Pe. Dilmo Franco de Campos

A partir do momento em que adquirimos o uso da razão, começamos inexoravelmente a fazer escolhas, dizer o que gostamos e o que não gostamos, o que queremos e o que não queremos. As opções colocadas diante de nós requerem uma tomada de decisão. E para que as nossas decisões se tornem trampolins para a nossa felicidade, e não obstáculos, precisamos ter critérios, ter um norte para saber por onde ir. Torna-se necessário encontrar um fundamento na nossa vida para que as nossas escolhas nos conduzam sempre em direção à felicidade.

O que é importante saber e o que é necessário saber para não perder o rumo da vida? Para nós cristãos, Jesus Cristo é o centro da nossa vida e das nossas escolhas. Ele deve ser a nossa meta.

Jaime Espinosa, no seu livro “Questões de Bioética”, cita parte de um artigo de G.K. Chesterton, de 1910, intitulado “As raízes do mundo”. Chesterton contava a história de um rapazinho que morava numa grande casa com jardim. Tinha autorização para colher as flores, mas não para arrancar as plantas pela raiz. Uma delas, porém, um pequeno espinheiro insignificante, com flores brancas em forma de estrela, atraía especialmente a sua curiosidade.

Os seus tutores, gente digna e formal, davam-lhe diversas razões pelas quais não devia arrancar essa flor, mas só conseguiam espicaçá-lo. Por fim, numa noite escura, com o coração a bater-lhe fortemente no peito, o menino esgueirou-se até o jardim. Repetia de si para si que “a verdade” exigia que arrancasse aquela planta, e que, afinal de contas, o assunto todo não tinha mais importância do que colher umas maçãs à beira do caminho. Pôs-se a puxá-la, mas ela se agarrava obstinadamente ao chão, como se tivesse grampos de ferro em vez de raízes. No terceiro puxão, o rapaz ouviu atrás de si um grande ruído, e ao voltar-se verificou que a cozinha e o telheiro tinham desabado. Fez ainda um derradeiro esforço, mas quando ouviu, ao longe, o estábulo ruir e os cavalos fugirem relinchando, correu de volta para a cama e enrolou-se nos cobertores.

No dia seguinte, depois de verificar que os desastres da noite tinham sido reais e não imaginários, obstinou-se em pensar que não tinham relação nenhuma com a planta ou os seus puxões. E, num dia em que o nevoeiro envolvia todas as coisas no seu manto, voltou a agarrar o pequeno espinheiro e a puxá-lo com todas as forças, até que lhe chegaram, afogados pela neblina, os gritos de pânico da população a anunciar que o castelo do rei caíra, as torres da costa tinham ruído e metade da cidade mergulhara no mar. Assustado, deixou em paz aquela planta por algum tempo, embora nunca chegasse a esquecê-la completamente.

Quando chegou à idade adulta e os desastres que causara já tinham sido consertados, passou a dizer abertamente: “É preciso resolver o mistério dessa erva irracional. Em nome da ‘verdade’, devemos arrancá-la”. Reuniu um grande bando de homens fortes, e todos puseram as mãos sobre a pequena planta, puxando-a sem cessar. A Muralha da China desabou ao longo de cem quilômetros, as Pirâmides desfizeram-se em pedras soltas, a Estátua da Liberdade caiu sobre dois terços da frota americana e afundou-os, a Torre Eiffel arrasou Paris na sua queda, o Japão submergiu no mar… Depois de vinte e quatro horas, aqueles homens fortes tinham arrasado metade do mundo civilizado, mas não tinham conseguido arrancar o pequeno espinheiro.

“Não desejo cansar o leitor relatando-lhe todos os detalhes dessa história realista” – diz Chesterton -, “como a ocasião em que usaram primeiro elefantes e depois locomotivas a vapor para arrancar a flor, e o único resultado foi que a planta resistiu bravamente, embora a lua começasse a apresentar rachaduras e até o sol tivesse passado a vacilar”. Por fim, a humanidade revoltou-se e pôs fim a essas tentativas.

Muito antes disso, porém, o rapaz tinha abandonado a tarefa, deixando-a para os outros, enquanto dizia aos seus tutores: “Vocês deram-me inúmeras respostas elaboradas e vãs sobre por que eu não devia arrancar esse espinheiro. Por que não me deram as duas únicas respostas verdadeiras: primeiro, que não sou capaz de fazê-lo; e, segundo, que eu destruiria tudo o mais se o tentasse? ”

Spinosa diz que essa parábola se vem revelando especialmente profética no campo das ciências biológicas e da medicina moderna. Cientistas do mundo inteiro vêm tentando arrancar as raízes da vida biológica para encontrar “a verdade” sobre a natureza humana, mas não conseguem fazê-lo pelos seus métodos, nem nunca o conseguirão. O que conseguem, em certa medida, é apenas “destruir tudo o mais”. Não é que o progresso científico em si seja mau, antes pelo contrário; mas o grande erro que se comete tantas vezes é pensar que a verdade científica pode substituir a Ética, ou pelo menos tomar-lhe o primado. Porque é somente a Ética, e mais ainda, a Ética revelada por Deus e proposta pela Igreja, que consegue compreender a verdade sobre “as raízes do mundo”.

O termo “escolha fundamental”, mais comumente chamado de “opção fundamental”, passou a ser usado de modo mais amplo no campo teológico moral somente a partir da segunda metade do século XX. Mesmo sendo de uso recente, seu conteúdo é fundado na própria Sagrada Escritura, sobretudo quando se refere à palavra “coração” e às implicações deste termo no agir do homem.

Segundo a Veritatis Splendor (VS 65), a Opção Fundamental é uma “decisão sobre si mesmo e determinação da própria vida a favor ou contra o Bem, a favor ou contra a Verdade, em última análise, a favor ou contra Deus”. Essa decisão dá, por sua vez, ‘forma’ a toda a vida moral de um homem, configurando-se como o sulco dentro do qual poderão encontrar espaço e incremento às demais escolhas quotidianas particulares”

A Escolha Fundamental (EF) pode ser considerada como o tônus do agir moral, isto é, como a disposição de base que leva o homem a estar decidido, intencionalmente, ao Bem, à Verdade, a Deus. Como fim preciso ou ainda como a autodeterminação fundamental do indivíduo que envolve sua vida em plenitude, que toca as estruturas que sustentam todo o seu dinamismo ético, dando forma à vida moral do sujeito.

Se de um lado, a opção fundamental atua e se concretiza nas escolhas concretas, são estas que, no dever humano histórico, colaboram para a formação e solidificação da interioridade ética do sujeito, particularmente de sua EF. Cada escolha traz consigo uma afirmação ou negação do Bem, de modo que, escolhendo promover ou rejeitar o Bem, o sujeito não só escolhe sobre alguma coisa, mas assume ou rejeita o Bem em sua vida. Assim, cada escolha tem seu significado ético e o seu peso na construção real da personalidade moral de um sujeito ético, da sua estrutura moral mais profunda e fundamental – escolho alguma coisa escolhendo sobre mim mesmo.

A escolha fundamental do cristão é acolher Deus como Pai. É acolher o outro como irmão. Reconhecer o Senhor na humanidade de Jesus é reconhecer o sentido do humano no modo pelo qual Ele o viveu sobre a terra, reconhecer como autenticamente humana a intencionalidade própria do seu fazer-se próximo e assumir aquela mesma intencionalidade como própria. Acolher a comunhão com Ele é assumir como própria a lógica do amor que é a Sua, de modo que seja ela a motivar, ordenar e conduzir todo o compreender e o julgar, o decidir e o agir. É a moralidade que vem compreendida e assumida em termos de caridade: moralmente bom é o que é conforme a caridade. (S. BASTIANEL, «Una opzione fondamentale di fede-carità», 73 )

E para percorrermos esse caminho, jamais esqueçamos da Mãe de Jesus e nossa mãe: Maria. No mistério de Cristo e da Igreja, Maria ocupa um lugar eminente. O próprio Concílio Vaticano II afirma que ela “ocupa na Igreja o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós” (LG 54).

E que nos momentos de dificuldade, “Maria, a Mãe que Jesus ofereceu a todos nós, possa sempre amparar os nossos passos e dizer ao nosso coração: ‘Levanta-te! Olha em frente, olha para o horizonte’, porque Ela é Mãe de esperança”.