Dom José Siva Chaves

O Concílio Vaticano II, ao falar sobre a família na GS 47-52, não começa dando princípios teóricos sobre a grandeza e a dignidade desta instituição cristã. Começa oferecendo-nos uma descrição realista da situação da família no mundo atual (GS 47). Inicialmente, também oferecemos uma visão panorâmica sobre a situação da família no momento atual.

No mundo moderno, a família também se apresenta com características novas. Isso é tão verdade que às vezes dá a impressão de que nos encontramos diante desta disjuntiva: ou que a família tende a desaparecer totalmente, ou que se trata de algo completamente diferente do tradicional. Quais explicações para essa revolução dentro da instituição familiar? Como podemos solucionar os problemas familiares?

Para se ter uma ideia mais exata do estado atual da família é conveniente que voltemos nosso olhar para sua situação anterior, buscando identificar os sintomas dessa profunda evolução. A partir desse olhar, podemos projetar o autêntico rosto da família do amanhã, destacando os princípios imutáveis que devem reger essa instituição, tendo em conta sua adaptação às novas situações.

Para compreender a situação da família de ontem vamos considerá-la sob dois aspectos complementares: o aspecto sociológico e o aspecto religioso.

Quanto ao aspecto sociológico, dentro de nossa cultura ocidental, tendo em conta as distintas bases sociológicas, encontramos a família patriarcal, que, em seu sentido pleno, desapareceu quase por completo da atual sociedade ocidental, mas ainda mantém suas marcas, sobretudo, em ambientes rurais que não sofreram o impacto da revolução urbana e industrial. Esse tipo de família, da qual grande parte de nós procedemos, possui peculiares características.

Nela, a primazia do princípio da autoridade de forma exagerada era comum, concentrada exclusivamente no chefe da família. Desse princípio, observa-se a sujeição absoluta da mulher à vontade do marido (nos gostos, na escolha do lugar onde morar, tipo de casa…). Embora considerada “rainha do lar”, a mulher não passava de uma rainha escrava do lar. O marido é que tinha a suprema autoridade, o que dirigia a economia, e o que intervinha na vida social.

Desse princípio também decorre a sujeição total dos filhos às ordens do pai, até em assuntos de relevante importância, como a escolha do estado de vida: solteiro(a), casado(a) etc. A autoridade do pai compunha-se das gravíssimas obrigações de vigiar, corrigir e castigar, e por parte dos filhos o estrito dever de respeitar e de obedecer.
Este sentido de autoridade familiar concentrado no marido como cabeça da família se reflete em todos os códigos civis e até no Evangelho, a exemplo de Ef 5, 22-23 (subordinação da mulher ao marido, “porque o marido é a cabeça da mulher”) e 1Cor 7, 36 (o pai é quem dispõe o casamento da filha).

A afetividade conjugal ficava em segundo lugar. As relações conjugais não tinham nenhuma manifestação fora da mais estreita intimidade do lar, a tal ponto que parecia indecoroso qualquer manifestação dos esposos diante dos olhares dos demais. O esquema essencial parecia ser o seguinte: “o amor para os noivos; os casados já vivem juntos”. Dava-se relevante importância à fecundidade dentro do matrimônio: o que contava eram os filhos, sem olhar demasiado para a promoção humana dos mesmos, e menos ainda a perfeição e o enriquecimento afetivo dos esposos.

Este tipo de família, que se prolongou durante séculos em nossa sociedade, é precisamente a que agora está em revisão e na qual ocorrem os problemas mais agudos ao buscar adaptar-se às novas circunstâncias.

Quanto ao aspecto religioso, a família de todos os tipos e de todas as idades têm tido, de uma maneira ou de outra, um senso religioso e sagrado. Na família de ontem, poderíamos assinalar em relação à teologia do matrimônio, que havia um “déficit” de teologia e uma “inflação” de direito, embora não se negue o caráter sacramental do matrimônio, considerado quase que exclusivamente na perspectiva de contrato humano sobre um fundo de instituição natural imutável.

Poderíamos resumir em três aspectos a moral matrimonial e familiar: fidelidade, indissolubilidade e fecundidade.

A fidelidade, baseada na unidade e indissolubilidade do matrimônio, descarta o adultério e o divórcio como dois vícios opostos e confirmam a família como célula da sociedade, não somente por título jurídico e econômico, mas também por sua grande força educativa. Nela se exercitam as virtudes que fazem possível a convivência social: a responsabilidade, a compreensão, o autodomínio.

É impossível imaginar a convivência humana sem essas forças morais. Mas para que elas possam brotar do solo da família, esta há de ser duradoura, constante, segura: há de ser indissolúvel. Por isso, não tenhamos medo de cair em exagero afirmando que o matrimônio indissolúvel é a argamassa imprescindível da convivência social. Suprimamos a indissolubilidade e veremos como cai em pedaços o edifício da sociedade humana.

A procriação dos filhos era considerada o fim primário do matrimônio, carregando o assento sobre o dever da fecundidade, que diminui cada vez mais na atualidade…

Quanto à espiritualidade, não podemos negar os grandes valores espirituais que se desenvolveram dentro das famílias cristãs. Contudo, podemos afirmar que a espiritualidade, especificamente, matrimonial é relativamente nova. Na família se vivia uma “espiritualidade de terciários”; isto é, calcada sobre os módulos de uma espiritualidade conventual.

Depois de uma rápida visão da situação da instituição familiar nas gerações passadas, definimos a situação da família na atualidade em três palavras: mudança, crise e revisão.
Quanto ao estado de mudança, é evidente para todos que a instituição familiar se encontra em um momento de mudança e evolução, naturalmente, devido ao processo de transformação a que está sujeito o mundo atual.

A crise que tem provocado esse estado de mudança e evolução na instituição familiar decorre de vários fatores. Dentre os quais, citamos problemas sociopsicológicos: “a atual situação econômica, sociopsicológica e civil são a origem de fortes perturbações para a família” (GS 47). Como a instituição se apóia em condicionamentos sociopsicológicos, ao mudar estas situações, é natural que se provoque idêntica mudança na família. A tranculturação, passagem de uma cultura para outra, de uma cultura rural para uma cultura urbana; de uma cultura agrícola para uma cultura industrial, leva a família a se acomodar à nova cultura. Rompe-se o círculo fechado da família com a emigração, a terra já não tem sentido de coesão, ocorre dispersão da família por causa do trabalho, há mudanças notáveis na relação autoridade-obediência, os filhos já não seguem necessariamente a profissão dos pais, ocorrem mudanças sociais com maior facilidade.

Mas querer “reformar” o matrimônio, propalando falsas máximas, destrói nesciamente os valores mais sagrados. O que o mundo necessita não é a reforma do matrimônio, mas o matrimônio cristão, reto, moral e indissolúvel. A tese de que o matrimônio não é invenção humana, mas instituído por Deus , “coisa sagrada”, cuja essência não depende da vontade humana, justificam a impossibilidade de se mudar sua lei básica, posto que o matrimônio cristão é sacramento.

O caos e desvario que reinam nesta questão são motivados pelas paixões humanas, que se intrometeram nas leis divinas e cortaram a sua raiz vivificadora, arrancando o matrimônio do solo divino, para “reformá-lo” segundo as exigências cegas da natureza humana, dada ao sensualismo.

Pergunto: – É necessário, é sequer lícito reformar o matrimônio?
Assim respondem: – “Se em volta de nós tudo mudou, se vivemos em circunstâncias econômicas e formas de vida completamente novas, também o matrimônio deve-se amoldar à nova situação”.

Ninguém nega o grande progresso que a humanidade realizou nestes últimos anos, no campo da ciência e da técnica. Mas o semeador da vida humana, apesar das grandes transformações operadas no mundo, continua a ser o mesmo: a família. Não é lícito tocar com mãos sujas e grosseiras esta fonte. A família há de ser sempre a fonte pela qual a humanidade se rejuvenesce constantemente. A família há de ser sempre a porta pela qual entra na vida a nova geração humana, para ocupar o posto que deixa vazio a geração que baixa ao túmulo, à sepultura.

Portanto, o que se necessita não é a “reforma” do matrimônio, tal como o propalam homens embriagados pelo afã do prazer: “matrimônio de camaradas”, “de experiência”, “de fim de semana”, “do mesmo sexo” e outras mil loucuras. Não, não é isto de que nós necessitamos. O que necessitamos é salvar, robustecer o “matrimônio antigo”, pelo qual chegamos ao atual desenvolvimento cultural e que a Igreja de Cristo não cessa de defender, fomentar e exigir.

A ninguém constrange mais do que à Igreja o grande abismo que se abriu no campo do matrimônio entre o ideal cristão e a triste realidade. É que há valores absolutos, há exigências que não se podem mudar nem reformar, ainda quando os abandone o mundo inteiro. Assim se compreende porque a Igreja Católica, ainda achando-se só, continua a sustentar uma luta sobre-humana pelo ideal perfeito que Cristo propôs, isto é, pelo matrimônio indissolúvel.

A luta contra o matrimônio é apenas uma forma de guerra desencadeada contra Deus pelas diversas escolas filosóficas, materialistas e ateias. Portanto, quem deseja ver Jesus Cristo reconhecido e adorado no mundo, não pode alistar-se nas fileiras dos que lutam e apregoam a destruição do matrimônio.

Há, é verdade, um obscurantismo da instituição familiar. Na imagem da família atual há sombras, e por certo bastante escuras. Não fazemos mais que repetir as palavras do Concílio: “A dignidade desta instituição não brilha em todas as partes com o mesmo esplendor, posto que está obscurecida pela poligamia, a epidemia do divórcio, o amor livre e outras deformações”. E “mais ainda, o amor matrimonial fica frequentemente profanado pelo egoísmo, o hedonismo e os usos ilícitos contra a geração” (GS 47).