.

Nesse processo de repaginação da Pastoral Familiar, inevitavelmente deverá ter-se em mente a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, que veio reafirmar a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio e a Família, merecendo destaque a acolhida misericordiosa dos Casos Especiais. Porém, com a mesma envergadura, o Papa Francisco retrata com clareza a necessidade de se preparar, principalmente, os jovens, propagando a cultura da família àqueles que almejam contrair o matrimônio. É crescente o número de casos especiais, fruto de uniões falidas, pela ineficiência da ação pastoral do Pré-Matrimônio.

Lamentavelmente, estamos nos tornando uma Igreja de divorciados. No Brasil, em 2016, em média, 2.097 casamentos foram declarados nulos. A princípio, prova de um bom trabalho de nossos tribunais, mas também, retrato de uma triste realidade: um simples encontro para noivos não prepara um casal para o matrimônio. É preciso propagar a cultura da família e do matrimônio. Para isso, faz-se necessário que a Pastoral Familiar aproxime-se dos movimentos, pastorais e serviços que têm a juventude como foco, não necessariamente para assumir os trabalhos, mas sim, dar o devido suporte e formação acerca do matrimônio e da família. Da mesma forma, a aproximação com a catequese, movimentos, pastorais e serviços que atuam com a infância e a adolescência.
Tecer parcerias para a construção de uma Pastoral de Conjunto, um grande desafio da Igreja, constitui uma necessidade prioritária para a eficácia dos trabalhos do Pré-Matrimônio. É urgente entendermos que pastoral não se faz isoladamente, ou não atingiremos nossos objetivos.

A Pastoral Familiar deve compreender que não é sua missão assumir todos os trabalhos, mas sim, articular e oferecer suporte para outras ações existentes, preservando a identidade de cada movimento, pastoral ou serviço. A presença de adultos e idosos em meio aos jovens é o maior instrumento de propagação da cultura da família e da vida. O diálogo entre as gerações se constrói a partir de uma boa leitura histórica dos dias atuais, capaz de compreender que, em meio às diferenças, sempre há pontos comuns que possibilitam o encontro do mais jovem com o mais velho. Entre muitas crianças, adolescentes e jovens que não têm abertura com os pais, a presença da Pastoral Familiar pode suprir a necessidade de diálogo.

Como fora dito acima, não há uma proposta pedagógica universal para a preparação dos noivos, das crianças, adolescentes e jovens para a vida conjugal e familiar. Cada Arqui/Diocese deverá fazer uma leitura de sua realidade, tendo em vista a necessidade de se construir um processo formativo para a preparação para o matrimônio. Salientamos apenas que a cultura da abreviação dos “cursos” de noivos nunca preparará com qualidade nossos jovens para a vida matrimonial. Dever-se-á levar a sério os encontros de preparação para noivos.

Dentre os temas importantes para a propagação da cultura da família e da vida, bem como a preparação para a vida conjugal, destacam-se: 1) Sacramento do Matrimônio: o que é e quais suas implicações canônicas e civis; 2) Preparativos básicos para a celebração matrimonial – o Rito; 3) O amor de Deus como protótipo do amor conjugal; 4) O pecado como fator destrutivo da vida conjugal; 5) A experiência de Deus na vida conjugal; 6) Conhecimento de si mesmo e do outro; 7) Harmonia sexual do casal; 8) Não se faz sexo, mas sim, amor. Relação sexual como celebração do amor; 9) Paternidade Responsável e métodos naturais para o planejamento familiar; 10) Diálogo: importância e técnica para um diálogo aberto e sincero em um casamento; 11) Finanças em um mundo perturbado; 12) Como organizar um orçamento familiar: compras, planejamentos, comunhão de bens, investimentos… Não colocar o dinheiro em primeiro plano; 13) Filhos: educação, dedicação, dom de Deus e adoção. 14) Como relacionar-se com os familiares e amigos. 15) As principais mudanças pós-matrimônio; 16) Tecer laços de amizade no matrimônio como um importante investimento matrimonial.

Tendo em vista a análise de conjuntura de cada Arqui/Diocese, orientamos que construam um “encontro de preparação para o matrimônio” homogêneo em toda Arqui/Diocese. Podendo realizá-lo em módulos, em um único final de semana… contando que prime pela qualidade. É importante, também, aproximar a Pastoral Familiar dos noivos, para um acompanhamento personalizado, favorecendo a cultura da Direção Espiritual. Para isso, é importante que cada casal Diretor Espiritual promova encontros periódicos com os noivos, podendo retomar temas tratados na preparação para o matrimônio ou temas diversos, favorecendo o diálogo e a interação entre diretores espirituais e noivos. Este acompanhamento deverá prosseguir após a celebração do casamento, como atividade do setor Pós-Matrimônio.

A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia retrata a necessidade de se criar Centros de Apoio às Famílias, com diversas ações em favor da família. Em uma Pastoral de Conjunto, o setor Pós-Matrimônio deverá tecer laços fraternos e serviçais com movimentos e serviços em favor da família, principalmente, os que primam pelo cuidado com os casais. Dentre as ferramentas possíveis, destaca-se a Direção Espiritual, que intermediará a solução de conflitos, acompanhará os recém-casados… evitando que se multipliquem os casos especiais.

Importante articular reuniões com os movimentos, pastorais e serviços, para tecer parcerias nos trabalhos em favor da família e da vida. Orientamos, sem ferir a identidade de cada Arqui/Diocese, a criação do Setor Família, unindo forças para os trabalhos pastorais.

O setor Casos Especiais ainda é um dos maiores desafios da Pastoral Familiar, devido à sua amplitude e complexidade. Sem nos delongarmos nesse tema, lembramos apenas que já foram apresentadas as três palavras que resumem as necessidades do setor: Acompanhar, Discernir e Inserir. Cada Arqui/Diocese, em comunhão com seu Pastor, deverá pensar como efetivar essas vias apresentadas pela Amoris Laetitia, buscando meios de inserção dos Casos Especiais nos trabalhos pastorais e litúrgicos, considerando sempre o bem da comunidade, a defesa da verdade e a acolhida misericordiosa.

Outra urgência do setor é a criação ou implementação da Pastoral Judiciária, com vistas a ajudar a solucionar as irregularidades passíveis de solução. Caberá à Pastoral Familiar tecer parcerias com as Câmaras Eclesiásticas e Tribunais Eclesiásticos, facilitando o acesso à justiça daqueles que vivem situações irregulares.

O Regional Centro-Oeste possui dois Tribunais Eclesiásticos, presentes nas províncias de Brasília e Goiânia, que acolhem, através das Câmaras Eclesiásticas das Dioceses, os processos que pleiteiam a Declaração de Nulidade dos matrimônios. Temos ainda outros tribunais em via de criação. Por isso, é importante ficar atento à realidade de sua Arqui/Diocese para oferecer suporte para os trabalhos judiciais.

Outro desafio ainda por vencer, também necessário para a ressignificação da Pastoral Familiar, se encontra na constituição do Núcleo de Formação e Espiritualidade, responsável pela formação e espiritualidade dos agentes da Pastoral Familiar. Ressalte-se que a formação também deverá ser pensada a partir das paróquias, favorecendo sua aplicação nas diversas realidades concretas, pois infelizmente a formação Regional e Diocesana não tem chegado até elas. Por isso, uma avaliação sincera da situação é necessária para identificar as razões dessa ineficiência na multiplicação dos conteúdos.

Uma Igreja ferida
Por fim, ao olharmos para a nossa realidade, nos deparamos com uma Igreja ferida pelas inúmeras situações que dificultam seus trabalhos. Importante lembrar que a Igreja está inserida em um contexto social, sofrendo também as consequências do meio. Choramos os sacerdotes que abandonaram seus ministérios, choramos os casais que se separaram, choramos os escândalos sexuais, administrativos… Somos uma Igreja ferida.

Mas ser uma Igreja ferida não implica ser uma Igreja entristecida, pois ser ferida nos faz lembrar da fragilidade humana e também da providência divina. Em meio às dores deverá surgir a esperança e a confiança no cuidado de Deus.

Quem ama, ama na alegria e na dor. Não condicione seu trabalho, sua doação, sua entrega às dores. Não sejamos propagadores das dores. É importante lidar com as feridas, com verdade e maturidade. A solução não é fazer de conta que não temos problemas, tampouco escancará-los, mas sim, ter atitude de agentes transformadores de realidades difíceis. Não podemos nos prender ao choro, temos que nos levantar e reerguer essa Igreja caída.

Cabe-nos lembrar que Cristo é a Cabeça da Igreja e sempre estará erguida. Independente de os outros membros estarem fragilizados, a Cabeça se encontra plena. “Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus.18E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mt 16,17-18).
Torne-se agente transformador das realidades difíceis, ame esse Igreja na alegria e na tristeza, Deus proverá caminhos de solução.