Dom José Silva Chaves

O matrimônio, escrevia Leão XIII, não é um contrato qualquer, mas um contrato sagrado por sua própria força, natureza e caráter. O Concílio Vaticano II, depois de fazer uma exposição do estado atual do matrimônio e da família, começa fazendo “uma exposição mais clara de alguns pontos capitais da doutrina da Igreja a respeito desse sacramento” (GS 47). O primeiro ponto que toca o Concílio é a exposição do “caráter sagrado do matrimônio e da família” (GS 48). Vamos tratar, portanto, de um tema atual, de grande interesse, e que tem relevância especial na teologia e na pastoral de hoje.

Tem-se falado muitas coisas sobre o matrimônio e a família numa ótica humana e cristã; mas muito pouco sobre as características da espiritualidade própria dos esposos cristãos. A espiritualidade é a fonte segura donde os esposos vão tirar soluções para todos os problemas, conjugais e familiares, e a força para viverem em profundidade e em toda sua amplitude seu sacramento.

O tema da espiritualidade matrimonial é vastíssimo, daria matéria para um curso completo sobre o assunto. Toda a vida cristã é um chamado que Deus faz ao homem, para que se una a Ele, chamado ao qual o homem há de corresponder com sua atitude pessoal.

O Concílio estabelece este princípio: “É muito claro que todos os fieis, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade, isto é, da santidade” (LG 40).

As razões que podem convencer-nos desta universal vocação de todos os cristãos não só para a salvação, mas também para a perfeição da vida cristã na caridade, isto é, na santidade, podem resumir-se no seguinte: Todos nós formamos o Povo Santo de Deus.

Deus que é o “único Santo”, se dignou chamar-nos à sua Igreja para formar o novo Povo de santificação. Todos nós, os batizados, formamos a grande Família de Deus, à qual amou Cristo como sua Esposa “entregando-se a Si mesmo por ela para santificá-la (Ef 5,25-26), uniu-a a Si como seu próprio corpo e a enriqueceu com o dom do Espírito Santo para a glória de Deus” (LG 39). Se todos nós formamos esta Igreja de Deus, é claro que todos na Igreja temos de viver esta vocação de santidade a que está chamado todo o Povo de Deus.
“Por isso, na Igreja, todos, sem exceção, os que apascentam (hierarquia) e os apascentados por ela, estão chamados à santidade” (LG 39). Toda a vida cristã consiste em configurarmos com Cristo nossa cabeça, e sermos fieis discípulos do mestre e modelo de toda perfeição.

Além disto, temos o mandato expresso do Mestre: “Sede santos como vosso Pai celestial é santo” (Mt 5, 48). Cristo “pregou a todos e a cada um dos seus discípulos, qualquer que fosse sua condição, a santidade de vida da qual Ele é a fonte e fim” (LG 40).

Um dos atributos essenciais de Deus é a santidade, origem e fonte de toda outra santidade. “Sede santos, porque Eu sou santo, Javé, vosso Deus” (Lv 19, 2-3). A santidade é exigência do batismo. “Os seguidores de Jesus Cristo são chamados por Deus não por suas obras, mas segundo seu desígnio e sua graça. Eles são justificados no Senhor Jesus porquanto pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente filhos de Deus e participantes da natureza divina, e, portanto, realmente santos” (LG 40).

Apoiados nesta realidade de haver sido constituídos em criaturas novas, São Paulo exorta aos cristãos a viver “como convém aos santos” (Ef 5,3), e que “como eleitos de Deus, santos e amados, se revistam de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia, paciência” (Col 3,12) e produzam frutos do Espírito para a santificação (Gal 5,22; Rom 6,22).

No caminho da santidade cristã há grande diversidade. “Uma mesma é a santidade que cultivam, nos múltiplos gêneros de vida e ocupações, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, e obedientes à voz do Pai, adorando-o em espírito e verdade, seguem a Cristo pobre, humilde e carregado com a cruz, a fim de merecer participar de sua glória”, contudo, “cada um deve caminhar sem vacilação segundo os dons e funções que lhe são próprias” (LG 41).

As bem-aventuranças são tão suaves e belas que Jesus Cristo preconiza e aponta como o segredo da santidade, que a legião de santos soube realizar tão admiravelmente. O cumprimento dos mandamentos da lei de Deus faz o bom cristão. A fidelidade aos conselhos evangélicos faz o homem perfeito. A prática das bem-aventuranças faz o santo. O Papa Francisco comenta muito bem na Exortação Gaudete et Exsultate.

A verdade é que Deus chama todos os homens à santidade. É uma lei universal “sede santos!” Ora, Deus, chamando para um ideal, dá as graças necessárias para realizá-lo, porém, a graça não realiza a obra, mas nos ajuda a realizá-la. Deus não pode salvar-nos sem nós; nem nos santificar sem a nossa cooperação. Uma verdade fundamental que sempre deveríamos ter diante dos olhos é que sem Deus nada podemos (Jo 15,5) e que com Ele tudo nos é possível (Fl 4,13). Eis o segredo dos Santos, a fonte de sua força. Deus é Pai de todos, e não tem amizade particular com ninguém, senão com os pequeninos e com os humildes. “Ele resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes” (Jo 6,6). A criatura mais santa que o mundo já viu é Aquela que sendo escolhida para ser a Mãe de Deus, proclamou-se a escrava do Senhor!

São múltiplos e concretos os caminhos para realizar este ideal de santidade a que todos nós somos chamados, porque múltiplos são os gêneros de vida, ocupações, circunstâncias e funções. Atendendo aos principais estados de vida em que podem encontra-se os cristãos, podemos reduzir os caminhos da santidade em três:

Vida consagrada pela função ministerial (bispos, presbíteros e demais ministros sagrados). Pela vocação a que foram chamados e os mistérios a que servem “devem conservar-se imunes de todo vício, agradar a Deus e fazer todo o bem diante dos homens” (Tim 3,8-10.12-13). LG 41

Vida consagrada pela prática dos conselhos evangélicos. “A santidade da Igreja se mantém de uma maneira especial com os múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho para que os observem seus discípulos” (LG 42).

Vida consagrada pelo sacramento do matrimônio. Deste caminho de santidade é que vamos falar mais detidamente, já que é o caminho que vocês escolheram e no qual devem realizar sua vocação concreta à santidade. “Os esposos e pais cristãos, seguindo seu próprio caminho, devem apoiar-se mutuamente na graça ao longo de toda a caminhada da vida; desta maneira oferecem a todos o exemplo de um incansável e generoso amor, contribuem para a estabilidade da fraternidade e da caridade e se constituem em testemunhas e colaboradores da fecundidade da mãe Igreja, como símbolo e participação daquele amor com que Cristo amou a sua Esposa e se entregou a Si mesmo por ela” (LG 41).

Hoje em dia se insiste muito nesta maneira específica de viver a santidade que hão de ter os esposos cristãos. Antigamente, se considerava talvez o matrimônio como uma espécie de impedimento ou de atraso no caminho da santidade. Com frequência vinha sempre à tona os outros dois caminhos, deixando o caminho do matrimônio como um caminho de segunda classe.

Felizmente essa concepção pejorativa do matrimônio como caminho de santidade foi superada; já se fala com frequência, de uma espiritualidade matrimonial, considerando o matrimônio como um dos caminhos queridos por Deus, como qualquer outro, para viver a vida cristã em toda a sua intensidade e perfeição.

Se é verdade que toda santidade consiste em viver o amor e em dar uma resposta amorosa ao Amor de Deus, que nos amou primeiro, a espiritualidade conjugal acentua ainda mais esta vivência de amor como realização da santidade, já que a santidade matrimonial consiste precisamente, e de maneira expressa, em viver uma vida de amor total.

Sendo a união entre o homem e a mulher um sacramento, instituído por Jesus Cristo, torna-se um lugar do encontro com Deus. Deus está presente nessa união e não cessa de vir ao encontro dos esposos. Ele os ajuda a se utilizarem de todos os aspectos difíceis do casamento. O matrimônio se transforma numa ocasião de viverem uma unidade mais profunda mediante a aceitação cotidiana do outro. É a ocasião de viverem não somente as alegrias profundas dessa união, mas também o perdão, como insiste tanto o Papa Francisco, em todos os seus escritos.

Perdão é o grande dom de Jesus à humanidade. Jesus veio para nos perdoar e nos possibilitar viver o perdão. Perdão é um amor efetivo pelo próximo que se encontra ferido, vulnerado, temeroso e que quebrou a união. Perdão é compreender que todos os bloqueios, todos os atos agressivos derivam em grande parte de sofrimentos anteriores, de angústias e temores. Perdão é acolher o outro tal qual ele é, com todas as suas feridas, todo o seu passado. Perdão é reconhecer e demonstrar a aliança com o outro.

Esse perdão, proveniente do coração de Deus, é o que cura o homem em profundidade. Quando alguém faz a experiência desse perdão, torna-se, por sua vez capaz de perdoar.

As famílias cristãs unidas são sinais a manifestar que o amor, a unidade e a paz são possíveis. Com suas características, cada uma constitui a célula inicial de toda a unidade, de todo o perdão, de toda a comunidade, de toda a fecundidade; por isso, são sinais de esperança.

Quando os esposos se perdoam facilmente, é sinal que se amam de verdade, estão, pois, realizando o amor de Cristo e nisso consiste especialmente a santidade, em viver o amor de Cristo em todos os gestos.

O Papa Pio XI concedeu uma indulgência, que chama a atenção, aos fieis da arquidiocese de Westmister. Todo consorte que beije o anel de boda de seu cônjuge pode alcançar 100 dias de indulgência se o faz recitando a seguinte oração: “Concede-nos, Senhor, que te amando nos amemos mutuamente e possamos viver segundo tua lei”.

Os esposos não precisam ir longe para buscar seu próprio caminho de santidade. Já o têm dentro do lar. O amor conjugal autêntico é um amor sacramentalizado, que faz aparecer Cristo em todas suas manifestações.

A espiritualidade de “dois em comum” é outra característica específica da espiritualidade matrimonial: a de ser uma espiritualidade vivida em comum.

Os esposos se santificam vivendo em comunidade de amor. Se se empenham em viver cada qual sua vida espiritual independente do outro, não realizarão sua comunidade de amor no que tem de mais santificador e, consequentemente, se condenariam a não conseguir a santidade.

Todos os dias os esposos cristãos devem ter um mínimo de oração comunitária, mas isto não quer dizer que cada um pretenda impor ao outro suas devoções particulares. A participação de ambos, diariamente se possível, à celebração eucarística, será o melhor sinal de mútua união plena com Cristo.

Revisão de vida em comum. Para a confissão deveriam fazer em comum a revisão de vida com plena sinceridade e abertura de um para com o outro. Seria aconselhável também a direção espiritual conjunta.

O casal deve participar de algum movimento paroquial qualquer, a fim de exercer o seu apostolado em comum, como testemunho e realização de sua plena comunidade de amor; trabalhando sem descanso, com fé e esperança, pela renovação e a vivência constante dos ideais do matrimônio cristão, sendo fermento na grande massa indiferente e fria da sociedade em que vivemos.

A espiritualidade matrimonial não fica reduzida à vida dos esposos; deve abrir-se a toda a comunidade familiar. Devem realizar a santidade também enquanto pais. “A educação dos filhos é um dos deveres mais sagrados dos pais, transmitindo-lhes sua fé e sua religiosidade cristã, realizam uma exigência de sua paternidade total (carnal e espiritual) e como a primeira de suas tarefas apostólicas” (AA 11). “A vida familiar em comum traduz a melhor expressão e realização da vida da Igreja, refletida na pequena Igreja que é a família” (LG 11; AA 11).

Outro aspecto da espiritualidade matrimonial é seu caráter de testemunho. Se todos os cristãos devem dar testemunho das virtudes do Reino de Deus em sua vida e em seu ambiente, os esposos têm essa mesma obrigação e, mais ainda, no seio de sua família, porque os pais são os educadores natos de seus filhos; se lhes deram a vida são os primeiros responsáveis por eles.

Senhor, defendei, protegei, robustecei e abençoai as nossas famílias. Que elas sejam exemplo para a nossa sociedade como o foi a vossa Família de Nazaré.